Jonatas Outeiro
Atitudes de Fé no Senhor
Jornal Democrata, edição 1941 de 26 de setembro de 2026 A fé bíblica não é simplesmente uma convicção interior de que as coisasdarão certo. Ela não se sustenta na força da nossa confiança, nem estáfundamentada na capacidade humana de controlar as circunstâncias. A verdadeirafé está firmada no próprio Deus, em seu caráter, em suas promessas e em suafidelidade. Por isso, a fé genuína produz atitudes concretas diante do Senhor.Em 1 Crônicas 16.34-36, encontramos uma bela expressão dessa realidade: “Rendeigraças ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua misericórdia dura para sempre.Salva-nos, ó Deus da nossa salvação; e congrega-nos, e livra-nos das nações,para que demos graças ao teu santo nome e nos gloriemos no teu louvor. Benditoseja o SENHOR, Deus de Israel, de eternidade a eternidade. E todo o povo disse:Amém! e louvou ao SENHOR”.
Essas palavras estão inseridas no contexto da chegada da arca daaliança a Jerusalém. Davi havia estabelecido a cidade como centro do reino eagora desejava estabelecer também ali um centro de adoração ao Senhor. A arca,símbolo da presença de Deus e intimamente relacionada à aliança, é colocada natenda preparada por Davi, e os levitas são designados para ministrar diantedela com sacrifícios, música e ações de graças. Nesse contexto, o povo éconduzido a recordar as obras de Deus, sua aliança, sua fidelidade e suaatuação na história de Israel. O cântico termina com uma convocação à gratidão,um clamor pela salvação e uma declaração de louvor. Não se trata, portanto, deuma fórmula religiosa isolada, mas de uma confissão de fé produzida pelacontemplação do Deus da aliança.
A primeira atitude de uma fé verdadeira é a gratidão pela bondade epelo amor de Deus. O texto começa com uma ordem: “Rendei graças ao SENHOR”. Arazão apresentada é igualmente importante: “porque ele é bom; porque a suamisericórdia dura para sempre”. A gratidão bíblica não depende, em primeirolugar, das circunstâncias favoráveis, mas do caráter imutável de Deus. O povonão é chamado a agradecer porque todas as dificuldades desapareceram ou porquetudo acontecia conforme seus desejos. É chamado a agradecer porque Deus é bom.Sua bondade não é determinada pelas circunstâncias da vida, pois pertence aopróprio caráter divino. Da mesma maneira, sua misericórdia dura para sempre. Otermo hebraico ḥesedaponta para a misericórdia, a bondade e a fidelidade amorosa de Deus,especialmente no contexto de sua aliança. Assim, a fé pode permanecer gratamesmo quando não compreende aquilo que Deus está fazendo, porque sabe quem Deusé.
Essa verdade confronta uma tendência comum da nossa espiritualidade:condicionar a gratidão àquilo que recebemos. Agradecemos quando Deus responde ànossa oração, quando uma porta se abre, quando uma enfermidade é curada ouquando nossos planos se realizam. Entretanto, a fé madura aprende a agradecernão apenas pelos benefícios de Deus, mas pelo próprio Deus. Isso não significaignorar a dor ou fingir que as dificuldades não existem. Significa reconhecerque nossas circunstâncias podem mudar, mas o caráter do Senhor permanece.Podemos não compreender os caminhos de Deus, mas podemos confiar naquele quecaminha conosco. A gratidão cristã, portanto, não nasce da ausência deproblemas, mas da certeza de que a bondade e a misericórdia do Senhorpermanecem para sempre.
A segunda atitude de fé é o clamor pela glória do Senhor. Depois deconvocar o povo à gratidão, o texto apresenta uma súplica: “Salva-nos, ó Deusda nossa salvação; e congrega-nos, e livra-nos das nações”. Aqui encontramosuma verdade essencial: agradecer a Deus não significa deixar de reconhecernossa necessidade. A fé não elimina o clamor; ela nos ensina a quem devemosclamar. Israel não é orientado a confiar em sua própria força ou na capacidadedos homens. O povo clama ao “Deus da nossa salvação”. A salvação pertence aoSenhor, e é dele que deve vir o socorro.
