Jonatas Outeiro
A Graça Quebra Barreiras: Um Encontro que Transforma
Jornal Democrata, edição 1908 de 31 de janeiro de 2026 Muitas vezes imaginamos que os encontros que vivemos ao longo da vida são fruto do acaso, da rotina ou da simples geografia. Porém, o relato de João 4 revela algo muito mais profundo: Jesus não se move por conveniência, mas por propósito. Nada em sua agenda é acidental. Cada passo é guiado por uma necessidade divina. É por isso que o evangelista posiciona o encontro com a mulher samaritana logo após o diálogo com Nicodemos. O contraste é intencional. Nicodemos era homem, judeu, mestre da lei, respeitado e influente; procurou Jesus à noite, protegido pela escuridão e pelo seu status. A mulher samaritana, por outro lado, era o oposto em todos os aspectos: mulher, pertencente a um povo desprezado, moralmente marginalizada e socialmente invisível. Ela encontra Jesus ao meio-dia, sob o sol escaldante, no horário em que ninguém mais estaria no poço. João quer que percebamos que o Evangelho rompe barreiras — de gênero, de etnia, de moralidade e de religiosidade.
O texto afirma que Jesus “precisava” passar por Samaria. Geograficamente, esse era o caminho mais curto entre a Judeia e a Galileia, mas não o mais comum. Muitos judeus preferiam fazer um longo desvio para evitar contato com os samaritanos. O verbo grego edei, porém, indica mais do que necessidade geográfica; aponta para uma necessidade divina. Havia um encontro marcado pelo Pai. Jesus tinha um compromisso soberano com aquela mulher. E, cansado da viagem, senta-se à beira de um poço histórico. A cena revela sua humanidade plena: Ele se identifica com a nossa exaustão. Enquanto isso, a mulher chega ao meio-dia, fugindo dos olhares e dos julgamentos que a acompanhavam. Sua solidão revela sua dor. Assim como ela, também temos nossas “Samarias” — caminhos que evitamos, lugares que tememos, conversas que adiamos. Mas é justamente nesses territórios desconfortáveis que Deus costuma marcar encontros transformadores. Jesus não foge dos lugares complicados; Ele os escolhe.
Quando a mulher se aproxima, Jesus inicia o diálogo com um simples pedido: “Dá-me de beber”. Esse gesto, aparentemente trivial, quebra múltiplos protocolos sociais. Judeus não falavam com samaritanos; homens não conversavam com mulheres desconhecidas em público; rabinos não usavam utensílios de samaritanos para não se tornarem ritualmente impuros. Mas Jesus não se prende a barreiras culturais. Ele se torna vulnerável — pede ajuda, expõe sua necessidade — para construir uma ponte até o coração daquela mulher. A graça sempre atravessa fronteiras que nós mesmos criamos. Se Jesus atravessou a Samaria por ela, Ele atravessa qualquer abismo por nós.
A conversa então se desloca do físico para o espiritual. A mulher está preocupada com o poço fundo e com a falta de utensílios de Jesus. Nós também, muitas vezes, olhamos apenas para os recursos humanos, enquanto Cristo oferece recursos celestiais. Jesus fala sobre “água viva”, expressão que no grego se referia à água corrente, fresca, de uma fonte — em contraste com a água parada de uma cisterna. Ele eleva o conceito: não se trata apenas de água física, mas de uma fonte interior que jorra para a vida eterna. É uma vida que transborda, que pulsa, que renova. Todos nós buscamos saciar a sede da alma. Tentamos preencher o vazio com sucesso, relacionamentos, entretenimento, prazer, dinheiro. Mas tudo isso são cisternas rotas. Somente a água que Jesus oferece satisfaz a sede de significado, identidade e eternidade.
No momento certo, Jesus muda o rumo da conversa: “Vai, chama teu marido”. A resposta da mulher — “Não tenho marido” — é verdadeira, mas incompleta. Jesus revela conhecer sua história: cinco maridos e um relacionamento atual instável. Ele toca na ferida, não para expor, mas para curar. Alguns estudiosos veem simbolismo nos “cinco maridos”, relacionando-os aos deuses pagãos introduzidos na Samaria pelos assírios. Mas, no sentido mais direto, o texto destaca a sede de pertencimento daquela mulher, sua busca por amor, sua história fragmentada. Jesus já sabia de tudo antes mesmo de sentar-se naquele poço. Ele a conhecia por inteiro — e ainda assim a amou. Ele não nos ama porque somos santos; Ele nos ama para nos tornar santos. Não há adoração verdadeira sem confissão. Jesus nos convida a parar de esconder nossos “maridos” — nossos pecados, traumas, fugas — para que Ele possa preencher o vazio que nada mais preenche.
A mulher samaritana inicia a conversa vendo Jesus como um “judeu estranho”. Depois o reconhece como alguém “maior que Jacó”. Em seguida, como “profeta”. E, finalmente, como o “Cristo”. Sua percepção se aprofunda à medida que sua alma é tocada. Jesus atravessou o deserto, o preconceito e a religiosidade para dizer a uma mulher marginalizada que ela tinha valor. Ele conhece o seu passado, mas oferece um novo futuro. A graça quebra barreiras — geográficas, sociais, emocionais e espirituais. E hoje, Ele continua sentado à beira dos poços da nossa vida, perguntando: “Dá-me de beber”. Não porque precise da nossa água, mas porque deseja entregar a Sua. A pergunta é: ainda estamos carregando nossos cântaros pesados, buscando água em poços que secam, ou estamos prontos para receber a água viva que jorra para a vida eterna?
Rev. Jônatas Outeiro



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