Fabrício Menardi

Epstein, modelos brasileiras e uma investigação que cruza fronteiras


Epstein, modelos brasileiras e uma investigação que cruza fronteiras Jornal Democrata, edição 1910 de 14 de fevereiro de 2026

Os documentos recentemente divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o financista americano Jeffrey Epstein revelam conexões com mulheres brasileiras e levaram à abertura de uma investigação no Brasil para apurar possíveis casos de aliciamento e tráfico internacional de pessoas.

Mensagens trocadas entre 2009 e 2013 mostram o interesse de Epstein por uma mulher de Natal (RN), apresentada a ele por uma conhecida. 

Os registros, obtidos pela BBC News Brasil, não confirmam se houve aliciamento nem indicam a idade das mulheres citadas, mas detalham pedidos de apoio financeiro, organização de passaporte, planejamento de viagem aos Estados Unidos e solicitações explícitas de fotos em biquíni e lingerie.

Em uma das conversas, a brasileira descreve uma jovem de Natal que não falava inglês, nunca havia viajado ao exterior e vinha de família simples. Ela sugere que viajasse acompanhada para facilitar o trajeto. 

Ao receber fotos da jovem, Epstein pede mais imagens em trajes íntimos, afirmando que iria “adorá-la”. 



Unidade do MPF especializada no combate ao tráfico internacional de pessoas investiga possível atuação de Jeffrey Epstein no Brasil. 


Não há menção à idade da jovem nos registros.

As mensagens também revelam transferências bancárias solicitadas por Epstein para custear despesas pessoais da brasileira, incluindo procedimentos estéticos, serviços de beleza e até a compra de um celular. 

Em 2009, ela pediu recursos para uma cirurgia de implante de silicone, afirmando que pretendia “se exibir” em Palm Beach após o procedimento. Em 2013, voltou a solicitar ajuda financeira, mencionando ordem de despejo e apresentando outra amiga interessada em conhecê-lo.

As revelações motivaram o Ministério Público Federal (MPF) a instaurar, em 12 de fevereiro, procedimento sigiloso para apurar possíveis redes de aliciamento no Brasil. 

O procurador-chefe em Natal comunicou ter recebido informações sobre o possível envio de mulher residente nos arredores da capital potiguar para atos sexuais com Epstein nos Estados Unidos.

A procuradora da República Cinthia Gabriela Borges, da Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, afirmou que o caso apresenta elevada complexidade probatória, tanto pelo decurso do tempo — mais de uma década — quanto pela extraterritorialidade, já que parte dos fatos teria ocorrido em território americano. 

Segundo ela, cada situação será analisada individualmente para identificar se houve rede estruturada de recrutamento e se as mulheres eram maiores ou menores de idade.

Borges destacou que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não são investigadas como suspeitas. 

“As vítimas, em regra, não são consideradas responsáveis por eventuais atos que venham a praticar na condição de vítimas de tráfico de pessoas”, afirmou. 

Ela ressaltou ainda que a participação das vítimas é fundamental para esclarecer como teria ocorrido o recrutamento.

Outro desafio apontado é a mudança na legislação brasileira sobre tráfico internacional de pessoas, em 2016. 

Antes, o crime se configurava com o simples aliciamento e envio da vítima ao exterior. 

Com a nova redação legal, tornou-se necessário comprovar vício de consentimento — como fraude, coação, violência ou abuso de vulnerabilidade.

Os arquivos também indicam interesse de Epstein e de sua rede no mercado brasileiro de modelos. Mensagens discutiam a possibilidade de aquisição de agência de modelos no Brasil ou organização de concursos de beleza para ampliar o acesso a jovens. 

Entre os nomes associados ao círculo de Epstein aparece o agente francês Jean-Luc Brunel, que esteve no Brasil em busca de modelos e foi encontrado morto em 2022, em prisão na França, enquanto aguardava julgamento por acusações de abuso sexual que negava.

Os chamados “Epstein Files” reúnem cerca de 3,5 milhões de páginas de documentos, e-mails e imagens que detalham a atuação do financista e de pessoas de seu entorno, incluindo a socialite Ghislaine Maxwell. 

O material amplia o alcance internacional das investigações sobre tráfico sexual e abuso de menores e evidencia a necessidade de cooperação entre autoridades brasileiras e estrangeiras para esclarecer a eventual participação de intermediários no país e a dimensão do envolvimento de brasileiras no caso.

Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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