Márcio Chaves

Quando as leis perdem a moral, a sociedade perde o rumo


Quando as leis perdem a moral, a sociedade perde o rumo

As regras, os combinados e as leis são, em essência, o alicerce de qualquer sociedade organizada. 

São elas que delimitam o que é aceitável, regulam as relações humanas e asseguram o convívio social. 

No entanto, de nada serve um sistema jurídico perfeito em forma se ele for apodrecido em conteúdo — se as leis, em vez de proteger o bem, passarem a chancelar o mal. 

Quando isso acontece, o que se corrompe não é apenas o direito, mas a própria alma de um povo.

O exemplo clássico — e ao mesmo tempo trágico — é o de Sodoma e Gomorra, cidades que se tornaram símbolo da decadência moral e da inversão de valores.

Lá, as leis eram deturpadas a tal ponto que premiavam o erro e puniam a virtude. 

O código social dessas cidades não apenas tolerava o mal: institucionalizava-o.

As normas de Sodoma eram tão absurdas que fariam corar qualquer legislador de boa-fé. 

Se um homem ferisse a mulher de outro e ela perdesse o filho, a “pena” era engravidá-la novamente, mesmo que contra sua vontade — uma falsa reparação que violava a dignidade da mulher e transformava a agressão em direito. 

A quem não tivesse animais, obrigava-se a trabalhar em dobro, cuidando dos rebanhos alheios, como se a carência fosse motivo de punição.

Pior ainda: se alguém fosse ferido e sangrasse, era o ferido quem deveria pagar ao agressor, pois se dizia que “tirar sangue” purificava o corpo. 

E como se não bastasse, a hospitalidade — um valor sagrado em qualquer cultura civilizada — era considerada crime. 

Havia até uma “cama de hóspedes”: se o visitante fosse pequeno demais, era esticado; se fosse grande, amputado, para “caber”. 

Um ritual de falsa bondade, que mascarava a crueldade institucional.

Em Sodoma, até a pedofilia era exaltada. 

O que deveria ser motivo de repúdio se tornava, nas leis e costumes da cidade, uma conduta digna de admiração. 

O resultado não poderia ser outro: a corrupção do coração humano chegou a um ponto de não retorno, e a própria cidade foi destruída — não apenas por castigo divino, mas antes por colapso moral.

Esse exemplo antigo serve como alerta moderno. 

Quando uma sociedade perde seu norte ético, tudo o que é certo torna-se errado, e tudo o que é errado passa a ser tolerado — ou mesmo celebrado. 

É assim que o justo se torna suspeito, e o corrupto se torna “esperto”. 

É assim que o desvio de recursos públicos vira “mal necessário”, que o abuso contra crianças é “reabilitado” como “opção”, e que a impunidade é chamada de “direito”.

Por isso, nenhuma lei é boa se não for moralmente justa. 

Nenhum combinado é legítimo se não for guiado por princípios de verdade, dignidade e bem comum. 

As leis existem para corrigir os desvios humanos, não para legitimá-los. 

E cabe a cada sociedade — sobretudo a seus legisladores e juízes — zelar para que a justiça não se torne uma caricatura de si mesma.

Porque, quando as regras deixam de proteger o bem e passam a proteger o mal, o destino é sempre o mesmo: Sodoma recomeça — disfarçada de civilização.



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