Fabrício Menardi

Quando a diplomacia deixa o plenário: os protestos que marcam a 81ª Assembleia da ONU


Quando a diplomacia deixa o plenário: os protestos que  marcam a 81ª Assembleia da ONU Jornal Democrata, edição 1941 de 26 de setembro de 2026

A 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova York, ocorre em um ambiente de forte fragmentação diplomática, marcado principalmente pelas guerras no Oriente Médio, pela relação cada vez mais conflituosa entre Estados Unidos e Irã e pela crescente contestação internacional às ações do governo de Benjamin Netanyahu em Gaza. O debate geral começou em 22 de setembro e segue até 28 de setembro, reunindo chefes de Estado e de governo dos 193 países-membros. O tema oficial desta edição é “Restoring Trust, Managing Transformation: A United Nations that Delivers for All” — em português, “Restaurar a confiança, administrar a transformação: uma ONU que entregue resultados para todos”. 

Saídas do plenário: mais do que um gesto simbólico

Um dos momentos de maior repercussão ocorreu nesta quinta-feira (24), durante o discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Dezenas de delegações deixaram o plenário quando o israelense se dirigiu à tribuna. Entre elas estava a brasileira. A movimentação havia sido planejada previamente por diferentes missões diplomáticas e contou com uma mobilização da representação palestina na ONU. 

Os diplomatas brasileiros chegaram a aumentar deliberadamente sua presença no plenário pouco antes da fala de Netanyahu para participar da retirada coletiva. A delegação palestina também ampliou sua presença antes do início do discurso. A estratégia tinha, portanto, uma dimensão visual: quanto maior o número de diplomatas que deixasse o salão simultaneamente, mais evidente seria a mensagem política. 

A reação de Netanyahu foi igualmente política. Ao perceber a saída das delegações, afirmou: “Se há outros covardes morais que ainda não saíram deste salão, por favor, façam isso agora.”

Em seguida, sustentou que Israel estaria defendendo também países cujos representantes haviam abandonado o recinto. 

O episódio não significa que esses países tenham abandonado a ONU, rompido relações diplomáticas com Israel ou deixado de reconhecer Israel como Estado. O que ocorreu foi uma retirada deliberada de um espaço específico — o plenário — durante determinado discurso. Em diplomacia multilateral, esse tipo de gesto é utilizado justamente para produzir uma mensagem política sem necessariamente interromper as relações institucionais.

Por que uma delegação abandona um plenário?

A retirada de uma delegação durante um discurso pode cumprir diferentes funções diplomáticas.

A primeira é demonstrar rejeição política ao conteúdo ou ao comportamento de determinado governo. É uma forma pública de dizer que o país não deseja emprestar sua presença e sua atenção àquele pronunciamento.

A segunda é produzir visibilidade internacional. Em uma Assembleia Geral acompanhada por centenas de jornalistas, uma sala que progressivamente fica vazia pode transformar uma manifestação diplomática em uma imagem de grande repercussão.

A terceira é sinalizar alinhamento com outros países. Uma saída coordenada mostra que não se trata apenas de uma posição bilateral entre dois governos, mas de uma manifestação compartilhada por diferentes Estados.

Há ainda uma quarta dimensão: preservar a possibilidade de diálogo. Diferentemente de uma ruptura diplomática, deixar o plenário não encerra relações. Os mesmos países podem continuar participando de negociações, votações, reuniões de comissões e contatos bilaterais.

Por isso, o significado de um walkout depende do contexto. Ele pode ser um protesto, uma demonstração de solidariedade, uma tentativa de constranger diplomaticamente o orador ou uma combinação dessas funções.


Delegados deixam o plenário enquanto o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova York, Estados Unidos, em 24 de setembro de 2026. REUTERS/Jeenah Moon

Gaza no centro da retirada

No caso de Netanyahu, a principal questão é a guerra em Gaza e a crescente pressão internacional sobre Israel.

O primeiro-ministro israelense rejeitou durante seu discurso as acusações de genocídio contra Israel, classificando-as como uma mentira e defendendo que as operações militares israelenses têm como objetivo combater o Hamas. Netanyahu também argumentou que Israel tomou medidas para proteger civis, incluindo avisos à população e ações humanitárias. Israel rejeita as acusações de genocídio e sustenta que sua guerra é dirigida contra o Hamas. 

