Fabrício Menardi
Insiders estão apostando na guerra: Como os mercados de previsão estão se tornando uma ameaça à segurança nacional
No Polymarket, usuários podem apostar na ocorrência de ataques e cessar-fogos em conflitos armados ao redor do mundo.
Jornal Democrata, edição 1940 de 19 de setembro de 2026 Em abril, um militar dos Estados Unidos foi acusado de usarinformações confidenciais sobre o sequestro de Nicolás Maduro, ocorrido emjaneiro de 2026, para faturar impressionantes US$ 400.000 com apostas emmercados de previsão sobre o futuro da Venezuela, sua liderança e uma possívelintervenção norte-americana.
Promotores afirmam que o soldado, Gannon Ken Van Dyke,ajudou a planejar a operação militar e usou seu conhecimento privilegiado paralucrar com apostas consideradas altamente improváveis na época. Ele se declarouinocente, e o julgamento é esperado para o final deste ano.
O caso evidencia uma nova ameaça às informações de segurançaglobal.
Líderes militares e políticos fazem esforços extraordináriospara evitar que detalhes de tais operações vazem para o público. Quase todos ospaíses do mundo exigem um árduo processo de verificação de credenciais para aconcessão de credenciamento de segurança e protegem rigorosamente o acesso ainformações confidenciais.
No entanto, os mercados de previsão criam novos pesadelospara a segurança operacional. Qualquer pessoa com informações privilegiadas eacesso à internet pode apostar de forma anônima e obter um lucro substancial.Além disso, suas apostas são visíveis para todo o mundo, dando tanto a aliadosquanto a adversários um alerta potencial, mesmo que a informação subjacentenunca tenha sido divulgada publicamente.
Outros apostadores estão prontos para copiar usuários quepossuem vantagem informacional. Assim, uma única aposta baseada em informaçõesconfidenciais pode se transformar em um sinal ruidoso e visível de uma açãomilitar iminente para agências de inteligência em todo o mundo.
Mais alarmante ainda, a possibilidade de apostar na guerrapode incentivar a manipulação ou até mesmo a sabotagem de operações militarespara maximizar o lucro pessoal.

Esses riscos cresceram exponencialmente à medida que osmercados de previsão explodiram em popularidade nos últimos anos. O PewResearch Center — centro de pesquisa americano não partidário que fornece dadose análises sobre opinião pública, questões sociais e tendênciasdemográficas — estima que o volumemensal combinado de negociações nas duas maiores plataformas, Kalshi ePolymarket, atingiu US$ 24 bilhões em abril de 2026, ante US$ 2 bilhões emagosto de 2025.
Tornou-se mainstream. As plataformas de mercado de previsãopermitem que os usuários apostem em eventos do mundo real, desde esportes ecelebridades até eleições.
No Polymarket, existem inclusive mercados para a ocorrênciade ataques e cessar-fogos em conflitos armados pelo mundo. Os usuários negociamcontratos baseados no resultado de uma pergunta de “sim/não”, com preçosvariando entre US$ 0 e US$ 1 para refletir a probabilidade percebida de oevento ocorrer.
Quanto menor o preço, menor a probabilidade implícita.Quando o mercado é resolvido, os usuários que possuem um contrato para oresultado correto recebem US$ 1, com os lucros potenciais aumentando à medidaque a probabilidade implícita do evento cai. Vale a pena contrariar o consenso.
Os mercados de previsão antes ocupavam um nicho, em suamaioria limitados a experimentos acadêmicos. Mas desenvolvimentos legais eregulatórios recentes, o crescente investimento de Wall Street e o apoiopolítico da Casa Branca abriram as portas para uma adoção muito mais ampla.
Mercados sobre política são incrivelmente populares. Emboraos mercados políticos representem apenas 4% do total de perguntas nas quais osusuários do Polymarket podem apostar, eles atraem mais de um terço do dinheiro.
Até abril de 2026, os negociadores já apostaram quase US$ 20bilhões apenas nos mercados políticos do Polymarket. A eleição presidencial dosEUA em 2024 foi um momento divisor de águas para a indústria, com US$ 4 bilhõesapostados no Polymarket.
Apesar de as principais pesquisas indicarem uma derrota deTrump, os mercados de previsão previram corretamente a vitória republicana,aumentando a empolgação e ajudando a transformar a tecnologia de um hobby denicho em um passatempo popular.
Eleições e outros eventos decididos pelo público não são osúnicos resultados disponíveis para aposta. O Polymarket permite apostar emquestões cujos resultados determinados grupos, instituições e, em alguns casos,indivíduos podem saber com antecedência.
Isso inclui qual personalidade ganhará o Prêmio Nobel daPaz, qual filme vencerá o Oscar de Melhor Filme ou se os Estados Unidosatacarão o Irã este mês.
