Fabrício Menardi

A guerra na Ucrânia entre a ofensiva russa, a resistência ucraniana e o impasse diplomático


A guerra na Ucrânia entre a ofensiva russa, a resistência ucraniana e o impasse diplomático Jornal Democrata, edição 1938 de 5 de setembro de 2026

A guerra entre Rússia e Ucrânia atravessa, em setembro de 2026, uma fase marcada por uma contradição cada vez mais evidente: enquanto o governo de Vladimir Putin sustenta que a Rússia está vencendo no campo de batalha e mantém uma postura de confiança diante da possibilidade de prolongamento do conflito, análises internacionais apontam para uma guerra sem solução militar rápida, com custos crescentes para os dois lados e consequências que ultrapassam as fronteiras dos países diretamente envolvidos. O pronunciamento de Putin no primeiro dia deste mês, repercutido pela CNN Brasil, pelo R7 e pela imprensa internacional, sintetiza esse cenário. O presidente russo afirmou que seu país está vencendo a guerra e declarou que Moscou não considera possível negociar com a atual liderança ucraniana, à qual voltou a atribuir a condição de “terrorista”. Ao mesmo tempo, Putin não fechou completamente a porta para negociações destinadas a pôr fim ao conflito.

A aparente contradição entre afirmar que a Rússia está vencendo e, simultaneamente, manter aberta a possibilidade de negociações revela uma característica fundamental da atual etapa da guerra: a diplomacia continua subordinada à situação militar. Para Moscou, avanços territoriais ou a capacidade de manter pressão sobre as forças ucranianas fortalecem sua posição antes de qualquer eventual acordo. Para Kiev, por outro lado, a resistência militar, os ataques de longo alcance contra alvos russos e a manutenção do apoio europeu e ocidental constituem instrumentos para impedir que a Rússia transforme sua capacidade militar em uma vitória política definitiva.

Segundo o relato divulgado pela Reuters e reproduzido por diferentes veículos, Putin afirmou que as forças russas teriam conquistado cerca de 270 quilômetros quadrados na região de Donetsk e alegou que duas grandes formações ucranianas estariam cercadas. O presidente russo também reconheceu os efeitos dos ataques de drones ucranianos contra instalações russas, especialmente refinarias de petróleo, mas procurou apresentar a situação como administrável e afirmou que as defesas russas teriam melhorado.

A declaração deve, entretanto, ser compreendida como parte da narrativa política construída pelo Kremlin. Dizer que a Rússia está vencendo não significa que o conflito esteja próximo de uma conclusão favorável a Moscou. A guerra já demonstrou que ganhos territoriais podem ocorrer em ritmo lento e a um custo elevado, enquanto a Ucrânia permanece capaz de atingir alvos em território russo. Nos primeiros dias de setembro, por exemplo, ataques russos provocaram mortes e danos em Kiev e outras áreas ucranianas, enquanto ataques ucranianos continuaram a atingir instalações e infraestrutura russas. Em 1º de setembro, uma grande ofensiva russa contra Kiev e arredores deixou pelo menos 12 mortos, segundo informações divulgadas pela Al Arabiya e outros veículos.

Esse equilíbrio instável ajuda a explicar por que a guerra permanece sem uma solução clara. A Rússia possui uma capacidade militar e industrial considerável e continua capaz de sustentar operações ofensivas. A Ucrânia, por sua vez, desenvolveu ao longo do conflito uma capacidade expressiva de utilizar drones, adaptar suas estratégias e atingir objetivos localizados em profundidade no território russo. A guerra passou, portanto, a ser também uma disputa tecnológica, industrial e econômica, além de territorial.

O emprego crescente de drones é particularmente significativo. A Ucrânia tem ampliado sua capacidade de realizar ataques a distâncias cada vez maiores, enquanto a Rússia também vem utilizando novas gerações de drones, inclusive modelos mais rápidos, para pressionar as defesas ucranianas. Essa transformação altera a natureza do conflito: instalações de energia, refinarias, centros logísticos, aeroportos, ferrovias e estruturas militares podem ser atingidos muito além da linha tradicional de frente. A fronteira entre retaguarda e zona de combate tornou-se, assim, progressivamente mais difícil de estabelecer.

