Fabrício Menardi

A “guerra dos vistos”: como negativas recíprocas levaram Brasil e EUA à pior crise diplomática em 200 anos


A “guerra dos vistos”: como negativas recíprocas levaram Brasil e EUA à pior crise diplomática em 200 anos Jornal Democrata, edição 1935 de 15 de agosto de 2026

O que aconteceu com a embaixadora

Na terça-feira, 4 de agosto, o Departamento de Estado americano anunciou o cancelamento do visto de Viotti. Segundo a Casa Branca, a medida pode ser revertida caso o Brasil conceda o agrément — a aprovação formal necessária — para que o deputado estadual da Flórida Daniel Perez assuma como novo embaixador dos EUA em Brasília, posto vago desde janeiro de 2025.

Washington afirmou que a embaixadora não seria expulsa do país, mas que passaria a não ter “visto válido”, o que na prática inviabiliza o exercício de suas funções diplomáticas. A decisão veio cerca de dez dias depois de o Itamaraty negar vistos a uma missão de diplomatas americanos que pretendia vir ao Brasil para questionar o processo eleitoral de 2026.


Uma escalada que já dura mais de um ano

A chamada “guerra dos vistos” não começou com o caso Viotti. Segundo apuração da CNN Brasil, o Departamento de Estado americano já vinha irritado com o processo, hoje bem mais restritivo, de concessão de vistos brasileiros a diplomatas e funcionários dos EUA — decisões que, desde o ano passado, passaram a exigir aval direto do Palácio do Planalto, e não apenas do Itamaraty. 

Entre 10 e 20 pedidos de visto de funcionários de diversos departamentos americanos estariam parados ou já negados por Brasília.

Uma linha do tempo reconstitui a escalada:

  •  Ano passado: os EUA revogam a autorização de entrada do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de sua família — episódio apontado como o gatilho da disputa.
  •  Março de 2026: o Brasil cancela a autorização de viagem já emitida ao então conselheiro sênior do Departamento de Estado, Darren Beattie. O Itamaraty alegou que ele planejava se encontrar com o ex-presidente Jair Bolsonaro e teria fornecido informações falsas no pedido de visto. O presidente Lula classificou a decisão como resposta ao caso Padilha.
  •  25 de julho de 2026: Brasília nega vistos aos diplomatas americanos Riley Barnes e Samuel Samson, que pretendiam vir ao país questionar a integridade do sistema eleitoral — visto por autoridades brasileiras como tentativa de interferência nas eleições de outubro.
  •  30 de junho de 2026: os EUA pedem formalmente o agrément para Daniel Perez, rompendo com a praxe diplomática de consultar previamente o país anfitrião antes de tornar pública a indicação — o que gerou desconforto no Itamaraty.
  •  4 de agosto de 2026: o secretário de Estado Marco Rubio revoga o visto da embaixadora Viotti.

O pano de fundo: tarifas, sanções e o julgamento de Bolsonaro

A crise dos vistos não pode ser dissociada de uma disputa comercial e política mais ampla, iniciada em 2025:

Em abril de 2025, os EUA aplicaram uma tarifa-base de 10% sobre produtos brasileiros.

Em julho de 2025, Trump ameaçou elevar as tarifas a 50%, vinculando publicamente a medida ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, acusado de planejar um golpe após a derrota eleitoral de 2022. A tarifa entrou em vigor em agosto de 2025, com isenções para setores estratégicos como aeronaves, suco de laranja e celulose.

Também em julho de 2025, o governo americano aplicou a chamada Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, congelando ativos dele nos EUA sob a justificativa de violações de direitos humanos — decisão associada às ações do STF contra aliados de Bolsonaro e a plataformas de tecnologia americanas.

Parlamentares republicanos chegaram a pedir formalmente a revogação de vistos de Moraes e de outros ministros do STF, acusando a Corte de perseguição política.

Podemos apontar dois fatores centrais por trás do impasse: a personalização da relação bilateral — com Trump associando parte das medidas ao julgamento de Bolsonaro e Lula tratando as ações americanas como interferência na soberania nacional — e um choque regulatório de fundo, já que Washington defende uma leitura ampla da liberdade de expressão para suas empresas de tecnologia, enquanto o Brasil sustenta que essas plataformas devem se submeter a decisões judiciais brasileiras.

Duas frentes que atingem o Brasil, mas não são exclusivas dele

Paralelamente ao atrito bilateral, o governo Trump endureceu de forma mais ampla sua política de vistos para dezenas de países — medidas que afetam o Brasil, mas fazem parte de uma ofensiva migratória global:

Vistos de imigrante para países de “alto risco”. Desde 21 de janeiro de 2026, o Departamento de Estado suspendeu a emissão de vistos de imigrante para cidadãos de 75 países, entre eles o Brasil, classificados como de maior probabilidade de recorrer a benefícios sociais públicos nos EUA. 

A embaixada americana esclareceu que a medida não afeta vistos temporários (turismo, estudo ou trabalho) nem revoga vistos já concedidos, valendo apenas para novos pedidos de residência permanente — com a única exceção prevista para quem possui dupla nacionalidade com um país fora da lista.

Ofensiva contra o “turismo de nascimento”. 

Em agosto, o secretário Marco Rubio anunciou que uma força-tarefa do Departamento de Estado já havia revogado mais de 600 vistos ao redor do mundo dentro de uma campanha contra estrangeiras que viajam aos EUA com o objetivo principal de dar à luz e garantir cidadania americana aos filhos. 

A medida decorre de dois decretos assinados por Trump em agosto, que autorizam a negativa ou revogação de vistos e até a proibição permanente de reentrada para quem for flagrado nessa prática, além de punir empresas que organizam esse tipo de viagem.

O que está em jogo

A crise combina, portanto, três camadas que se reforçam: uma disputa política e comercial ligada ao julgamento de Bolsonaro e às sanções contra Moraes; uma escalada específica de retaliações consulares entre os dois governos, hoje concentrada na situação da embaixadora Viotti; e um endurecimento migratório americano de alcance global que atinge brasileiros junto com dezenas de outras nacionalidades.

Para o Brasil, os efeitos práticos já se fazem sentir: tarifas de até 37,5% sobre produtos exportados aos EUA, dificuldades para brasileiros obterem vistos de imigração permanente, e uma relação diplomática sem embaixador plenamente reconhecido de nenhum dos dois lados — Washington segue sem embaixador confirmado em Brasília desde 2025, e agora a própria representante brasileira nos EUA está com a situação jurídica indefinida.

Com as eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026 no horizonte — e o senador Flávio Bolsonaro na disputa —, o tema eleitoral se tornou mais um ponto de fricção, com Washington acusado por Brasília de tentar interferir no processo e o governo americano rebatendo que suas preocupações dizem respeito à liberdade de expressão e ao tratamento dado a aliados políticos nos tribunais brasileiros. 

Contatos entre Lula e Trump ao longo de 2025 e 2026 mostraram que o diálogo direto entre os presidentes ainda é capaz de destravar ajustes pontuais, mas, até o momento, nenhuma das frentes da crise — comercial, judicial ou consular — foi efetivamente resolvida.

Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.

*Imagem criada com I.A.



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