Cade as notas de repúdio?
A indignação, quando é genuína, não escolhe lado, farda ou conveniência política. Ou ao menos não deveria.
Meses atrás, a acusação de agressão envolvendo um Guarda Civil Municipal e um morador de rua foi suficiente para provocar reações imediatas de vereadores. Sidnei Marin Morgan e Fernando Gomes divulgaram notas de repúdio. Alexandre Tosini foi além: exibiu vídeos obtidos de forma duvidosa, áudios editados e construiu uma narrativa pública apontando responsáveis — curiosamente, todos seus desafetos pessoais, ainda que sequer estivessem presentes no local do fato. Houve barulho, holofotes e discurso inflamado.
Agora, a situação é incomparavelmente mais grave. Um policial militar foi acusado de agredir um jovem e um adolescente. Um deles morreu. A acusação de é gravíssima, embora veiculada por comentários em um blog em redes sociais, é de extrema gravidade e exigiria, no mínimo, o mesmo ímpeto moral demonstrado anteriormente. Mas o que se vê é silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
Morgan e Fernando Gomes não se manifestaram. Tosini, tão afeito a vídeos e discursos indignados, não postou absolutamente nada. Nenhuma cobrança pública por investigação, nenhuma nota, nenhuma palavra. Surge, então, uma pergunta inevitável e incômoda: a vida do morador de rua vale mais do que a vida do jovem que morreu? Ou os Guardas Civis Municipais merecem menos respeito — ou menos temor político — do que os policiais militares?
No segundo caso, a vítima é um adolescente, de boa família, sem qualquer passagem pelo crime. Ainda assim, o trio de vereadores permanece sob um manto de silêncio profundamente constrangedor. Não há vídeos em redes sociais, não há publicações, não há nota de repúdio. Não há indignação.
Por derradeiro, é impossível ignorar um dado revelador. O policial acusado da violência recebeu, no ano passado, uma das centenas de homenagens concedidas pela Câmara Municipal.
As mesmas homenagens distribuídas por vereadores que, pouco tempo depois, aumentaram seus próprios salários e instituíram um 13º pagamento. Na extensa lista de homenageados de 2025 constam, além do agora acusado, servidor envolvido em desvio de bens públicos destinados ao esporte infantil, barbeiro acusado de pedofilia e um violento agressor.
Isso não é detalhe. Isso fala muito. Fala sobre critérios inexistentes, sobre homenagens banalizadas e sobre um Legislativo mais preocupado com alianças, conveniências e gestos simbólicos vazios do que com coerência, responsabilidade e ética.
A sociedade rio-pardense tem o direito de esperar que seus representantes ajam com o mesmo rigor moral em todos os casos. Quando a indignação aparece apenas quando é politicamente segura, ela deixa de ser indignação e passa a ser oportunismo.
E o silêncio, nesses casos, não é neutralidade.
É escolha.





COMENTÁRIOS