Uma pesquisa do Boletim dos Cientistas Atômicos*,Anti-Corruption Data Collective** apoia a teoria de que mercados com resultadosantecipadamente conhecíveis são mais suscetíveis ao uso de informaçãoprivilegiada.
Apostas de “azarões” — palpites de alto valor e baixaprobabilidade, nos quais o usuário arrisca US$ 2.500 ou mais em algo com menosde 35% de probabilidade — são mais bem-sucedidas nesses mercados, sugerindo ouso disseminado de vantagens informacionais.
Isso também não é um risco teórico.
Além do caso do militar americano acusado este ano, Israelindiciou dois membros de sua força aérea por apostarem em ataques militares.
Durante sua defesa, um dos aviadores teria dito que aprática é tão ubíqua que ele não percebeu que era ilegal, declarando aotribunal: “Toda a Força Aérea de Israel está envolvida em apostas.”
Um funcionário do Google também foi indiciado em maio porsupostamente negociar com base em informações confidenciais da empresa.
Até mesmo o responsável pelo teleprompter da Casa Branca foimultado recentemente em US$ 172.000 após admitir ter lucrado US$ 100.000fazendo apostas no Kalshi sobre o conteúdo dos discursos do presidente Trump.
Esses casos são provavelmente apenas a ponta de um icebergmuito maior.
Rastro visível
As negociações do Polymarket são registradas na blockchain.Isso significa que todos podem ver cada transação que já foi feita, bem como aorigem do dinheiro usado para financiar a aposta e para onde os lucros foramenviados depois.
A única coisa que as pessoas não sabem é quem opera a conta.
O Polymarket pode não saber também. Os usuários daplataforma principal não precisam comprovar sua identidade e podem criarmúltiplas contas, cada uma com sua própria “carteira” digital.
O Polymarket também opera uma entidade licenciada muitomenor nos EUA — o Polymarket US — que exige que os usuários se registrem comsua identidade real, assim como faz o Kalshi.
Mas a maior parte das apostas em operações militares ocorrena plataforma principal do Polymarket, que não realiza verificações de ConheçaSeu Cliente.
Analisando mais de 400.000 mercados liquidados noPolymarket, a pesquisa descobriu que, em vez de incidentes isolados, apostassuspeitas são especialmente frequentes em mercados militares.
Alinhadas com as expectativas, apostas de alto valor earriscadas, com probabilidade implícita inferior a 35%, pagam apenas 14% dasvezes na plataforma. Mas, em mercados de defesa e militares, a taxa de vitóriasobe para impressionantes 52%.
Analisando as carteiras digitais que fazem essas apostasimprováveis, a pesquisa encontrou um grupo alarmante de usuários que negociavamapenas sobre um ou dois tópicos, mas venciam a taxas anormalmente altas.
Apelidados de “Orcas”, em referência aos predadoresaltamente especializados e bem-sucedidos que eles lembram, esses usuáriosgeralmente abrem contas poucos dias ou até horas antes de fazerem sua primeiraaposta arriscada.
A maioria só faz apostas de alto risco e baixaprobabilidade. Em mercados militares, foram identificadas 152 dessas Orcas, quejuntas faturaram mais de US$ 8 milhões na plataforma. A taxa média de vitóriadelas foi, de forma reveladora, superior a 97% em apostas tão arriscadas.
É difícil atribuir tais sucessos apenas à sorte,especialmente quando os mercados dizem respeito a eventos conhecidos por poucose ignorados pelo público.
Quando jornalistas da CNN apresentaram os dados da análiseao Polymarket, representantes da plataforma de apostas indicaram que a empresahavia encaminhado “dezenas” dessas carteiras ao Departamento de Justiça dos EUAe que investigações criminais estão em andamento.
Em agosto, o The Wall Street Journal informou que oDepartamento de Justiça está investigando e se preparando para denunciar outrosoldado americano por uso de informação privilegiada sobre dados confidenciais,como parte de uma onda dessas acusações.
Um funcionário da empresa britânica de contabilidade econsultoria KPMG também é suspeito de apostar usando informações não públicaspara obter vantagem.
Embora o Polymarket rastreie e encaminhe esses casos àsautoridades, sua resposta parece confirmar a escala do potencial insidertrading em mercados militares — os quais a empresa continua permitindo em suaplataforma.
Investigações policiais levam tempo. Na ausência deidentidades reais confiavelmente conectadas às carteiras, os investigadoresprecisam rastrear o dinheiro através da blockchain, esperando que ele tenhapassado por uma corretora de criptomoedas regulamentada que possa revelar quemé o usuário.
