Márcio Chaves
Semana Euclidiana: evento fechado
Terminou ontem mais uma edição da Semana Euclidiana, o maior evento cultural de São José do Rio Pardo e, possivelmente, um dos mais significativos do interior paulista. Foram dezenas de atividades, realizadas em diferentes locais, muitas delas ocorrendo simultaneamente. Ainda assim, a percepção popular limitou-se quase exclusivamente ao tradicional desfile, enquanto exposições, palestras e debates não tiveram a divulgação necessária para atrair o grande público.
Faltou à organização do evento uma comunicação eficaz, que envolvesse imprensa, lideranças locais e formadores de opinião.
O resultado foi um conjunto de atividades restritas a grupos seletos de Euclidianistas, políticos e acadêmicos. O povo, que deveria ser protagonista, ficou à margem.
Esse distanciamento entre a produção cultural de alta relevância e a comunidade abre espaço para outra questão: a disputa de narrativas.
Enquanto eventos como a Semana Euclidiana poderiam servir como verdadeiro farol a iluminar gerações, oferecendo o contato transformador com a obra monumental de Euclides da Cunha, muitos jovens são levados a acreditar que cultura se resume a expressões superficiais, de apelo imediato, mas sem aprofundamento intelectual.

A esquerda, de forma organizada, atua nesse campo criando uma narrativa segundo a qual manifestações rudimentares – como grafites improvisados e danças elementares com músicas de gosto duvidoso ao fundo seriam a expressão máxima da cultura popular. Esse movimento, além de reduzir o horizonte cultural da juventude, afasta-a do contato com obras que exigem esforço, estudo e reflexão crítica.

O exemplo de Os Sertões é emblemático.
Leitura complexa, que exige dedicação, mas cuja recompensa é a compreensão de uma parte essencial da história e da formação social do Brasil.
Não é por acaso que muitos tentam desqualificar a obra, alegando dificuldade ou pedindo “atualizações” de linguagem.
O objetivo é claro: afastar as novas gerações de um conhecimento que emancipa, que ensina a pensar por conta própria.
É preciso dizer com clareza: a verdadeira transformação social nasce da educação formal e do contato com o conhecimento estruturado.

Não é interesse de quem se beneficia da miséria que os miseráveis deixem de existir.
Por isso, ao mesmo tempo em que oferecem entretenimentos de baixa densidade intelectual, tentam enfraquecer o estudo, a leitura e o raciocínio crítico.
A esquerda quer uma massa que não tenha espírito crítico e que seja economicamente dependente do governo.
A Semana Euclidiana, se bem explorada, poderia ser um instrumento de combate a essa realidade.

Ao apresentar Euclides da Cunha e sua obra para os jovens, poderia mostrar que cultura não é apenas diversão instantânea, mas esforço intelectual que enriquece, emancipa e transforma.
Criar mentes pensantes, espírito crítico que vá além de um grafite.
A cultura brasileira não pode ser reduzida a modismos e repetições caricatas.
É preciso resgatar o valor da literatura, da ciência e da educação como molas propulsoras de uma sociedade mais justa, independente e consciente.
Se a cultura popular é válida como expressão, ela jamais deve substituir o acesso às grandes obras, à leitura crítica e ao conhecimento formal.
A luta por uma sociedade melhor começa nas salas de aula, nas bibliotecas e nos eventos que realmente apresentam conteúdo capaz de transformar.
A Semana Euclidiana é, ou deveria ser, exatamente isso: um encontro da juventude com a experiência dos mestres em uma corrida em que os mais preparados passam o bastão para os neófitos, levando educação, a história e a cultura que libertam.
Esperamos que, um dia, possamos viver essa realidade.



COMENTÁRIOS