Fabrício Menardi

Focos Globais de Tensão em 2026: Por Dentro do relatório “Dez Conflitos a Observar” do International Crisis Group


Focos Globais de Tensão em 2026:  Por Dentro do relatório “Dez Conflitos a Observar” do International Crisis Group Jornal Democrata, edição 1906 de 17 de janeiro de 2026

Em um momento de crescentes tensões geopolíticas, o relatório emblemático do International Crisis Group, Dez Conflitos a Observar em 2026, chega em meio a um cenário global marcado por instabilidade. Realizado no Chatham House em 15 de janeiro de 2026, o evento anual reuniu analistas de referência em conflitos internacionais para examinar as guerras e crises mais perigosas e dinâmicas que devem moldar o próximo ano.

Moderado pela Dra. Marion Messmer, diretora do Programa de Segurança Internacional do Chatham House, o painel — realizado em formato híbrido — destacou os riscos humanos e estratégicos desses conflitos, com análises da Dra. Comfort Ero, presidente e CEO do International Crisis Group.

Um mundo à beira do limite: os dez conflitos

Embora o relatório completo do Crisis Group aprofunde cada caso, os resumos publicados e as análises apresentadas no evento traçam um retrato contundente das principais frentes de tensão geopolítica em 2026. A seguir, os dez cenários de conflito que devem dominar a agenda de segurança internacional neste ano:

1. Ucrânia — Guerra congelada, riscos crescentes

Mais de quatro anos após a invasão russa em 2022, a guerra na Ucrânia continua. Apesar de iniciativas diplomáticas e negociações intermitentes, as linhas de frente permanecem ativas, e o risco de novas escaladas é constante. O conflito redefiniu a arquitetura de segurança europeia e a estratégia da OTAN.

2. Israel–Palestina — Cessar-fogo frágil, crise profunda

No Oriente Médio, o período pós-guerra em Gaza segue instável. Um cessar-fogo frágil reduziu os combates diretos, mas não resolveu as causas estruturais do conflito. As condições humanitárias em Gaza continuam críticas, e a região permanece vulnerável a uma retomada da violência.

3. Sahel e África Ocidental — Insurgências em expansão

No Sahel — especialmente em Mali, Burkina Faso e Níger — grupos insurgentes ligados a redes jihadistas seguem desafiando Estados fragilizados. Esses conflitos são marcados por violência extrema contra civis, deslocamentos em massa e perda de controle territorial por parte dos governos.

4. Mianmar — Uma guerra civil sem solução

O conflito em Mianmar persiste desde o golpe militar de 2021. A junta enfrenta uma combinação de organizações armadas étnicas e forças pró-democracia. A população civil continua exposta a bombardeios, repressão e deslocamento forçado.

5. Afeganistão–Paquistão — Tensões na fronteira

As tensões ao longo da fronteira entre Afeganistão e Paquistão se intensificaram, com confrontos entre grupos militantes e forças de segurança. Esses incidentes fragilizam relações diplomáticas já delicadas e ameaçam a estabilidade regional.

6. Congo — Um conflito regionalizado

No leste da República Democrática do Congo, confrontos envolvendo o grupo rebelde M23 e disputas de influência regional — incluindo acusações de envolvimento de Ruanda — mantêm ativo um dos conflitos mais complexos e persistentes da África.

7. Tensões fronteiriças entre Camboja e Tailândia

Disputas territoriais entre Camboja e Tailândia resultaram em confrontos armados, com uso de artilharia e deslocamento de civis. O episódio reacendeu preocupações sobre estabilidade e mediação diplomática no Sudeste Asiático.

8. Iêmen — Uma guerra humanitária sem fim

Entrando em sua segunda década, a guerra no Iêmen continua sendo uma das piores crises humanitárias do mundo. Forças houthis, facções internas e atores internacionais permanecem envolvidos em um conflito que ameaça a segurança de toda a região do Golfo.

9. Venezuela — Instabilidade política e pressões externas

A crise política na Venezuela voltou a ganhar destaque, com crescente envolvimento de atores externos. Questões de governança, migração e colapso institucional levantam temores de impactos mais amplos em toda a América Latina.

10. Rivalidades geopolíticas globais

Além das guerras abertas, rivalidades sistêmicas entre grandes potências — como a competição entre Estados Unidos e China, disputas econômicas e manobras estratégicas no Indo-Pacífico — configuram conflitos latentes que moldam políticas de sanções, comércio e posicionamento militar.