Enquanto isso, esses indícios de uso de informaçãoprivilegiada ficam visíveis em tempo real para qualquer pessoa que observe arede, o que permite que não apenas pesquisadores de interesse público ejornalistas vejam transações suspeitas, mas também outros apostadores.
Analisando o padrão de apostas sobre ataques militares dosEUA contra o Irã, os pesquisadores encontraram sinais de que as apostas feitaspor carteiras “Orca” — ou seja, potenciais insiders — são copiadas porsuperusuários dos mercados de previsão.
Esses grandes negociadores, chamados de “Baleias”, fazemapostas em mais de 100 mercados e múltiplos tópicos, diversificando seus riscosna plataforma.
Contas de negociação automatizadas e movidas por algoritmostambém captam esses sinais de insiders. Na verdade, investidores sérios podematé assinar serviços que enviam alertas sobre possíveis atividadesprivilegiadas para que possam imitá-las em busca de um grande lucro.
Isso significa que uma aposta baseada em informaçõessecretas ou sensíveis pode não apenas ser vista, mas também amplificada.
Antes dos ataques judaico-americanos contra o Irã em junhode 2025 e 2026, foram identificados padrões de apostas arriscadas sendo feitaspor “Orcas” em resultados altamente específicos relacionados ao conflito, como:“Ação militar dos EUA contra o Irã até sábado?” ou “O próximo ataque dos EUA aoIrã será em 28 de fevereiro de 2026?”.
Pouco depois, contas “Baleia”, com muito mais capital àdisposição, fizeram apostas muito maiores, parecendo seguir a trilha deixadapor usuários que aparentavam saber algo que os outros não sabiam.
Alertando agências de inteligência
Se especuladores financeiros podem ver essas negociaçõesacontecendo em tempo real, pode-se prever com segurança que agências deinteligência ao redor do mundo também podem.
Em combinação com outras fontes, esses pontos de dados podemse tornar um aviso notavelmente preciso sobre o momento e o alvo de açõesmilitares.
Um adversário estrangeiro que queira obter informaçõesconfidenciais não precisa mais organizar um suborno ou mesmo invadir um sistemafechado. Tudo o que precisa fazer é monitorar os mercados de previsão em buscade apostas anômalas.
Ter uma operação militar ultrassecreta frustrada porque uminsider militar apostou nela não seria apenas enormemente embaraçoso; tambémcriaria um risco desnecessário à vida e seria um desastre para as relaçõesinternacionais.
Se aliados suspeitarem que pistas sobre informaçõesconfidenciais podem aparecer na blockchain, isso poderá colocar em riscorelações delicadas de compartilhamento de inteligência construídas ao longo dedécadas.
Talvez ainda mais perturbador, mercados sobre aprobabilidade de resultados militares podem criar um incentivo perverso pararealizar, adiar, antecipar ou até mesmo sabotar uma operação militar em prol dolucro pessoal.
Até o momento, não há sinais visíveis de que isso tenhaacontecido. Mas a mera existência de mercados que permitem apostar na guerracria essa possibilidade.
Atualmente, existem mais de 450 mercados abertos noPolymarket sobre questões relacionadas à defesa e a assuntos militares.
Todos, desde reguladores e legisladores até o público e aspróprias empresas, deveriam rejeitar apostas na guerra antes que algoanteriormente impensável aconteça.
O próximo projeto de lei de financiamento militar dos EUAcontém uma cláusula que, se aprovada, proibirá os americanos de fazerem,aceitarem ou facilitarem apostas em guerras.
No entanto, aplicar tal proibição quando as apostas sãofeitas anonimamente em uma plataforma offshore testará a capacidade dasautoridades legais dos EUA.
Não basta apenas proibir o insider trading ou exigir umaidentificação mais robusta dos apostadores. Coletivamente, as pessoas precisamdecidir se existem certos tópicos sobre os quais não se deve apostar.
A segurança nacional deve vir antes do lucro pessoal.
* O Boletim de Cientistas Atômicos é uma revista acadêmicabimestral, publicada por uma organização de mesmo nome. O Boletim é umaentidade sem fins lucrativos voltada para questões relacionadas à ciência e àsegurança global decorrentes dos avanços tecnológicos acelerados que podemtrazer consequências negativas para a humanidade.
A organização publica conteúdo tanto em seu site, de acessogratuito, quanto por meio da revista. Mantém suas atividades continuamentedesde 1945, quando foi fundada por antigos cientistas do Projeto Manhattan,logo após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, com o nome deBoletim de Cientistas Atômicos de Chicago.
A organização também é responsável pela manutenção dosimbólico Relógio do Juízo Final, cujo horário é anunciado anualmente, sempreem janeiro.
** https://acdatacollective.org



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