Do Supremo à Delegacia: o mesmo alerta
Nesta edição, o leitor encontrará notícias de repercussão nacional que, embora distantes geograficamente, dialogam de forma direta com a realidade rio-pardense.
A investigação envolvendo fiscais da Receita que teriam acessado dados sigilosos de ministros do Supremo Tribunal Federal e o desfile carnavalesco com a presença do presidente Luiz Inácio revelam, cada qual a seu modo, a tensão permanente entre instituições, poder e responsabilidade pública.
O caso dos auditores reforça um alerta essencial: a estrutura do Estado não pode ser instrumentalizada para fins particulares, ideológicos ou de vingança. O acesso a dados protegidos, quando desviado de sua finalidade legal, compromete não apenas indivíduos, mas a própria credibilidade das instituições.
Essa discussão, infelizmente, encontra eco em São José do Rio Pardo.
No âmbito local, vieram a público informações – posteriormente alteradas – relativas a investigação interna na qual o editor do DEMOCRATA figurou como vítima ao adquirir aparelho celular de um comerciante. O equipamento, comprado sem qualquer restrição de IMEI, tornou-se objeto de reclamaação posterior, culminando na apreensão do bem.
Dados que deveriam permanecer sob reserva chegaram a um político que atua como blogueiro, com laços públicos com policiais. Diante da gravidade do ocorrido, impõe-se a apuração rigorosa dos fatos, inclusive para esclarecer se eventual vazamento partiu de dentro da própria estrutura pública, hipótese que precisa ser investigada com seriedade e responsabilidade.
Também é necessário apurar quem promoveu as alterações verificadas no material divulgado. Alterando a verdade dos fatos e até fotografias que foram adulteradas com uso de Inteligência Artificial, ampliando a distorção dos acontecimentos e criando narrativa incompatível com os autos.
Não se trata de acusar, mas de exigir esclarecimento.
O episódio confirma a legitimidade da preocupação externada por ministros do STF: quando agentes públicos eventualmente utilizam a máquina estatal para fins privados, ideológicos ou persecutórios, rompe-se a linha que separa o Estado de Direito do arbítrio. Justamente por isso, a apuração técnica e imparcial é indispensável.
O concurso público não outorga salvo-conduto para vinganças pessoais, tampouco para disputas políticas travestidas de ato funcional. Ao mesmo tempo, a prudência impõe que responsabilidades sejam atribuídas apenas após investigação conclusiva.
A deterioração moral que se dissemina nas redes sociais, marcada por ataques, distorções e espetacularização, não pode contaminar a estrutura pública.
Servidores que honram o cargo que ocupam – e são muitos – sabem que a credibilidade institucional depende da lisura interna. Corporativismo não pode significar conivência, mas também não pode substituir o devido processo de apuração.
Espera-se do servidor público compromisso com o interesse coletivo. A força do Estado existe para proteger direitos, não para constranger indivíduos.
O Brasil vive momento decisivo. Instituições fortes dependem de responsabilidade individual e de mecanismos eficazes de controle. A responsabilização de quem extrapola seus deveres — esteja dentro ou fora da estrutura estatal — é condição indispensável para o amadurecimento democrático.
Como advertiu Euclides da Cunha, “ou progredimos, ou desaparecemos”.
O progresso começa pelo respeito à legalidade, pela ética no serviço público e pela coragem de investigar com rigor — sem precipitações e sem omissões.
Sem isso, não haverá República sólida.
Com isso, haverá esperança.







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