Márcio Chaves

Consciência Negra: o peso de um dia e o silêncio de um ano


Consciência Negra: o peso de um dia e o silêncio de um ano Jornal Democrata Edição 1898 de 22/11/2025

A cada novembro, o debate sobre o Dia da Consciência Negra reacende. 

A intenção oficial é promover reflexão, mas a própria necessidade de marcar uma data específica desperta uma contradição: pode-se realmente concentrar em um único dia — ou em uma semana de eventos — uma experiência histórica que moldou todos os aspectos da formação brasileira? A convivência entre símbolo e simplificação é delicada, sobretudo quando se corre o risco de transformar a memória em agenda protocolar.

A entrevista concedida por Morgan Freeman a Mike Wallace, em 2006, segue como uma das provocações mais citadas no mundo. Ao defender que o racismo desapareceria “no dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana”, Freeman sugere que a insistência em classificações raciais perpetua divisões. 



A ideia seduz pela aparência de universalidade e harmonia, mas levanta questões quando aplicada a sociedades marcadas por desigualdades profundas. O silêncio sobre diferenças pode soar nobre — mas também pode se tornar um convite à estagnação.

Há ainda outro ponto a considerar: a tendência moderna de transformar causas legítimas em eventos performáticos. O risco de que datas simbólicas se convertam em espetáculo não é novo; os romanos aperfeiçoaram o uso do “pão e circo” como forma de distração social. 

Quando comemorações se esvaziam de conteúdo e se tornam rotinas festivas, sem diálogo nem ações concretas, o efeito pode ser justamente o oposto do desejado: a aparência de engajamento substituindo o enfrentamento real dos problemas.

Um desses problemas começa bem antes de se falar em mercado de trabalho ou cargos de prestígio: começa na escola. A fala do professor Clóvis de Barros Filho ajuda a iluminar esse ponto ao discutir a lógica do mérito. 

Para ele, os critérios que determinam quem chega às universidades não são naturais, mas escolhidos. 

Ao lembrar que “o jeito que a coisa funciona é do interesse de quem ganha”, o professor mostra que as competências cobradas nos vestibulares correspondem, em grande parte, ao repertório de quem já teve acesso a uma educação mais estruturada. 

Saber as causas da Revolução Francesa pode ser um mérito, mas é um mérito cultivado em ambientes de ensino que oferecem condições desiguais desde o início.

Essa defasagem — entre o aluno que enfrenta escolas públicas fragilizadas e o aluno formado em instituições privadas mais preparadas — é profunda e contínua. 



As consequências aparecem no acesso às universidades públicas, nos cursos mais concorridos e, posteriormente, nos cargos de maior visibilidade e responsabilidade nas empresas e instituições. Há décadas, a presença reduzida de pessoas negras em posições de direção, chefia, academia e mesmo no clero sinaliza que a desigualdade não fica restrita à sala de aula: ela se projeta por toda a estrutura social.

Diante desse quadro, o debate sobre soluções se diversifica. Há quem defenda ações afirmativas nas universidades como forma de corrigir distorções históricas. 

Outros argumentam que, enquanto a base educacional permanecer frágil, medidas tomadas apenas no topo do processo seletivo tenderão a remediar, e não resolver, o problema. 

Uma sugestão possível seria deslocar parte da responsabilidade para as instituições privadas de ensino básico. Exigir que escolas particulares reservem vagas ou políticas específicas para alunos negros, em vez de aplicar esse mecanismo somente na etapa universitária, poderia contribuir para diminuir desigualdades antes que elas se consolidem — distribuindo oportunidades mais cedo, e não apenas no momento final da corrida.

Esse tipo de abordagem desloca o foco do espetáculo para a estrutura. Em vez de celebrar um dia, busca-se atuar nos anos que compõem a formação de uma pessoa. Em vez de esperar que um evento produza consciência, tenta-se cultivar condições concretas para que todos tenham acesso semelhante ao conhecimento, ao desenvolvimento intelectual e às chances de competir de maneira genuína.

O Dia da Consciência Negra, assim, permanece importante como marco simbólico — mas não pode ser confundido com solução. Se datas comemorativas não forem acompanhadas de mudanças reais nas formas de ensinar, avaliar e distribuir oportunidades, permanecerão como rituais bem-intencionados, porém insuficientes. 

A reflexão mais ampla talvez esteja justamente aí: compreender que a história não cabe em um dia e que a desigualdade tampouco será enfrentada apenas com discursos anuais. 

O desafio está em transformar consciência em ação, e ação em condições efetivas de acesso ao que realmente muda destinos: a educação.



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