Entretanto, o texto vai além do simples pedido de livramento. Eleapresenta também a finalidade da salvação: “para que demos graças ao teu santonome e nos gloriemos no teu louvor”. O propósito último da intervenção de Deusnão é simplesmente tornar a vida do homem mais confortável, mas manifestar aglória do seu santo nome. Essa perspectiva transforma nossa maneira de orar.Podemos e devemos apresentar nossas necessidades diante de Deus, mas nossasorações não devem terminar em nós mesmos. Pedimos saúde, provisão, livramento,restauração e sustento, mas devemos desejar, acima de tudo, que Deus sejaglorificado por meio daquilo que realiza. A fé não pergunta somente como Deusresolverá determinado problema; ela deseja saber como, em meio àquela situação,o nome do Senhor poderá ser honrado.
Essa é uma dimensão essencial da fé cristã. Quando o sofrimento chega,nossa primeira preocupação frequentemente é saber quando ele terminará. Quandoenfrentamos uma crise, queremos saber como Deus irá resolvê-la. Mas a féaprende a olhar além da circunstância e a perguntar: “Senhor, como o teu nomeserá glorificado nesta situação?”. Isso não diminui o desejo de livramento; aocontrário, coloca esse desejo dentro de uma perspectiva maior. Queremos aintervenção de Deus porque desejamos que sua glória seja manifesta. Queremosser salvos para que seu santo nome seja honrado. Queremos suas bênçãos para quepossamos bendizer aquele que nos abençoa.
A terceira atitude de fé apresentada pelo texto é o louvor pela pessoado Senhor. O versículo 36 declara: “Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, deeternidade a eternidade”. O povo não louva apenas aquilo que Deus faz; louva opróprio Deus. Essa distinção é fundamental. É possível procurar Deus somentepor causa de seus benefícios, desejando as dádivas mais do que o Doador. A fébíblica, porém, aprende a encontrar em Deus o seu maior tesouro. As bênçãos sãopreciosas, mas o Deus que concede as bênçãos é infinitamente mais precioso.
O Senhor é chamado de “Deus de Israel”, uma expressão que recorda suarelação de aliança com seu povo. Ele é o Deus que se revelou na história, quefez promessas, que sustentou Israel e que demonstrou repetidamente suafidelidade. Mas o texto também afirma que ele é Deus “de eternidade aeternidade”. Isso significa que a existência e a soberania do Senhor não estãolimitadas a uma circunstância histórica. Os reis passam, os impérios passam, asgerações passam e as circunstâncias mudam, mas o Senhor permanece. Aquele queera Deus antes de Davi reinar continuaria sendo Deus depois que Davi morresse.A estabilidade do povo de Deus não está na estabilidade das circunstâncias, masna eternidade daquele em quem o povo confia.
Por isso, o louvor verdadeiro não depende da ausência de dificuldades.Podemos louvar quando recebemos aquilo que pedimos e podemos louvar enquantoesperamos. Podemos louvar quando compreendemos os caminhos de Deus e podemoscontinuar louvando quando não os compreendemos. O fundamento do louvor não é anossa capacidade de interpretar todas as coisas, mas a certeza de que Deuscontinua sendo quem ele é. Quando todo o povo responde “Amém” e louva aoSenhor, vemos uma comunidade inteira confessando sua confiança no Deus daaliança.
1 Crônicas 16.34-36 nos ensina, portanto, que a fé verdadeira possuiuma expressão concreta. Ela olha para a bondade de Deus e agradece; olha para anecessidade e clama; olha para a pessoa de Deus e o adora. A fé agradece porqueDeus é bom, clama porque Deus é o Deus da salvação e louva porque Deus éeternamente digno de adoração. Essas três atitudes não são independentes, masformam um único movimento de confiança: reconhecemos quem Deus é, dependemosdele em nossas necessidades e, finalmente, desejamos que toda a nossa vida sejauma resposta de adoração à sua glória.
Quando as circunstâncias forem favoráveis, agradeça. Quando foremdifíceis, continue confiando e clame ao Senhor. Quando não compreender oscaminhos de Deus, lembre-se de que o caráter dele não mudou. Sua misericórdiacontinua para sempre. O Deus que sustentou seu povo continua sendo o mesmo Deusfiel. Portanto, nossa fé não deve estar fundamentada naquilo que acontece aonosso redor, mas naquele que permanece eternamente. A grande pergunta não éapenas se temos fé, mas se nossa fé está produzindo gratidão, dependência eadoração. Que Deus nos conceda uma fé que, em todas as circunstâncias, possadizer: “Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua misericórdiadura para sempre”.



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