É nesse contexto que ganha importância a análise publicada pelo The Economist, cujo próprio título resume a avaliação de que a guerra está “se intensificando, se expandindo e estagnada”. A publicação destaca um paradoxo: embora a intensidade dos combates permaneça elevada e o conflito tenha ampliado seus efeitos geográficos e estratégicos, não existe atualmente uma perspectiva clara de vitória rápida de qualquer dos lados. Para os aliados da Ucrânia, um acordo considerado ruim e que permita à Rússia consolidar suas conquistas pode ser mais perigoso do que a manutenção de um impasse prolongado.

O problema, portanto, não é simplesmente saber quem está avançando mais em determinado momento, mas compreender qual dos lados consegue transformar seus avanços em uma vantagem política duradoura. Uma guerra pode produzir alterações no mapa sem produzir uma solução definitiva. Da mesma maneira, uma força militar pode apresentar ganhos locais sem possuir capacidade suficiente para obrigar o adversário a aceitar seus objetivos políticos.

A análise publicada pelo The Conversation introduz outra dimensão importante para compreender esse processo. Seu argumento central é que a tentativa de Vladimir Putin de restaurar a Rússia como uma grande potência acabou produzindo, paradoxalmente, um fortalecimento da Ucrânia e sua emergência como um ator de maior importância no cenário europeu. A análise considera que a tentativa russa de recuperar influência sobre seu entorno acelerou transformações que contribuíram para aumentar a importância estratégica, política e militar da Ucrânia.

Essa interpretação é relevante porque desloca a análise da pergunta “quem está ganhando a guerra?” para uma questão mais ampla: “que Europa está surgindo como consequência da guerra?”. Mesmo que Moscou consiga manter ou ampliar algumas conquistas territoriais, a invasão alterou profundamente a posição da Ucrânia no sistema europeu. O país deixou de ser visto apenas como um Estado situado entre grandes centros de poder e passou a ocupar uma posição central na discussão sobre segurança continental, defesa, indústria militar, tecnologia e futuro da ordem europeia.

A guerra também contribuiu para modificar a própria concepção europeia de segurança. Países que durante décadas trataram a possibilidade de uma grande guerra convencional no continente como algo remoto passaram a ampliar seus investimentos em defesa, reforçar alianças e discutir novas formas de cooperação militar. A ameaça russa, real ou percebida, tornou-se um dos principais elementos organizadores da política de segurança europeia.

Essa transformação apresenta uma ironia histórica. Um dos objetivos estratégicos associados à política de Putin era recuperar a influência russa sobre o espaço pós-soviético e impedir uma aproximação ainda maior da Ucrânia com instituições ocidentais. Entretanto, a guerra contribuiu para consolidar justamente a identidade nacional ucraniana e para aprofundar seus vínculos com a Europa. A análise do The Conversation chama atenção para essa mudança na distribuição de poder, observando que a Rússia pode estar deixando de ocupar, em determinados aspectos, a posição de grande potência incontestável que pretendia recuperar.

Isso não significa, evidentemente, que a Rússia tenha deixado de ser uma potência relevante. Seu arsenal nuclear, seu território, seus recursos naturais, sua capacidade industrial e militar e sua influência internacional continuam conferindo ao país um peso significativo. O ponto é outro: poder militar não se traduz automaticamente em capacidade de alcançar todos os objetivos políticos pretendidos.

A própria declaração de Putin sobre a impossibilidade de negociar com “terroristas” demonstra o grau de dificuldade diplomática existente. Ao desqualificar a atual liderança ucraniana como interlocutora, o presidente russo reduz o espaço para uma negociação bilateral convencional. Ao mesmo tempo, Putin afirmou que permanece aberto a discussões sobre uma solução para o conflito e demonstrou disposição para dialogar com representantes ligados ao governo dos Estados Unidos.