O governo brasileiro, por sua vez, mantém uma posição pública de forte crítica às ações militares israelenses em Gaza e defende a criação de dois Estados — Israel e Palestina. Na abertura da Assembleia, em 22 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a acusar o governo Netanyahu de cometer genocídio contra os palestinos. 

Assim, a saída brasileira do plenário deve ser entendida dentro de uma posição diplomática mais ampla já manifestada pelo governo brasileiro, e não como um ato isolado.

O outro grande confronto: Estados Unidos e Irã

Se o episódio envolvendo Netanyahu colocou Gaza no centro das atenções, o confronto entre Estados Unidos e Irãtransformou a 81ª Assembleia em uma espécie de palco diplomático de uma guerra em andamento.

No dia 22, o presidente americano Donald Trump utilizou seu discurso para defender a política de Washington em relação a Teerã e ameaçou “aniquilar” a República Islâmica caso não fosse alcançado um acordo de paz. Trump também pediu que outros países participassem do isolamento econômico do Irã. 

O discurso provocou uma reação da delegação iraniana. Quando Trump começou a falar especificamente sobre o Irã, os principais integrantes da delegação iraniana deixaram o plenário. Um diplomata de menor escalão permaneceu no local durante todo o discurso. 

O gesto foi repetido no dia seguinte, mas desta vez pelo lado americano.

O “efeito espelho” entre Washington e Teerã

Em 23 de setembro, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian discursou na Assembleia Geral e respondeu diretamente às acusações feitas por Trump no dia anterior.

Pezeshkian afirmou que o Irã havia sido vítima de agressão americana e israelense, rejeitou a classificação de seu país como terrorista e apresentou imagens de crianças mortas em um ataque contra uma escola em Minab. Durante a fala, a delegação dos Estados Unidos deixou o plenário. As delegações americana e israelense também estavam ausentes de seus lugares durante o discurso iraniano. 

O resultado foi uma espécie de duplo walkout diplomático:




Protesto contra a política israelense, especialmente em Gaza

Esses episódios são importantes porque mostram que o plenário da ONU deixou de ser apenas um espaço de exposição de posições nacionais e passou a funcionar, nesses momentos, como um teatro público de confrontação diplomática.

O Irã levou a guerra para dentro da Assembleia

A participação iraniana nesta edição possui uma característica incomum: o país está em guerra com os Estados Unidos, mas seu presidente foi a Nova York para utilizar justamente o principal fórum multilateral do mundo para apresentar a versão de Teerã sobre o conflito.

Pezeshkian procurou combinar duas mensagens. De um lado, adotou um discurso de resistência, afirmando que o Irã não se curvaria diante dos Estados Unidos. De outro, declarou disposição para o diálogo, desde que sem ameaças. 

A própria presença da delegação iraniana possui peso diplomático. Washington concedeu vistos ao presidente e ao chanceler iranianos apesar da guerra, embora tenha imposto restrições de circulação à delegação durante sua permanência nos Estados Unidos. 

Isso revela uma das contradições fundamentais da diplomacia multilateral: mesmo países em guerra continuam utilizando a ONU para falar uns com os outros — e, principalmente, para falar com o restante do mundo.

A cadeira vazia como instrumento diplomático

A imagem das cadeiras vazias tornou-se uma das mais fortes desta Assembleia.

Quando diplomatas deixam o plenário, eles deixam de participar fisicamente de determinado discurso. Mas a ausência passa a ser, ela própria, uma mensagem.

Foi exatamente isso que ocorreu nos três episódios envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel.

O Irã saiu quando Trump passou a tratar diretamente de Teerã. Os Estados Unidos fizeram o mesmo durante a fala de Pezeshkian. E dezenas de delegações abandonaram o plenário quando Netanyahu iniciou seu pronunciamento.

Há, portanto, uma simetria interessante: cada lado utiliza o mesmo instrumento diplomático para contestar a narrativa do adversário.

Isso também demonstra uma transformação na natureza da comunicação internacional. Uma delegação que permanece em seu lugar pode ser interpretada como alguém que está ouvindo e, em algum grau, concedendo legitimidade ao discurso. Ao sair, o país tenta estabelecer uma separação simbólica entre sua posição e a narrativa apresentada pelo orador.

