Herançocracia: quando o patrimônio familiar pesa mais que o mérito individual

Jornal Democrata, edição 1910 de 14 de fevereiro de 2026
Herançocracia: quando o patrimônio familiar pesa mais que o mérito individual Herançocracia - quando o que conta é a ajuda dos pais

Reportagem publicada pela BBC News Brasil trouxe ao debate um conceito que vem ganhando espaço na Europa: a chamada “herançocracia”. O termo é desenvolvido pela historiadora britânica Eliza Filby, autora do livro Inheritocracy: It’s Time to Talk About the Bank of Mum and Dad, no qual sustenta que a herança e o apoio financeiro dos pais têm se tornado fatores decisivos para o sucesso econômico das novas gerações.




Segundo a autora, as sociedades contemporâneas estariam deixando para trás o ideal clássico da meritocracia — no qual estudo, trabalho e esforço individual garantiriam ascensão social — para adotar, ainda que de forma não declarada, um modelo em que o patrimônio familiar define as oportunidades disponíveis.

O “banco da mamãe e do papai”

A reportagem destaca a metáfora utilizada por Filby: o “banco da mamãe e do papai”. Em economias desenvolvidas, sobretudo no Reino Unido, cresce o número de jovens adultos que dependem da ajuda financeira dos pais para comprar imóvel, iniciar um negócio ou mesmo manter padrão de vida compatível com sua formação acadêmica.

Dados citados pela BBC indicam que pessoas com menos de 45 anos têm hoje maior probabilidade de adquirir a casa própria com apoio familiar do que exclusivamente com recursos do próprio trabalho. A valorização imobiliária, combinada à estagnação salarial em determinadas faixas etárias, teria ampliado essa dependência.

Empresários “bem-sucedidos” e capital de origem

O fenômeno também impacta o universo empresarial. A geração de novos empreendedores considerados “bem-sucedidos” muitas vezes conta com capital inicial proveniente da família, seja por herança direta, seja por aportes financeiros informais.

A existência desse suporte reduz riscos, amplia margem para tentativas e facilita acesso a crédito e redes de relacionamento. Em contrapartida, indivíduos sem esse respaldo enfrentam barreiras maiores para competir em condições semelhantes.

O resultado é um ciclo no qual a riqueza tende a permanecer concentrada entre grupos familiares que já detêm ativos relevantes, reforçando desigualdades estruturais.

Mobilidade social em xeque

A discussão central levantada pelo conceito de herançocracia não é a legitimidade da herança em si, mas seus efeitos sistêmicos. Quando o patrimônio herdado se torna determinante para acesso a moradia, educação de qualidade ou capital de investimento, a mobilidade social tende a diminuir.

A reportagem ressalta que o fenômeno não decorre apenas de escolhas individuais, mas de mudanças estruturais: encarecimento da moradia, precarização de vínculos trabalhistas e menor presença de políticas públicas de suporte à juventude.

Nesse cenário, a família assume papel de rede de proteção econômica — o que, embora natural do ponto de vista afetivo, produz distorções quando analisado sob a ótica da igualdade de oportunidades.

Debate que ultrapassa fronteiras

Embora o estudo citado tenha como foco o Reino Unido, a discussão encontra eco em diversas economias ocidentais, onde a transferência intergeracional de riqueza vem crescendo.

A reflexão proposta por Eliza Filby, conforme apresentada pela BBC, aponta para um questionamento mais amplo: até que ponto o sucesso individual é resultado de mérito próprio e até que ponto reflete condições herdadas?

















A resposta a essa pergunta pode redefinir a forma como sociedades compreendem justiça social, mobilidade econômica e distribuição de oportunidades nas próximas décadas.

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