EE Euclides da Cunha: 90 anos de uma história que continua viva

Jornal Democrata, edição 1944 de 31 de outubro de 2026
EE Euclides da Cunha: 90 anos de  uma história que continua viva Jardim da EE Euclides da Cunha / Divulgação

Impossível chegar à Escola Euclides da Cunha e não se impactar: por trás das antigas-esvoaçantes árvores de sua calçada, um jardim verde brilhante, com altos e calmos coqueiros emoldura a fachada desta senhora feita de concreto. 

Feita para durar. 

O céu azul do dia ou o céu estrelado da noite completam a moldura desse quadro rio-pardense. Neste ano, essa senhora completa 90 anos de existência – um verdadeiro símbolo do poder da união dos cidadãos de São José do Rio Pardo em prol de algo fundamental para o bem comum: a educação.

O professor Rodolpho José Del Guerra (em seu livro “No Ventre da Terra Mãe”) nos conta que em 1928, no jornal “Resenha” (de Paschoal Artese), já se falava da necessidade de nosso povo se unir para que aqui houvesse uma escola profissional. 

O jornal argumentava que seria impossível “(…)que os nossos homens principais, os chefes de família abastados ou medíocres, em fortunas, não reconheçam quais as vantagens que adviriam de (…) um ginásio, onde se poderia anexar uma escola normal, ou de farmácia, ou de odontologia”.

O apelo do jornal rendeu frutos e então, pelo decreto 6.691, de 21-09-1934, foi autorizada a existência do ginásio estadual em São José. Seu projeto foi feito por técnicos, na capital de São Paulo, e José Maria da Silva Neves foi o engenheiro-arquiteto responsável. 

O traçado arquitetônico do prédio representava o que havia de mais moderno, em termos de edifícios escolares, na época. O projeto do então Ginásio Euclides da Cunha representava uma forma moderna de se pensar o ambiente escolar; por isso, deveria ser um lugar “simples, harmonioso e de fácil asseio”, de acordo com Neves. 

Para ele, esse projeto deveria ser racional, já que a escola deveria “aproveitar todo conforto das construções modernas, de todas as conquistas das ciências no sentido de realização sob o ponto de vista da higiene pedagógica”.

A arquiteta urbanista, Natália Cappellari Rezende, oferece-nos mais explicações sobre o projeto da Escola, em sua dissertação de mestrado (2019), “São José do Rio Pardo e as moradias do centro histórico (1865-1940)”; para ela, o “sóbrio edifício de fachadas simétricas, com sequência rítmica, marcada pelas pilastras e aberturas regulares, amplos beirais e geometrização de detalhes e elementos que o vinculam ao estilo art déco”.

Entretanto, é muito importante que não nos esqueçamos de que a construção deste prédio somente aconteceu por conta da união do povo de nossa terra. Já que o governo do Estado não ajudaria na construção, cidadãos rio-pardenses de todas as classes sociais se uniram em esforços políticos, arrecadações de dinheiro, doações de materiais, quermesses para que a escola fosse colocada de pé; a Prefeitura da época doou o Parque do Centenário, um dos pontos mais altos, no centro da cidade.

Diante de tantos esforços, tanto a colocação da pedra fundamental, quanto a primeira telha colocada neste prédio foram motivo de festa para toda a comunidade rio-pardense. E assim, no dia 18 de outubro de 1936, às 17 horas, o então governador do Estado, Dr. Armando Salles de Oliveira, inaugurou o Ginásio Euclides da Cunha, em meio a várias festividades na cidade.

E, passados esses 90 anos, essa senhora tem sobrevivido a muita coisa: duas ditaduras, diferentes experiências pedagógicas (que administrações do governo do Estado tentaram implementar); mais salas foram feitas, depois da democratização do ensino; mais alunos foram colocados em cada classe; algumas matérias sumiram do currículo, outras precisaram ser colocadas; o laboratório de física, hoje, transformou-se no laboratório do curso de farmácia; o laboratório de química modernizou-se; o laboratório de biologia deu lugar a mais uma sala de aula. E a biblioteca? O esforço feito, em 1937, com o intuito de arrecadar livros para sua biblioteca, foi realmente deixado no passado: hoje, o que interessa é o livro digital.

Além de passar por todas essas situações, não se pode esquecer do quanto a sociedade mudou: a ideia de coletividade foi deixada para trás, em nome do individualismo. 

Soma-se a isso, o fato de que a modernidade dita que algo bom deva ser algo em que não se gaste muito tempo, mas que gere muito lucro. Sabemos que educação exige muito tempo para acontecer; os lucros vindos dela, porém, podem demorar a chegar. Dito isso, vemos que a educação não é mais um bem comum pelo qual todos de uma comunidade se unem para que aconteça. Infelizmente, a comunidade não está mais interessada na Escola. 

Ainda assim, a Escola é uma das primeiras a sentir o abandono da comunidade e a constatar o quanto a sociedade está doente. E esse sentir e esse verificar se dão por meio de sua maior preciosidade: seus alunos.

Mesmo em meio a tantas contradições, enfrentando os inúmeros desafios da modernidade, a Escola Euclides da Cunha abriga suas preciosidades com esperança. 

Essa Escola mantém, em seus jovens, a esperança de uma comunidade, como iniciado em 1928. É uma Escola viva, como qualquer outra, porque tem gente. 

Em suas salas de aula, em seus corredores, além de viver a memória de todos os alunos, professores, agentes escolares, gestores, de todos que ali já estiveram, dos que lá estão, a Escola Euclides da Cunha ainda vive a memória do futuro; a memória daqueles que ainda hão de estar ali. E todas essas existências, carregadas de medos, de sonhos, de angústias, de amor, de alegrias, de esperanças, fazem essa Escola.

E, realmente, não importa qual seja a situação; permanece, em nossa Escola, a esperança de que o conhecimento possa nos oferecer novas formas, mais justas, de se pensar, de se existir. Também fica a esperança de que não nos esqueçamos de que vivemos em uma comunidade. A construção da Escola Euclides da Cunha é o maior exemplo do que uma coletividade pode fazer, quando se une, quando quer algo bom para todos.

Feliz 90 anos de história a nossa querida Escola Euclides da Cunha!”

* Texto da professora Por Ana Paula Pereira




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