Fabrício Menardi
ICE nos Estados Unidos: protestos, mortes e a escalada da controvérsia incluindo vozes em Oklahoma
Jornal Democrata, edição 1908 de 31 de janeiro de 2026 A atuação do Immigration and Customs Enforcement (ICE) — agência federal dos Estados Unidos responsável pela aplicação de leis de imigração e combate a crimes transnacionais — se transformou, ao longo dos últimos anos, em um dos temas mais polarizadores da política interna americana.
Criado em 2003 como parte do Departamento de Segurança Interna após os atentados de 11 de setembro, o ICE passou de um expediente burocrático a um símbolo do debate sobre migração, direitos civis e uso da força estatal.
A resposta a essa atuação não tem se limitado às grandes metrópoles tradicionais. Em Oklahoma, um estado do centro-oeste americano com forte presença política conservadora, versões locais dos protestos contra o ICE também ganharam força nos últimos meses.
Em Tulsa, por exemplo, dezenas de pessoas reuniram-se no Johnson Park para exigir responsabilização dos agentes federais após o assassinato de Renee Good em Minneapolis, expressando indignação nacional diante de uma morte que reverberou em cidades pequenas e médias dos EUA.
Esses protestos em Oklahoma — embora menores que os de centros urbanos como Minneapolis ou Nova York — refletem um fenômeno mais amplo: a percepção de que a expansão das operações do ICE ultrapassa o controle técnico e entra na esfera da política social e simbólica, mobilizando cidadãos em estados historicamente menos associados a movimentos sociais.
A tensão nacional ganhou as manchetes no início de 2026 com uma série de mortes relacionadas às ações do ICE ou envolvendo agentes federais de imigração.
Dois casos em particular catalisaram grandes mobilizações:
- A morte de Renee Nicole Macklin Good, uma mulher de 37 anos, baleada por um agente do ICE durante uma operação em Minneapolis no dia 7 de janeiro, episódio que desencadeou protestos imediatos e intensos.
- O assassinato de Alex Pretti, um cidadão americano de 37 anos morto a tiros por agentes federais durante um protesto em Minneapolis em 24 de janeiro, levantando críticas tanto das ruas quanto de autoridades públicas.
Esses incidentes não são isolados dentro de um quadro mais amplo de mortes sob custódia ou relacionadas à aplicação de políticas migratórias.
Estudos independentes e organizações civis indicam que, desde sua criação, houve centenas de mortes documentadas envolvendo o ICE — com estimativas consolidadas em cerca de 165 mortes desde 2003 até o fim de 2025 em centros de detenção e sob custódia, segundo compilação de dados de organizações que monitoram detentos e políticas de imigração.
O ano de 2025 foi particularmente letal, com pelo menos 32 pessoas morrendo enquanto estavam sob custódia do ICE, o maior número anual em mais de duas décadas.
A maioria das mortes relatadas naquele ano envolveu causas como doença não tratada, falhas médicas ou suicídio em centros de detenção, além de condições degradantes que ativistas e especialistas consideram evitáveis.
Esses números alimentam uma das críticas centrais dos movimentos anti-ICE: a alegação de que a agência opera com pouca transparência e quase sem supervisão externa, resultando em práticas de detenção que contrariam princípios básicos de direitos humanos.
Em Oklahoma, mesmo em protestos com menor escala, manifestantes têm ligado esses incidentes a uma cultura de impunidade que acreditam permear as operações em nível federal, ecoando demandas de responsabilidade e reforma.
As mobilizações recentes vão além de simples relatos de abuso.
Elas ganharam tração em cidades e universidades, inspiraram vigílias, fechamentos simbólicos de estabelecimentos e até greves locais — como a general strike em Minneapolis, onde escolas, lojas e instituições interromperam atividades para protestar contra a morte de Good e Pretti e a presença maciça de agentes federais.
Analistas políticos destacam que a controvérsia em torno do ICE transcende o debate sobre imigração: ela impacta percepções sobre o uso legítimo da força pelo Estado, o tratamento de comunidades vulneráveis e o papel das agências federais em sociedades democráticas.
Para críticos, a presença de agentes federais fortemente armados em operações domésticas, a frequência com que confrontos com civis resultam em mortes e a relativa falta de responsabilização institucional sugerem um padrão preocupante — um debate que ecoa mesmo em estados tradicionalmente alinhados com políticas de lei e ordem, como Oklahoma.
Fabrício Menardi. Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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