Jonatas Outeiro
Quando Cristo Cresce em nós!
Jornal Democrata, edição 1907 de 24 de janeiro de 2025 A mensagem de João 3.22–36 permanece como uma das janelas mais claras para o coração de um verdadeiro servo de Deus. Nesse trecho, encontramos o último grande testemunho de João Batista antes de sua prisão. Ele não surge como um profeta austero ou como uma figura centralizadora, mas como alguém profundamente maravilhado com Cristo.
O cenário que o cerca é tenso: comparações, disputas veladas e ciúmes ministeriais. Ainda assim, sua resposta atravessa os séculos com força cristalina: “Convém que Ele cresça, e que eu diminua.”
Essa declaração não nasce de um momento de fraqueza, mas de lucidez espiritual. E talvez nunca tenha sido tão necessária quanto hoje, quando a igreja e o coração humano enfrentam as mesmas tentações de comparação, vaidade e busca por relevância.
O texto começa mostrando Jesus e Seus discípulos batizando, enquanto João Batista continua seu próprio ministério em Enom. Quando os discípulos de João percebem que as multidões agora se dirigem a Jesus, eles reagem com inquietação: “Rabi, aquele que estava contigo… todos vão ter com Ele.” A frase carrega o peso da comparação e o incômodo do ego ferido.
A discussão sobre “purificação” que surge em seguida revela o pano de fundo: a disputa por autoridade espiritual e prestígio religioso. É impressionante como o coração humano consegue transformar até o serviço a Deus em palco para vaidade. A velha natureza tenta, de forma sutil, roubar a glória que pertence somente a Cristo.
A resposta de João Batista, porém, desmonta toda essa lógica. Ele oferece três afirmações que revelam a essência de um coração alinhado com Deus. Primeiro, ele reconhece que tudo vem do céu.
Nenhum dom, influência ou oportunidade nasce da capacidade humana. Quando entendemos isso, o orgulho perde espaço e a gratidão floresce. Depois, João afirma com clareza: “Eu não sou o Cristo.” Essa consciência de identidade o liberta. Ele não tenta ocupar um lugar que não é seu, não busca protagonismo, não deseja usurpar a glória do Messias.
Grande parte do peso espiritual que carregamos vem justamente de tentarmos ser o que Deus não nos chamou para ser. Por fim, João se descreve como o amigo do noivo, cuja alegria é ouvir a voz do noivo e vê-lo chegar. Sua satisfação está em ver Cristo exaltado.
É nesse contexto que ele declara: “Convém que Ele cresça, e que eu diminua.” João não deseja apenas que Cristo cresça apesar dele, mas por meio dele — mesmo que isso custe sua visibilidade. Essa é a essência da vida cristã: menos de nós, mais Dele.
A partir do versículo 31, o evangelista João amplia a visão e apresenta as razões pelas quais Cristo deve crescer. Ele é “de cima”, enquanto todos os outros são da terra. Ele revela perfeitamente o Pai, fala do que viu e ouviu na glória eterna. Ele possui o Espírito sem medida, algo que nenhum profeta ou apóstolo jamais teve. O Pai O ama e entregou tudo em Suas mãos — toda autoridade, todo juízo, toda soberania.
O texto culmina com uma afirmação decisiva: quem crê no Filho tem a vida eterna; quem O rejeita permanece sob a ira de Deus. Não há neutralidade diante de Cristo. Ele é o divisor eterno da humanidade.
Diante dessa revelação, o texto nos convoca a um realinhamento profundo. Somos chamados a abandonar comparações, ciúmes e vaidades; a abraçar a postura de servos alegres; a viver com o coração firmado na soberania do Pai; a exaltar Cristo acima de tudo; e a chamar urgentemente todos a crer no Filho.
O clamor de João Batista deve ecoar em nossa vida, casa, igreja e ministério: Cristo deve crescer — e eu devo diminuir. Que essa seja nossa oração, nossa paixão e nossa alegria, hoje e até a eternidade.
Rev. Jônatas Outeiro



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