Essa postura revela uma estratégia diplomática seletiva: rejeitar determinados interlocutores sem abandonar completamente a possibilidade de negociação. A mensagem é clara: Moscou pretende negociar a partir de uma posição que considera favorável e procura evitar que qualquer processo diplomático seja interpretado como reconhecimento de que a Rússia não alcançou seus objetivos militares.

O cenário é ainda mais complexo porque os Estados Unidos continuam desempenhando papel importante nas tentativas de mediação. Informações divulgadas hoje (04 de setembro) indicaram que enviados norte-americanos, incluindo Steve Witkoff e Jared Kushner, planejavam contatos com Moscou e Kiev, embora persistissem preocupações de segurança e divergências fundamentais sobre os termos de um eventual acordo. Entre as principais questões estão as exigências russas relativas aos territórios ocupados e à orientação estratégica da Ucrânia, incluindo sua relação com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), condições rejeitadas por Kiev.

Assim, o problema diplomático não é simplesmente fazer Rússia e Ucrânia sentarem à mesa. O desafio é encontrar uma fórmula que permita a ambas as partes apresentar um eventual acordo como algo aceitável diante de suas respectivas populações. Para a Rússia, abandonar territórios ou aceitar uma Ucrânia fortemente integrada ao Ocidente sem contrapartidas significativas representaria uma derrota política. Para a Ucrânia, aceitar a perda definitiva de territórios ou limitações permanentes à sua soberania seria extremamente difícil depois de anos de guerra e destruição.

Por isso, o conflito apresenta características de um impasse estratégico. A Rússia dispõe de recursos para continuar lutando, enquanto a Ucrânia continua demonstrando capacidade de resistência e de ataque. Nenhum dos lados, porém, conseguiu impor ao outro condições suficientes para encerrar a guerra.

A dimensão internacional do conflito também vem crescendo. Os ataques já não estão restritos ao campo de batalha tradicional. Instalações russas são atingidas por drones ucranianos, enquanto cidades e infraestrutura ucranianas continuam sob ataques russos. No Mar Negro, a escalada também produz efeitos sobre a navegação comercial e as exportações de grãos, ampliando as consequências econômicas da guerra para além da Rússia e da Ucrânia. Relatos recentes apontam para aumento dos riscos à navegação comercial na região e para impactos potenciais sobre os mercados internacionais de alimentos.

Outro aspecto preocupante é a expansão do conflito para uma dimensão híbrida. Sabotagens, operações clandestinas, ataques cibernéticos, ameaças e incidentes envolvendo infraestrutura europeia passaram a fazer parte do ambiente de segurança do continente. Governos europeus têm demonstrado crescente preocupação com ações atribuídas à Rússia que permanecem abaixo do nível de uma guerra convencional direta.

Esse fenômeno aumenta os riscos porque cria uma zona cinzenta entre guerra e paz. Um ataque convencional contra um Estado membro da OTAN poderia provocar uma resposta militar direta. Já ações clandestinas, sabotagens ou ataques cibernéticos permitem maior margem para negação e dificultam a definição de uma resposta proporcional. Quanto mais esse tipo de atividade se intensifica, maior é a possibilidade de um incidente provocar uma escalada que nenhum dos envolvidos inicialmente pretendia.

Nesse sentido, a guerra na Ucrânia já não pode ser compreendida apenas como uma disputa territorial entre dois países. Ela se transformou em uma das principais disputas pela configuração da ordem internacional no século XXI. De um lado, a Rússia busca preservar sua condição de potência independente, recuperar influência regional e impedir uma expansão da arquitetura de segurança ocidental em direção às suas fronteiras. De outro, a Ucrânia procura preservar sua soberania, recuperar territórios e consolidar sua integração política, econômica e militar com a Europa.

A afirmação de Putin de que a Rússia está vencendo precisa, portanto, ser analisada dentro dessa disputa mais ampla de narrativas. Para o Kremlin, demonstrar confiança é também uma arma política: sinaliza aos adversários que Moscou acredita possuir condições de continuar a guerra e tenta convencer a comunidade internacional de que esperar uma derrota russa seria irrealista. Para a Ucrânia e seus aliados, contudo, a continuidade da resistência demonstra que a Rússia ainda não conseguiu transformar sua superioridade material em uma vitória definitiva.

