Fabrício Menardi

A personalização do poder sob Donald Trump em 2026: implicações institucionais, democráticas e geopolíticas


A personalização do poder sob Donald Trump em 2026: implicações  institucionais, democráticas e geopolíticas Jornal Democrata, edição 1907 de 24 de janeiro de 2025

Um ano após o início de seu segundo mandato, Donald Trump aprofunda um padrão de governança caracterizado pela centralização decisória, pela personalização do poder e pela priorização de convicções ideológicas e interesses políticos imediatos em detrimento de práticas institucionais consolidadas do Estado americano. 

Esse modelo de liderança, já amplamente observado durante seu primeiro mandato, apresenta em 2026 uma forma mais sistemática e menos constrangida por freios institucionais, com efeitos relevantes tanto na política externa quanto no funcionamento da democracia doméstica dos Estados Unidos.

Este artigo analisa como a lógica personalista da presidência Trump tem reconfigurado processos decisórios, tensionado alianças tradicionais e contribuído para a erosão de normas democráticas, situando esses movimentos no debate acadêmico sobre presidencialismo forte, autoritarismo competitivo e declínio institucional em democracias consolidadas.

1. A centralização decisória e o papel do círculo íntimo

Diversas análises recentes — incluindo reportagens do The Guardian e avaliações de centros de pesquisa em política internacional — indicam que decisões estratégicas da administração Trump continuam a ser moldadas menos por procedimentos burocráticos formais e mais por interações diretas com um círculo restrito de conselheiros, aliados políticos e interlocutores informais.

Esse padrão representa uma ruptura com a tradição do aparato diplomático americano, historicamente baseado em coordenação interagências, consultas técnicas e planejamento estratégico de longo prazo. 

Em seu lugar, observa-se um modelo decisório altamente concentrado na figura presidencial, no qual preferências pessoais, percepções subjetivas de ameaça e oportunidades políticas imediatas exercem influência desproporcional.

Do ponto de vista teórico, esse arranjo aproxima-se do que a literatura define como personalist leadership, no qual instituições formais existem, mas operam de maneira subordinada à vontade do líder, reduzindo previsibilidade e coerência das políticas públicas.

2. A Groenlândia e a lógica instrumental da política externa

A controvérsia em torno da Groenlândia tornou-se um caso emblemático dessa abordagem. Em 2026, a proposta americana — agora enquadrada como parte de uma estratégia de segurança do Ártico supostamente alinhada à OTAN — prevê formas de acesso permanente dos Estados Unidos ao território groenlandês.

A reação negativa tanto do governo dinamarquês quanto das autoridades da Groenlândia evidencia um aspecto central da política externa trumpista: a tendência a privilegiar negociações bilaterais assimétricas, mesmo quando envolvem aliados históricos, e a minimizar o papel de atores diretamente afetados pelas decisões.

Sob uma ótica analítica, esse episódio revela uma concepção instrumental das alianças, nas quais compromissos multilaterais e princípios de soberania são tratados como variáveis negociáveis, subordinadas a interesses estratégicos definidos unilateralmente por Washington.

3. Erosão democrática e autoritarismo competitivo

No plano interno, o segundo mandato de Trump intensifica preocupações expressas por cientistas políticos e juristas quanto à saúde das instituições democráticas americanas. 

Pesquisadores apontam para práticas consistentes com o conceito de “autoritarismo competitivo”, caracterizado pela coexistência formal de instituições democráticas com o uso sistemático do poder estatal para enfraquecer opositores, restringir a competição política e reduzir a autonomia institucional.

Entre os elementos frequentemente citados estão:

  • o enfraquecimento de mecanismos de controle entre os poderes,
  • a politização de órgãos do Estado,
  • pressões sobre o sistema eleitoral e
  • a deslegitimação recorrente de atores da oposição.

Esse contexto doméstico não é isolado da política externa. Ao contrário, a concentração de poder no Executivo reduz a capacidade de veto institucional e amplia a margem de manobra presidencial, facilitando a adoção de decisões internacionais altamente personalizadas e menos sujeitas a escrutínio técnico ou legislativo.

4. Reconfiguração das relações transatlânticas

As relações entre os Estados Unidos e a Europa seguem marcadas por ambiguidade e tensão. 

A postura de Trump em relação à Groenlândia, somada a expectativas pouco claras sobre cooperação em segurança, comércio e defesa coletiva, tem gerado desconforto entre aliados europeus.

Do ponto de vista da teoria das relações internacionais, essa dinâmica enfraquece o papel tradicional dos EUA como hegemon estabilizador e reforça uma lógica transacional, na qual alianças deixam de ser vistas como arranjos estratégicos de longo prazo e passam a ser avaliadas com base em ganhos imediatos percebidos.

Diplomatas e analistas europeus destacam que esse comportamento aumenta a incerteza estratégica e dificulta respostas coordenadas a desafios globais, como a competição no Ártico, a segurança energética e a gestão de crises internacionais.

5. Improvisação, curto-prazo e ausência de institucionalização

Outro aspecto recorrente nas análises de 2026 é a percepção de improvisação. A política de segurança nacional apresenta sinais de fragmentação, com prioridades redefinidas de forma reativa e ausência de diretrizes claras de longo prazo.

Esse padrão está associado à personalização do poder: quando estratégias dependem excessivamente da figura presidencial, tornam-se vulneráveis a mudanças abruptas de orientação, à lógica do cálculo político doméstico e à busca por “vitórias simbólicas” que reforcem narrativas internas de força e liderança.

Consequentemente, muitas iniciativas carecem de institucionalização, reduzindo sua capacidade de se consolidar como políticas de Estado duradouras.

6. Saúde global, ideologia e desengajamento multilateral

A decisão de avançar com a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde ilustra de maneira clara a priorização de posicionamentos ideológicos sobre avaliações técnicas. 

Especialistas em saúde pública alertam que esse movimento compromete não apenas a capacidade de resposta a emergências sanitárias globais, mas também a credibilidade americana em fóruns multilaterais.

Sob uma lente analítica, esse desengajamento reflete uma visão cética em relação ao multilateralismo, coerente com a lógica trumpista de soberania absoluta e rejeição a constrangimentos externos, ainda que esses constrangimentos tenham sido historicamente moldados pelos próprios Estados Unidos.

Conclusão: um legado em disputa

Em 2026, o segundo mandato de Donald Trump aprofunda uma transformação significativa no modo como o poder é exercido nos Estados Unidos. 

A personalização da presidência, a erosão de normas democráticas e a reorientação unilateral da política externa configuram um modelo que desafia tanto tradições institucionais internas quanto padrões consolidados da ordem internacional liberal.

Embora especialistas ressaltem que muitas dessas políticas podem não sobreviver como estruturas permanentes de Estado, seus efeitos imediatos são profundos: enfraquecimento institucional, aumento da incerteza global e reconfiguração das relações entre os EUA e seus aliados.

O caso Trump, assim, consolida-se não apenas como um fenômeno político conjuntural, mas como objeto central de análise para o estudo contemporâneo das democracias em tensão e da transformação do papel das grandes potências no sistema internacional.

Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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