Não se trata, contudo, de uma regra automática. Uma retirada pode ter diferentes significados e deve ser analisada junto com declarações oficiais, votações, alianças e negociações realizadas fora do plenário.

O precedente americano contra a França

Os walkouts de setembro não são os únicos registrados em 2026.

Em julho, diplomatas dos Estados Unidos abandonaram uma reunião do Conselho de Segurança da ONU enquanto representantes da França falavam. O episódio ocorreu depois que Paris criticou a posição do governo Trump em relação à situação dos direitos humanos nos Estados Unidos e à recondução do alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk. 

Na votação sobre a renovação do mandato de Türk, a resolução foi aprovada por 144 votos a favor, 10 contra e 13 abstenções. Os Estados Unidos estiveram entre os votos contrários, enquanto a França apoiou a renovação. 

A saída americana durante a fala francesa demonstrou que o recurso não está restrito a adversários tradicionais. Washington utilizou a mesma linguagem simbólica contra um de seus aliados europeus.

O episódio evidencia uma tensão mais ampla entre os Estados Unidos e parte de seus aliados europeus sobre direitos humanos, instituições multilaterais, Ucrânia, OTAN e o papel que Washington pretende desempenhar dentro da própria arquitetura internacional. 

Um ano marcado por cadeiras vazias

Até o momento, os episódios documentados em 2026 mostram que o abandono de plenários e reuniões da ONU tem sido empregado em diferentes contextos:

  • Estados Unidos x França: protesto americano contra críticas francesas à política de direitos humanos do governo Trump.
  • Irã x Estados Unidos: retirada iraniana durante o discurso de Trump, em reação às ameaças e acusações contra Teerã.
  • Estados Unidos x Irã: retirada americana durante o discurso de Pezeshkian, em reação às acusações dirigidas a Washington.
  • Brasil e dezenas de países x Israel: retirada durante o discurso de Netanyahu, em protesto político relacionado principalmente à guerra de Gaza.
  • Israel e Irã: ausência das respectivas delegações durante discursos do adversário, reforçando a separação política entre as duas narrativas.

Não é possível tratar esses episódios como uma lista exaustiva de todas as retiradas ocorridas em todas as reuniões do sistema ONU em 2026 sem uma base documental completa de cada sessão. Mas os casos acima são os que aparecem de forma claramente documentada nas fontes consultadas e ajudam a identificar um padrão.

O que esses gestos dizem sobre a diplomacia atual?

O conjunto dos episódios sugere uma característica importante da diplomacia de 2026: a disputa pela narrativa tornou-se quase tão importante quanto a negociação propriamente dita.

A ONU continua sendo um espaço para negociações, resoluções e construção de consensos. Mas também é um gigantesco palco de comunicação política.

Um presidente pode falar para 192 outras delegações, para jornalistas do mundo inteiro e para seu próprio eleitorado simultaneamente. Uma cadeira vazia pode virar manchete. Uma saída coletiva pode ser fotografada. Uma frase agressiva pode repercutir instantaneamente nas redes sociais.

Isso aumenta o valor político dos gestos simbólicos.

Mas também existe um limite. Sair do plenário não altera uma resolução, não encerra uma guerra e não substitui uma negociação. O efeito imediato é principalmente político e comunicacional: registrar oposição, demonstrar isolamento ou solidariedade e influenciar a percepção dos demais governos e da opinião pública.

É justamente essa combinação que explica a força das imagens produzidas durante a 81ª Assembleia.

No caso de Netanyahu, o plenário parcialmente vazio tornou-se uma demonstração visual da dimensão da contestação internacional às posições de seu governo. No caso de Trump e Pezeshkian, as retiradas recíprocas mostraram que Washington e Teerã estavam utilizando o mesmo espaço multilateral para disputar legitimidade enquanto mantêm um conflito militar.

E, no caso americano contra a França, o episódio mostrou que nem mesmo as alianças tradicionais estão imunes à lógica de confrontação pública.

A 81ª Assembleia Geral, portanto, apresenta uma ONU em que todos continuam presentes, mas nem todos estão dispostos a ouvir todos os outros. A organização continua sendo o principal espaço diplomático universal, mas as cadeiras vazias revelam o tamanho das fraturas que hoje atravessam o sistema internacional.

Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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