A situação atual também evidencia os limites das soluções exclusivamente militares. Mesmo que um dos lados obtenha novos avanços territoriais, permanecerão questões sobre segurança, soberania, reconstrução, deslocamento de populações, garantias internacionais e futuro das áreas ocupadas. Uma eventual trégua não significaria necessariamente o encerramento das tensões. Sem um acordo político minimamente estável, o cessar-fogo poderia apenas representar uma pausa antes de uma nova fase do conflito.

É justamente por isso que o diagnóstico de que a guerra está simultaneamente “intensificando, expandindo e estagnada” é particularmente significativo. A intensificação aparece no aumento dos ataques e no emprego de novas tecnologias; a expansão se manifesta na ampliação dos efeitos para além das linhas tradicionais de combate; e a estagnação está relacionada à dificuldade de qualquer dos lados transformar seus recursos militares em uma vitória capaz de encerrar o conflito.

O futuro da guerra dependerá, em grande medida, da capacidade de cada lado sustentar seus esforços militares e, principalmente, da disposição das potências externas em continuar apoiando seus respectivos objetivos. A Rússia aposta na sua capacidade de resistir às sanções, manter a produção militar e explorar sua vantagem de recursos. A Ucrânia depende da continuidade do apoio europeu e ocidental, da reposição de equipamentos e da capacidade de desenvolver novas tecnologias militares.

Nesse cenário, a possibilidade de uma paz negociada continua existindo, mas permanece distante de uma solução simples. O discurso de Putin mostra que Moscou não pretende negociar a partir de uma posição de fraqueza. A postura ucraniana, por sua vez, indica que Kiev não aceita transformar perdas territoriais em uma condição permanente sem garantias substanciais de segurança. Entre essas duas posições encontra-se uma comunidade internacional que deseja o fim da guerra, mas teme que um acordo mal formulado apenas prepare o terreno para um novo conflito.

A principal conclusão, portanto, é que a declaração de Putin não deve ser interpretada isoladamente como prova de que a Rússia está prestes a vencer ou de que a Ucrânia está prestes a ser derrotada. Ela é, antes, uma peça de uma disputa política e militar muito mais ampla. A guerra permanece aberta, custosa e imprevisível. A Rússia conserva capacidade ofensiva e continua reivindicando avanços; a Ucrânia mantém capacidade de resistência e amplia sua capacidade de atingir alvos russos; e a Europa se reorganiza em torno de uma nova percepção de segurança.

Paradoxalmente, a tentativa de Moscou de reafirmar sua influência pode ter contribuído para produzir uma Ucrânia mais integrada ao sistema europeu e uma Europa mais consciente de suas vulnerabilidades estratégicas. Essa é uma das principais conclusões da análise do The Conversation. Ao mesmo tempo, a avaliação do The Economist aponta para a possibilidade de um prolongado impasse como alternativa menos ruim diante da dificuldade de alcançar uma paz que não produza novos riscos.

Dessa forma, mais importante do que determinar quem “está vencendo” em determinado momento é compreender qual será o resultado político e estratégico de uma guerra que já modificou profundamente a Europa. A Rússia pode conquistar territórios, mas terá de lidar com os custos humanos, econômicos e diplomáticos de uma guerra prolongada. A Ucrânia pode resistir e fortalecer sua posição europeia, mas enfrentará enormes desafios de reconstrução e segurança. E o continente europeu terá de conviver com uma Rússia que continuará sendo uma potência relevante, ainda que sua posição e sua relação com o restante da Europa tenham sido profundamente alteradas pelo próprio conflito.

Em setembro de 2026, portanto, a guerra continua sem vencedor definitivo. O discurso de vitória de Putin convive com uma realidade de combates intensos, ataques de longa distância, pressão econômica, transformação tecnológica e impasse diplomático. O conflito iniciado com a invasão russa da Ucrânia não apenas redesenhou fronteiras e destruiu cidades: também está redesenhando as relações de poder na Europa e colocando em discussão o próprio futuro da segurança internacional.


Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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