Jonatas Outeiro

Enxergando a Cristo


Enxergando a Cristo Jornal DEMOCRATA, edição 1942 de 3 de outubro de 2026

Há momentos na vida em que percebemos que nem tudo aquilo que pensávamos enxergar estava realmente diante dos nossos olhos. Às vezes, precisamos passar por uma situação difícil, ouvir uma palavra que nos confronta ou simplesmente parar diante de Deus em silêncio para perceber que podemos estar olhando para muitas coisas sem realmente vê-las. Podemos enxergar as circunstâncias, mas não perceber a providência de Deus. Podemos enxergar nossas próprias necessidades, mas não perceber a graça que nos sustenta. Podemos enxergar os pecados dos outros com grande facilidade e, ao mesmo tempo, não perceber a cegueira do nosso próprio coração. Podemos até conhecer muitas coisas a respeito de Cristo e, ainda assim, não contemplar verdadeiramente quem ele é.

Essa é uma das realidades mais profundas da vida cristã: não basta ter olhos; é necessário enxergar. Não basta possuir conhecimento; é necessário ter o coração iluminado pela graça. Não basta ouvir falar de Jesus; é necessário vê-lo pela fé, reconhecê-lo como Senhor e Salvador e curvar-se diante dele em adoração.

Talvez por isso o relato de João 9 seja tão pessoal e tão penetrante. À primeira vista, encontramos simplesmente a história de um homem que nasceu cego e que foi curado por Jesus. Mas, à medida que avançamos na narrativa, percebemos que o verdadeiro milagre não aconteceu apenas em seus olhos. Aquele homem precisava de algo ainda maior: precisava enxergar a Cristo. E há algo profundamente consolador nessa história. Aquele homem havia sido rejeitado, interrogado e finalmente expulso da sinagoga. Quando os homens religiosos fecharam suas portas para ele, Jesus foi ao seu encontro. Quando ele perdeu o acolhimento daqueles que julgavam conhecer a Deus, o próprio Filho de Deus o procurou. Quando parecia estar sozinho, descobriu que não estava esquecido.

É justamente nesse momento que Jesus lhe faz uma pergunta que atravessa os séculos e chega até nós: “Crês tu no Filho do Homem?” A pergunta não diz respeito simplesmente ao que aquele homem sabia sobre Jesus, mas àquilo que ele faria diante da revelação de quem Jesus realmente era. Aquele homem já havia recebido a visão dos olhos, mas agora precisava receber a visão da alma. Ele pergunta humildemente: “Quem é, Senhor, para que eu nele creia?” E Jesus responde: “Tu já o tens visto; é o que fala contigo.” Então aquele homem compreende. Ele não está simplesmente diante do homem que lhe havia concedido a visão. Está diante do Filho do Homem, diante do Senhor. E sua resposta é uma das mais belas confissões de fé encontradas no Evangelho: “Creio, Senhor.” E, tendo dito isso, ele o adora.

Aqui está o coração da passagem. O homem que era cego começa a enxergar verdadeiramente. E, em contraste, aqueles que afirmavam possuir visão espiritual demonstram estar cegos para a glória de Cristo. João 9 nos lembra que existe uma cegueira muito mais profunda e terrível do que a cegueira dos olhos: a cegueira da alma. Uma pessoa pode possuir educação, conhecimento, posição social e até mesmo profunda familiaridade com a religião e, ainda assim, permanecer cega para a glória de Cristo. Por isso, a pergunta deste texto não é apenas uma pergunta dirigida aos fariseus. É uma pergunta que precisa alcançar o nosso próprio coração: Estamos realmente enxergando a Cristo?

Aqui encontramos o verdadeiro centro do relato. O homem que antes era cego começa a enxergar de maneira muito mais profunda do que simplesmente com os olhos físicos. Ele começa a enxergar Cristo. E enxergar Cristo é a grande necessidade de todo pecador.

Jesus então declara: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.” Essa declaração fornece a interpretação divina de todo o capítulo. O milagre realizado nos olhos daquele homem era um sinal de algo infinitamente maior. Cristo veio para revelar o estado espiritual dos homens. Sua presença manifesta aquilo que realmente existe no coração. Diante dele, os humildes recebem visão, enquanto aqueles que confiam na própria justiça permanecem em sua cegueira. Os fariseus percebem que as palavras de Jesus os atinge e perguntam: “Acaso também nós somos cegos?” A resposta do Senhor é solene: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado.” O problema deles não era simplesmente não enxergarem. O problema era acreditarem que enxergavam. A cegueira deles era agravada pela própria convicção de que possuíam visão.

É justamente nesse ponto que o texto se torna profundamente pastoral. O homem que foi expulso encontra Cristo. O homem que reconheceu sua necessidade recebe a revelação de Cristo. O homem que crê adora. Já aqueles que confiam em sua própria justiça permanecem presos aos seus pecados. O capítulo termina invertendo todas as expectativas: o cego vê, crê e adora; os que dizem ver rejeitam Cristo e permanecem condenados em sua cegueira.

Há, portanto, uma pergunta que precisa ser feita não apenas aos fariseus, mas a cada um de nós: estamos realmente enxergando a Cristo? Por isso precisamos examinar nosso próprio coração. O que buscamos quando nos aproximamos de Jesus? Estamos mais interessados naquilo que ele pode nos dar ou em conhecê-lo? Desejamos suas bênçãos ou desejamos sua presença? Quanto mais contemplamos a glória de Cristo nas Escrituras, mais nossa fé amadurece. Quanto mais conhecemos sua pessoa, sua obra, sua graça e sua majestade, mais profundamente percebemos que ele próprio é o nosso maior tesouro.

O pecador que sabe que é pecador pode correr para Cristo em busca de misericórdia. Mas aquele que acredita ser suficientemente justo não sente necessidade do Salvador. O Evangelho não é recebido por aqueles que imaginam possuir justiça própria, mas por aqueles que reconhecem que precisam desesperadamente da graça. Por isso, a pergunta de João 9 precisa ser transformada em uma pergunta pessoal: você reconhece sua necessidade de Cristo? Não basta possuir conhecimento bíblico. Não basta frequentar uma igreja. Não basta conhecer doutrinas, defender posições teológicas ou possuir uma longa história religiosa. Precisamos enxergar a Cristo. Precisamos reconhecer nossa cegueira, abandonar toda confiança em nós mesmos e olhar para aquele que é a única fonte de salvação.

Que o Senhor nos livre da terrível cegueira de pensar que vemos e nos conceda a humildade daquele homem que, tendo sido encontrado por Cristo, pôde dizer com fé: “Creio, Senhor.” E que, pela mesma graça, nossa fé também se transforme em adoração, para que toda a nossa vida seja dedicada àquele que nos encontrou quando estávamos perdidos, abriu nossos olhos quando estávamos cegos e nos trouxe das trevas para a maravilhosa luz da sua presença.

Rev. Jônatas Outeiro, pastor da Igreja Presbiteriana de Mococa



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