Fabrício Menardi
Gente é Gente, Bicho é Bicho — e o que Isso Revela Sobre Nós
Lola, a labrador do articulista "A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser julgados pela forma como os seus animais são tratados". Gandhi
Dois casos recentes me chocaram: a morte do cachorro Orelha, em Florianópolis, e a notícia de que, em Campinas, um médico anestesista com mais de 70 anos matou o próprio cachorro com um tiro. Chamaram a polícia por causa do barulho, e ele foi preso em flagrante.
Minha primeira reação foi de tristeza pelos animais. É instintivo: nesses atos existe uma assimetria absoluta de poder, com uma vida dependente, sem linguagem para se defender.
Mas logo veio outra tristeza — pelos rapazes de Santa Catarina e pelo médico campineiro. Como é possível que nossa sociedade ainda produza gente assim? Nada do que penso a respeito parece dar uma resposta firme. Mas creio que vivemos numa cultura em que a violência deixou de ser exceção e passou a ser um modo “disponível” de resposta.
Conflitos cotidianos são constantemente resolvidos pela lógica do esmagamento: ganhar, calar, eliminar. Cultivar a empatia é um exercício que tem crescido com o tempo. Ora, empatia entendida como competência exercitada é o antídoto real ao imaginário armado e à crueldade com o vulnerável.
Seria obrigação da escola ensinar a empatia, sobretudo diante de famílias disfuncionais, que não sabem o que é isso. Não acredito em palestras sobre empatia, semanas temáticas e coisas do tipo. Para funcionar, seria preciso o cuidado concreto com alguém vulnerável, a atenção ao bullying, o ensino de como resolver frustrações e conflitos.
A classe média, que desconfia das instituições, do cuidado “excessivo”, que quer filhos “fortes”, “para vencer na vida”, valoriza a “capacidade de se impor” e toma a empatia como risco de fraqueza. Elege como princípio pedagógico o célebre: “se ele bateu em você, bata nele de volta”.
Isso soa como autodefesa, proteção da dignidade, mas ensina que conflito se resolve pela força, que a agressão do outro autoriza a minha, que o limite vem da capacidade de revidar. Para uma criança, a mensagem vira: quando alguma coisa me fere, eu firo de volta.
Isso forma pessoas que veem a força como linguagem legítima — linguagem que reaparece no homem armado, no agressor doméstico, no “cidadão de bem” que decide fazer justiça com as próprias mãos.
As redes sociais estão recheadas de faits divers, como aqueles jornais de que antigamente se dizia: “se espremer, sai sangue”. Gosto muito desse tipo de notícia; parece-me que vai direto a uma verdade coletiva. O fait divers, justamente por ser desprezado como “baixo”, costuma ser o lugar onde a sociedade se trai. Não é ali que ela se representa como gostaria de ser, mas como ela é quando o verniz falha.
O fait divers não explica, não absolve nem sublima, apenas mostra. Nessas manchetes, com muita frequência, aparecem feminicídios — e eu passo das notícias tristes dos cachorros para a lembrança desses terríveis casos humanos.
Aqui é preciso cuidado: não se trata de igualar seres humanos e animais. Trata-se de reconhecer um mecanismo semelhante de violência — um sujeito que se percebe autorizado a decidir sobre a vida do outro numa relação marcada pela posse, não pelo reconhecimento, e que não tolera frustração, separação, autonomia.
É evidentíssimo que o feminicídio é incomparavelmente mais grave, porque nega uma alteridade humana. Mas o mecanismo psíquico da autorização violenta tem algo em comum: a crença de que o outro é propriedade.
Avanço em minhas associações livres e lembro-me de que se dizia — e ainda se diz: “gente é gente, e bicho é bicho. Se tiver que escolher entre atropelar um ser humano ou um cachorro, atropele o cachorro.” Isso é uma hierarquia ética. Atropelar um cachorro para salvar um humano é um acontecimento trágico, mas sem culpa. Matar um cachorro por irritação, controle ou frustração é um ato de crueldade.
É por isso que não gosto muito quando o bicho é tratado como “filho”, e os donos como “pais” ou “mães”. Parece-me que existe aí uma confusão de registros muito incômoda. Amar profundamente um animal é respeitar sua singularidade de bicho, cuidar dele sem transformá-lo em substituto simbólico de um filho, de um ser humano. Isso não é empatia; é projeção.
Respeitar um animal é, penso, reconhecê-lo como animal — não como criança, nem como brinquedo afetivo, nem como extensão de si próprio.
*Na foto, minha filha canina Lola — o bicho mais boa gente que existe.
Fabrício Menardi. Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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