Transparência para proteger crianças
Os escândalos de pedofilia revelados com a divulgação dos chamados Epstein Files expuseram algo ainda mais perturbador do que os crimes em si: a existência de redes de proteção institucional capazes de garantir silêncio, impunidade e continuidade dos abusos.
Entre os dados que chocam está o fato de o Brasil ser citado 3.384 vezes nos documentos, ora em referências políticas tangenciais, ora em menções muito mais sensíveis — incluindo o interesse em buscar crianças brasileiras para alimentar um esquema internacional de exploração sexual.
Nenhuma sociedade, em condições normais, acreditaria sequer em parte do que veio à tona. Ainda assim, os fatos são documentados. Um promotor norte-americano, mesmo diante de provas, celebrou acordo que permitiu a Jeffrey Epstein seguir abusando de crianças por anos. A consequência só veio depois, quando os arquivos se tornaram públicos: a transparência obrigou a responsabilização: foi exonerado do cargo que ocupava no governo.
A lição é dura, mas clara.
O tema não é distante de nós.
Em passado não tão remoto, crianças brasileiras, com o poder familiar destituído pelo Judiciário, foram encaminhadas para adoção internacional.
Foram.
E o Estado brasileiro, a partir daí, deixou de acompanhar efetivamente seus destinos.

Sem ilações fáceis, mas com responsabilidade histórica, é impossível ignorar que a ausência de controle e de transparência cria zonas cinzentas.
É aqui que a discussão precisa ser enfrentada sem hipocrisia: o segredo processual, quando aplicado indistintamente a casos de pedofilia, protege o agressor.
A vítima deve, sim, ser resguardada — sua identidade, sua intimidade, sua dignidade. O ofensor, não. Tornar invisíveis acusações e condenações por crimes contra crianças é permitir que predadores se movam livremente, amparados pelo silêncio institucional.
Então colunista do DEMOCRATA Josanete Monteiro já advertia há anos: em se tratando de pedofilia, não se confia em ninguém (Clique AQUI e leia). O Caso Epstein apenas confirmou essa verdade incômoda. A única defesa efetiva da sociedade é a transparência — permanente, vigilante e corajosa.
Urge discutir a alteração da legislação brasileira para um modelo misto: privacidade absoluta para a vítima; publicidade para o ofensor, especialmente após condenação. Países que adotam cadastros públicos de abusadores não o fazem por vingança, mas por prevenção. Mesmo assim, como mostrou Epstein, nenhum sistema é infalível quando a transparência é relativizada.
O preço da paz é a eterna vigilância. A proteção de nossas crianças custa caro. E o preço chama-se transparência.
Quem protege o lobo, sacrifica a ovelha.
Isso não é justiça.
É cumplicidade.





COMENTÁRIOS