Fabrício Menardi
Caso Jeffrey Epstein: Brasil nas tramas dos arquivos que chocam o mundo
Jornal Democrata, edição 1909 de 7 de fevereiro de 2026 Revelação histórica dos arquivos Epstein
No fim de janeiro de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) liberou mais de 3 milhões de páginas de documentos, cerca de 180 mil imagens e 2.000 vídeos ligados ao caso do financista americano Jeffrey Epstein — acusado e condenado por tráfico sexual de menores e exploração sistemática de jovens em uma rede internacional de abuso.
A divulgação atende à Epstein Files Transparency Act, lei aprovada pelo Congresso norte-americano que exige a publicação integral dos materiais sob custódia do governo. O acervo inclui trocas de e-mails, relatórios de investigação, extratos bancários, fotografias censuradas e vídeos — muitos dos quais sem contexto claro.
O Brasil entra no mapa
Tradicionalmente tratado como um caso centrado nos Estados Unidos e Europa, o caso Epstein ganhou um novo capítulo internacional com menções ao Brasil nos arquivos divulgados. As referências à nacionalidade ou ao território brasileiro aparecem de diferentes formas nos documentos analisados por veículos de imprensa.
1. Menções a personagens brasileiros em trocas de mensagens
Diversos brasileiros — incluindo figuras públicas, profissionais e empresários — foram citados em e-mails ou listas contidas nos arquivos, embora nenhuma dessas citações constitua prova de envolvimento em crimes relacionados ao esquema de Epstein.
Entre os nomes que aparecem estão:
- Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, citado em cerca de 74 arquivos em mensagens atribuídas a figuras como Steve Bannon — sem, porém, evidências de contato direto com Epstein ou participação em atividades ilegais.
- Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente, cujo nome surge em algumas trocas de mensagens. As menções não incluem indicações de relações pessoais ou de negócios com Epstein, e especialistas salientam que constar em um documento não significa culpa.
- Reinaldo Ávila da Silva, brasileiro casado com o britânico e ex-político Peter Mandelson, é relacionado nos documentos a pagamentos feitos por Epstein entre 2009 e 2010, destinados a despesas pessoais e formação profissional.
- Arthur Casas, arquiteto brasileiro de renome internacional, aparece em e-mails nos quais uma assistente de Epstein menciona a possibilidade de uma videoconferência e até uma visita à “ilha Epstein” para discutir um projeto arquitônico — negócios que o próprio escritório de Casas descreveu como preliminares.
- Ford Models e agências de modelos brasileiras também aparecem em e-mails em que se discute um possível acordo de confidencialidade para adquirir ou negociar com essas empresas, segundo registros no material divulgado.
Documentos e relatos sugerem presença de brasileiras em círculos de abuso
Além das menções a nomes, parte das referências nos arquivos trata de relatos e depoimentos com ligações mais diretas ao Brasil — embora ainda cercados de anonimato e censura editorial em muitos trechos:
Um levantamento da BBC News Brasil aponta cerca de 4 mil menções ao país nos arquivos. Em um depoimento de 2010 registrado nos documentos, uma testemunha afirma que Epstein viajou ao Brasil para se encontrar com “clientes” e que uma mulher que lhe fornecia jovens — inclusive menores — estava no país.
O documento contém referências a garotas brasileiras levadas a festas nas propriedades de Epstein, nos Estados Unidos, com duas delas tendo entre 13 e 15 anos, segundo a mesma fonte.
Há indícios, ainda que fragmentados, de uma comunicação por e-mail que menciona pessoas em cidades brasileiras como Natal (Rio Grande do Norte), com discussões sobre logística de viagem e estadia — embora essas partes mais sensíveis estejam frequentemente censuradas nos documentos públicos.
Contexto internacional e limites das informações
Especialistas em jornalismo investigativo e direito ressaltam que aparecer em um arquivo não é sinônimo de envolvimento criminal.
Muitas das citações ocorrem em contextos profissionais, empresariais ou como referências indiretas, sem evidências de participação em atividades ilícitas.
Ainda assim, a amplitude das menções brasileiras — em diferentes tipos de documentos e contextos — amplia o alcance internacional das investigações sobre Epstein, levando autoridades e jornalistas a refletir sobre como redes de poder e influência se entrelaçam globalmente.
O que vem a seguir
A divulgação dos arquivos desencadeou frentes paralelas de análise jornalística, jurídica e comunitária, inclusive por brasileiros que estão reunindo, traduzindo e estudando os documentos para entender melhor o alcance das menções ao país e a eventuais conexões não exploradas anteriormente.
Com milhões de páginas ainda por examinar em detalhe, a expectativa é que novas descobertas e perspectivas continuem emergindo nos próximos meses, alimentando investigações e debates públicos sobre as ramificações do caso Epstein — no Brasil e no mundo.
Fabrício Menardi. Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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