Por que 2026 é um ano decisivo

O relatório Dez Conflitos a Observar evidencia uma realidade preocupante: a guerra e a instabilidade não estão restritas a uma única região. Da Europa ao Oriente Médio, da África à Ásia e às Américas, os conflitos se entrelaçam e se reforçam mutuamente.

Como destacou a Dra. Comfort Ero no evento do Chatham House, a diplomacia internacional enfrenta o desafio de lidar simultaneamente com guerras prolongadas e novas formas de crise, nas quais as fronteiras entre instabilidade interna e rivalidade geopolítica tornam-se cada vez mais tênues.

Mais do que um exercício analítico, este relatório é um alerta: identificar onde os riscos são maiores é essencial para evitar novas catástrofes humanas em 2026.

Tendências transversais: o que conecta esses conflitos

Apesar das diferenças regionais, o relatório do International Crisis Group identifica padrões recorrentes que atravessam grande parte dos conflitos listados. Estados fragilizados, disputas por legitimidade política, militarização de fronteiras e a crescente interferência de atores externos formam um pano de fundo comum. 

Em muitos casos, guerras internas deixaram de ser estritamente domésticas, transformando-se em crises regionalizadas com impactos globais.

Outro elemento central é o enfraquecimento de mecanismos multilaterais de resolução de conflitos. Organizações internacionais e fóruns diplomáticos tradicionais enfrentam dificuldades para impor cessar-fogos duradouros ou viabilizar processos de paz inclusivos. O resultado é a normalização de conflitos prolongados, nos quais a violência se torna crônica e a população civil paga o preço mais alto.

O custo humano no centro do alerta

O relatório enfatiza que, por trás das análises estratégicas, estão crises humanitárias de grandes proporções. Deslocamentos forçados, insegurança alimentar, colapso de sistemas de saúde e violações sistemáticas de direitos humanos aparecem em quase todos os cenários analisados. Em países como Iêmen, Congo, Mianmar e Gaza, gerações inteiras crescem sob a sombra da guerra.

Segundo os analistas do Crisis Group, a fadiga internacional diante de crises prolongadas agrava ainda mais a situação. 

A redução de financiamento humanitário e a atenção seletiva da mídia internacional contribuem para que conflitos “esquecidos” se tornem ainda mais difíceis de resolver.

Geopolítica e o retorno da lógica de blocos

Um dos pontos mais preocupantes destacados no evento do Chatham House é o retorno explícito da lógica de rivalidade entre grandes potências. 

A competição estratégica entre Estados Unidos, China e Rússia não apenas molda conflitos existentes, como também limita soluções diplomáticas. Em vez de cooperação, prevalecem vetos cruzados, sanções e apoio indireto a partes em conflito.

No Indo-Pacífico, por exemplo, tensões latentes envolvendo Taiwan, o Mar do Sul da China e alianças regionais não figuram como guerras abertas, mas influenciam decisões militares, cadeias globais de suprimentos e políticas de segurança energética — fatores que podem catalisar crises futuras.

O papel da diplomacia: estreito, mas indispensável

Apesar do cenário sombrio, o relatório não abandona a perspectiva de ação. 

A Dra. Comfort Ero destacou que identificar precocemente os focos de risco é uma forma de ampliar o espaço para a diplomacia preventiva. Isso inclui investimentos em mediação regional, apoio a processos políticos inclusivos e maior coordenação entre atores internacionais e locais.

No entanto, o relatório alerta: sem vontade política das grandes potências e sem pressão consistente por soluções negociadas, mesmo os melhores esforços diplomáticos tendem a fracassar. A escolha entre prevenção e contenção tardia será um dos dilemas centrais de 2026.

Um alerta para além dos especialistas

“Dez Conflitos a Observar” não se destina apenas a formuladores de política externa ou analistas de segurança. O relatório serve como um chamado mais amplo para governos, organizações humanitárias, sociedade civil e meios de comunicação. 

Em um mundo cada vez mais interconectado, crises distantes rapidamente produzem efeitos globais — seja por meio de fluxos migratórios, choques econômicos ou instabilidade política.

Ao mapear os conflitos mais perigosos de 2026, o International Crisis Group não prevê o futuro, mas oferece uma ferramenta essencial para evitá-lo no pior sentido. Ignorar esses alertas pode significar aceitar que a próxima crise já está em curso.

Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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