A Cozinha do STF

Jornal Democrata, edição 1910 de 14 de fevereiro de 2026
A Cozinha do STF

As recentes revelações de trechos das conversas entre ministros do Supremo Tribunal Federal, no julgamento que analisou a suspeição do ministro Dias Toffoli no caso envolvendo o Banco Master, expuseram um bastidor que causa desconforto institucional e profundo desalento cívico.

Não se trata aqui de discutir o mérito jurídico da decisão, mas a forma como ela foi conduzida e, sobretudo, os argumentos externados. A percepção que emerge — ainda que parcial e dependente de interpretações — é a de que critérios políticos e corporativos teriam se sobreposto à reflexão técnica, justamente em uma matéria que exige rigor absoluto de imparcialidade.

Ao que foi divulgado, o ministro Flávio Dino teria manifestado posição firme no sentido de rejeitar, como regra, pedidos de suspeição contra membros da Corte. A ministra Cármen Lúcia teria externado preocupação com a repercussão pública. Já o ministro Edson Fachin, segundo relatos, teria sido o único a sustentar maior ênfase no exame processual estrito. Ao final, prevaleceu o entendimento majoritário, preservando-se a pessoa do relator, mas mudando-se a relatoria.

O episódio alimenta uma sensação inquietante: a de que princípios constitucionais basilares — legalidade, impessoalidade e moralidade — podem, em determinadas circunstâncias, tornar-se conceitos maleáveis quando examinados sob a lente do poder. 

A Constituição Federal de 1988 estabelece, no caput do art. 37, que a administração pública direta e indireta obedecerá a esses princípios. 

Não há ali exceções.

A metáfora popular de que “não se deve visitar a cozinha de restaurantes” revela-se amarga quando aplicada ao Judiciário. O cidadão comum espera que, por trás das decisões judiciais, haja apenas técnica, coerência e fidelidade à lei. Quando o debate interno aparenta contornos políticos, o dano não é apenas jurídico — é concreto. E mina a própria confiança institucional.

A crise de credibilidade das instituições não nasce de um único julgamento. 

Ela se constrói lentamente, a partir da percepção de distanciamento entre o discurso público e a prática interna. Em cidades do interior, como a nossa, não são raras as histórias — muitas vezes tidas como folclóricas — de relações pessoais que supostamente influenciariam resultados judiciais. 

Até pouco tempo, tais narrativas soavam como exagero de botequim. 

Hoje, soam menos improváveis.

Democracias não ruem apenas por rupturas abruptas; enfraquecem quando a confiança se dissolve gradualmente.

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