Jonatas Outeiro
As Obras da Carne e o Chamado à Santidade em Tempos de Carnaval
Jornal Democrata, edição 1910 de 14 de fevereiro de 2026 O apóstolo Paulo, escrevendo aos gálatas, apresenta uma lista solene e direta daquilo que ele chama de “obras da carne”. Não se trata de uma enumeração meramente moralista, mas de um diagnóstico espiritual que revela o coração humano quando este vive separado do governo do Espírito Santo. Paulo afirma: “Ora, as obras da carne são conhecidas: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já outrora vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.19–21).
Essas obras não surgem do nada; elas brotam de uma vida conduzida pelos desejos desordenados da carne, isto é, da natureza humana caída que resiste à vontade de Deus. Paulo inclui também a glutonaria, revelando que até os excessos aparentemente socialmente aceitáveis — como a entrega desenfreada aos prazeres do corpo, sem domínio próprio — são expressões de uma vida desgovernada espiritualmente. O alerta apostólico é claro: perseverar nesse estilo de vida revela incompatibilidade com o Reino de Deus.
Quando observamos o carnaval à luz desse texto, não podemos ignorar que, embora apresentado como manifestação cultural ou entretenimento popular, ele frequentemente se estrutura exatamente sobre aquilo que Paulo denuncia. A exaltação da sensualidade, a normalização da imoralidade sexual, o abuso de bebidas, a perda do domínio próprio e até formas explícitas ou sutis de idolatria revelam um ambiente onde a carne é celebrada e não mortificada.
É importante afirmar que o problema não está apenas no evento em si, mas no espírito que o permeia: a suspensão de limites morais, a glorificação do prazer sem responsabilidade e a inversão de valores que tratam o pecado como liberdade. O carnaval, nesse sentido, torna-se um símbolo contemporâneo daquilo que a Escritura chama de “obras da carne”. O cristão, não é chamado apenas a evitar determinados comportamentos, mas a viver uma nova realidade espiritual. Em Gálatas 5, o contraste não é entre festa e austeridade, mas entre carne e Espírito. A verdadeira liberdade cristã não consiste em dar vazão aos desejos da carne, mas em ser governado pelo Espírito Santo.
A Escritura nos chama a um afastamento consciente da carnalidade, não por isolamento orgulhoso, mas por compromisso com a santidade. Isso exige discernimento espiritual para reconhecer ambientes, práticas e influências que enfraquecem nossa comunhão com Deus e alimentam desejos contrários à Sua vontade.
A resposta bíblica às obras da carne não é o simples moralismo, mas o enchimento do Espírito Santo. Onde o Espírito governa, a carne perde força. O cristão é chamado a substituir, e não apenas a negar: trocar a exaltação do eu pela glorificação de Cristo; trocar o prazer momentâneo pela alegria duradoura da comunhão com Deus.
Em tempos em que a carne é celebrada publicamente, o povo de Deus é convidado a testemunhar uma vida diferente — marcada por domínio próprio, pureza, reverência e verdadeira alegria espiritual. Assim, afastando-se da carnalidade e andando no Espírito, o cristão demonstra que pertence não a este século, mas ao Reino eterno de Deus. “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gl 5.16).
Rev. Jônatas OuteiroRev. Jônatas Outeiro, pastor da Igreja Presbiteriana de Mococa



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