Zildão e o influenciador sabichão
Zildão e o influenciador - I.A. O sujeito chegou à praça como quem chega a um palco. Celular na mão, câmera ligada, voz treinada para ecoar certezas. Falava de tudo: sucesso, fracasso, dinheiro, felicidade. Dizia que experiência era coisa ultrapassada, que hoje quem manda é quem sabe “se posicionar”.
— Antigamente o pessoal perdia tempo vivendo errado — disparou, olhando em volta. — Hoje a gente aprende tudo em vídeo.
O Zildão estava sentado no banco de sempre, chapéu gasto, mãos cruzadas, ouvindo mais do que olhando. O homem apontou para ele, indo:
— Esse aí é prova viva do atraso. Viveu muito e não aprendeu nada.
Alguns riram. Outros desviaram o olhar. Zildão não respondeu. Continuou quieto, como quem sabe que o silêncio também fala.
A live seguia animada até que uma senhora se aproximou. Chorava baixo, quase pedindo licença para sofrer. Disse que havia perdido o marido naquela semana e não sabia como voltar para casa sozinha. O especialista engoliu seco. Olhou para a câmera, depois para o relógio, murmurou algo sobre “conteúdo pesado” e se afastou.
Zildão se levantou devagar. Sentou-se ao lado da senhora. Não pegou celular, não citou método, não prometeu cura. Apenas ouviu. Quando falou, foi baixo:
— A gente não precisa saber o caminho todo. Só o primeiro passo.
A senhora respirou fundo. Enxugou o rosto. Ficou.
A roda se desfez. A live acabou. O especialista foi embora sem se despedir. Zildão voltou ao banco, como se nada tivesse acontecido.
Na praça, ficou a lição que não viraliza em vídeo: quem só fala para aparecer não sabe o valor de quem sabe ficar — e cuidar — quando a vida dói.





COMENTÁRIOS