Entre o remédio e o veneno, a dose e o caráter

Jornal Democrata, edição 1907 de 24 de janeiro de 2026
Entre o remédio e o veneno, a dose e o caráter

Há um princípio antigo, atribuído à medicina, que segue atual e aplicável muito além da ciência da saúde: a diferença entre o remédio e o veneno, muitas vezes, está na dose. 

O mesmo raciocínio vale para valores essenciais à vida institucional, como o espírito de corpo. Quando saudável, ele fortalece organizações; quando distorcido, pode transformá-las em reféns de interesses alheios à sua finalidade.

Instituições públicas sólidas são construídas, em grande medida, pelo esforço individual de bons profissionais. São homens e mulheres que dedicaram anos de estudo, sacrifício pessoal e preparo técnico para serem aprovados em concursos públicos rigorosos e, assim, ocupar os cargos que hoje exercem. A isso se soma um patrimônio imaterial ainda mais valioso: a conduta moral, indispensável para preservar o bom nome da instituição a que pertencem e a confiança da sociedade que representam.

Esse equilíbrio, no entanto, pode ser rapidamente comprometido quando um único membro decide se aliar a parceiros externos — comerciais, políticos ou ideológicos — para a prática de atos  de interesses privados, contrários aos objetivos institucionais. O risco se agrava quando tais condutas passam a ser escudadas indevidamente no espírito de corpo, não como valor ético, mas como mecanismo de proteção pessoal.

Nessas situações, o espírito de corpo deixa de ser virtude e passa a ser instrumento de manipulação. Bons profissionais, muitas vezes movidos pela lealdade institucional, acabam sendo levados — conscientemente ou não — a encobrir práticas que deveriam combater. O resultado é perverso: a reputação da instituição é maculada, e o histórico de bom comportamento desses servidores passa a ser usado como fiador moral de atos que não praticaram e de pessoas com quem, por vezes, sequer mantêm relação direta.

O funcionamento das instituições públicas vem sendo posto à prova diariamente, no Brasil e no mundo. A confiança social, uma vez abalada, não se recompõe com discursos, mas com posturas firmes, transparentes e coerentes. Cabe aos bons profissionais não permitirem que maus profissionais parasitem a estrutura pública para atender a interesses pessoais. Cabe, sobretudo, não aceitar que a proximidade funcional ou a “capilaridade” entre colegas ou agentes externos seja usada para macular a dignidade institucional.

No âmbito das mais altas cortes, a responsabilidade é ainda maior. A sociedade espera que os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal investiguem com rigor e reajam com firmeza a qualquer conduta inadequada entre seus pares. Não se trata de exposição pública gratuita, mas de preservação institucional. Instituições fortes não são aquelas que escondem seus problemas, mas as que demonstram capacidade de enfrentá-los.

Quando o espírito de corpo serve à verdade e à legalidade, ele cura. Quando passa a proteger desvios, torna-se veneno. E, como ensina o princípio inicial, é a dose — e o caráter — que fazem toda a diferença.

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