Fernanda Ferreira
Suicídio: como intervir de forma efetiva em escolas e comunidades
O suicídio é um fenômeno complexo, multifatorial e prevenível — uma tragédia que acontece em todas as idades, em todos os lugares do planeta. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 720.000 pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo; além disso, o suicídio é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Isso demonstra que a prevenção precisa ser prioridade em políticas públicas, nas escolas e em espaços comunitários.
Dizer “não é só em setembro” é dizer algo essencial: setembro (com o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio em 10 de setembro) traz visibilidade e campanhas, mas a prevenção deve ser contínua — todos os meses, todas as semanas, todos os dias devemos ter estratégias permanentes para identificar risco, reduzir dano e fortalecer redes de acolhimento.
A visibilidade de setembro é uma oportunidade para reforçar práticas que devem existir o ano inteiro.
No Brasil os números também são alarmantes: estudos epidemiológicos demonstram aumentos importantes nas notificações de autoagressão e em óbitos por suicídio nas últimas décadas — por exemplo, análises nacionais documentaram dezenas de milhares de óbitos por suicídio ao longo de períodos recentes e aumentos percentuais relevantes em muitos estados. (Estudos epidemiológicos e revisões sistemáticas nacionais mostram crescimento em registros ao longo da última década.)
É imprescindível que políticas locais incorporem esses dados ao planejar intervenções.
Como agir nas escolas e em ambientes públicos
1. Crie rotinas e políticas claras de prevenção, identificação e encaminhamento
Ter protocolos escritos (quem contatar, quando acionar família, procedimentos de emergência, quem faz o acompanhamento) reduz o improviso e aumenta a segurança.
Modelos de política escolar e guias práticos existem e devem ser adaptados ao contexto local.
2. Educar e treinar a comunidade (professores, funcionários, estudantes e famílias)
Treinamentos para identificação de sinais, conversas de acolhimento e encaminhamento (skill-building) são eficazes.
Programas universais e intervenções baseadas em escola (ex.: SOS – Signs of Suicide; peer programs como Hope Squad) reduzem risco quando bem implementados.
Treinar quem atua na linha de frente aumenta a chance de intervenção precoce.
3. Triagem e programas de detecção (screening) com suporte posterior
A realização de triagens/ screening em escolas pode identificar estudantes em risco, desde que integrada a um sistema de suporte (encaminhamento, avaliação clínica e acompanhamento).
O screening isolado, sem estrutura de resposta, é ineficaz e potencialmente danoso; por isso, planejamento e recursos são essenciais.
4. Reduzir o acesso a meios letais e adotar ações de redução de risco
Ações de saúde pública que limitam acesso a métodos letais (ex.: políticas de segurança com armas, controle de pesticidas, proteção em locais de alto risco) são parte da estratégia nacional recomendada pela OMS (LIVE LIFE).
5. Estruturas de acolhimento, linhas de apoio e serviços de crise
Garantir caminhos claros para quem precisa — linhas de apoio 24/7, serviços de emergência e redes de saúde mental — é imprescindível. Em espaços públicos, campanhas informativas com contatos de ajuda e pontos de acolhimento aumentam a chance de um pedido de ajuda ser atendido.
6. Programas de promoção do vínculo e habilidades socioemocionais
Investir em promoção de pertencimento, habilidades de resolução de problemas, regulação emocional e redução do estigma tem efeito preventivo.
Intervenções em escolas devem incluir componentes de promoção de saúde mental (universal) e ações seletivas/indicadas para quem apresenta risco aumentado.
7. Planejamento de pósvenção (postvenção)
Em caso de óbitos dentro da comunidade escolar ou local, a resposta organizada (postvenção) evita contágio, fornece suporte aos enlutados e reduz risco adicional entre pares e funcionários. Guias de postvenção são parte do planejamento completo.
O papel da Análise do Comportamento (Skinner) na prevenção: pistas práticas
B. F. Skinner e os fundamentos da Análise do Comportamento forneceram bases teóricas e metodológicas úteis para a prevenção do suicídio: analisar contingências sociais, reforçadores e a função do comportamento é relevante quando pensamos em intervenções que visam aumentar comportamentos de procura de ajuda e diminuir comportamentos autolesivos.
Skinner enfatizou que o comportamento é moldado por contingências ambientais e sociais; na prática, isso orienta a criação de ambientes que reforcem a conexão, a comunicação e a busca de ajuda.
Aplicações práticas incluem reforçar abertamente pedidos de ajuda, ensinar habilidades de enfrentamento e modificar contingências que mantenham o isolamento ou o silêncio.
Mensagens centrais para campanhas e para a escola
“Falar salva” — abrir espaço para conversas sem julgamentos.
“Não minimize sinais” — mudanças de comportamento, isolamento, alterações de sono/apetite, retraimento, e comentários sobre morte exigem atenção.
“Direcione para ajuda” — conhecer os canais locais (serviços de saúde, linhas de crise, responsáveis escolares) e ter roteiros de encaminhamento.
“Prevenção é cotidiana” — além de campanhas sazonais, práticas contínuas de cuidado, inclusão e atenção fazem a diferença.
Exemplo prático de ações a serem implementadas (checklist rápido)
Política escolar escrita e divulgada (contatos de emergência, fluxo de encaminhamento).
Formação anual obrigatória para toda a equipe escolar sobre reconhecimento e resposta.
Programa universal de promoção de saúde mental e sessões de habilidades socioemocionais.
Sistema de triagem acompanhado de rota de cuidado clara.
Rede com serviços de saúde mental locais e linhas de crise disponíveis aos estudantes e famílias.
Plano de pósvenção e apoio à comunidade escolar em caso de óbito.
Por fim algumas palavras diretas
O suicídio é uma causa de morte evitável e uma questão de saúde pública que precisa de resposta coordenada.
As escolas e espaços públicos são lugares estratégicos: é onde jovens e adultos convivem, onde sinais podem ser detectados e onde intervenções de acolhimento podem salvar vidas.
Seguir evidências internacionais (OMS/IASP), adaptar programas com base na realidade local e incorporar princípios da análise do comportamento (reforço de pedidos de ajuda, ensino de habilidades, ajuste de contingências sociais) oferece um caminho prático e ético para reduzir danos e fortalecer a vida.
Não falemos de suicídio só em setembro: falemos sempre.
Referências selecionadas (principais fontes citadas)
World Health Organization — Suicide: fact sheet / suicide data (WHO). Estatísticas e recomendações (inclui a abordagem LIVE LIFE e número estimado de óbitos por ano).
World Health Organization / IASP — World Suicide Prevention Day (10 de setembro) e materiais de campanha.
Lancet / artigo regional sobre tendências de autoagressão e suicídio no Brasil (análises 2011–2022 — notificações e óbitos).
Revisões e estudos epidemiológicos brasileiros (dados e tendências históricas; por exemplo, análises que mostram aumentos de óbitos em 2010–2019 e números por ano).
WHO — LIVE LIFE e diretrizes sobre intervenções efetivas de prevenção do suicídio (reduzir acesso a meios letais, identificação e suporte, tratamento para transtornos mentais, e formação).
Revisões sobre intervenções escolares, triagem e programas baseados em escola (WHO technical documents; estudos sobre programas como SOS e revisão de evidências).
B. F. Skinner — Science and Human Behavior / contribuições ao campo da Análise do Comportamento e sua relevância para aplicações clínicas e de prevenção.



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