Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

SOMOS RESPONSÁVEIS PELO REINO


SOMOS RESPONSÁVEIS PELO REINO Jornal Democrata, edição 1941 de 26 de setembro de 2026

Somos responsáveis pelo Reino. Deusnos escolhe, chama e espera de nós uma resposta sincera. Esse chamado épessoal, pois Ele nos conhece profundamente e destina cada um de nós à missãode, como filhos e filhas, ser sinal vivo do Reino no mundo. Neste 26° Domingodo Tempo Comum, reconhecemos que, se fomos chamados, precisamos assumir a nossamissão com prontidão, sem nos esquivarmos do serviço. O alicerce da nossacaminhada cristã é o próprio Jesus, que nos aponta a via do despojamento e dacomunhão espiritual. Não percamos tempo, nem desperdicemos a graça de cooperarcom a obra divina. Deus é o Pai amoroso que nos envia à vinha para trabalhar erecolher os frutos. A nossa resposta não deve se limitar a aparências, contudo,deve ser autêntica, sincera e corajosa.

A primeira leitura, do livro doprofeta Ezequiel, convoca-nos à responsabilidade individual. O Exílio naBabilônia foi um marco decisivo para Israel, não apenas no plano histórico, mascultural e espiritualmente. A mensagem proclamada representa o que os exegetasidentificam como um profundo amadurecimento teológico para a fé bíblica. Atéentão, prevalecia a ideia de que as culpas dos antepassados recaíam sobre asgerações seguintes, levando o povo — já exilado há mais de cinco décadas — acrer que sofria injustamente por faltas alheias. Ezequiel adverte contra atentação de terceirizar culpas, lembrando que todos têm a sua parcela deresponsabilidade, visto que cada ser humano é pecador. Cabe, portanto, a cadaum reconhecer as próprias faltas e, pelo arrependimento sincero, renovar suaaliança pessoal com Deus.

É tempo de acolher os deveres que noscompetem. Um sinal evidente de apatia espiritual manifesta-se quando a vida seresume a queixas voltadas sempre contra o próximo. Quem se limita a criticar ea buscar culpados fecha os olhos para si mesmo e, de coração endurecido,renuncia à própria vocação. Frequentemente, essa atitude nasce da acídia; apreguiça da alma. A tradição espiritual ensina-nos que a acídia é um malcorrosivo, pois adormece a vontade e sufoca o vigor interior. Pelo contrário:em nossas comunidades, na família e no trabalho, somos chamados a um papelativo. Como recorda São Paulo a Timóteo (cf. 2Tm 1,7), Deus não nos concedeu umespírito de covardia, mas de força, de amor e de sobriedade. O nossocompromisso batismal só floresce quando encarnado no cotidiano: primeiro poruma conversão interior — a metanoia, transformação profunda da mente edo coração —, e, em seguida, pelo serviço generoso e pela partilha da fé com osirmãos. Não permitamos que a inércia e a lamentação nos afastem do agir diligenteem favor do Reino de Deus.

No Evangelho, o apelo a uma féresponsável continua ressoando. O cenário apresenta Jesus a caminho deJerusalém para consumar sua entrega na cruz. A oposição ao Mestreintensifica-se entre as autoridades religiosas, que se sentem confrontadas porsua presença e autoridade. Diante disso, o Senhor inicia uma série de diálogose advertências dirigidas às lideranças judaicas, estendendo-se por este e pelospróximos dois domingos por meio de parábolas dirigidas aos fariseus, aosdiscípulos e a cada um de nós. A primeira é a de hoje, sobre os dois filhosenviados pelo pai à vinha; a segunda tratará dos vinhateiros homicidas; e aterceira apresentará o banquete nupcial. Com essa trilogia, Jesus evidenciacomo os líderes do povo eleito rejeitaram os sinais divinos, os profetas e opróprio Filho enviado, esquivando-se da sua vocação, enquanto os marginalizadose pagãos acolheram com docilidade a mensagem da salvação.

Na parábola de hoje, confrontamo-noscom duas atitudes: o filho que diz "sim", mas não vai, e aquele queinicialmente recusa, mas, tocado pelo arrependimento, cumpre a ordem paterna.Conforme reconhecem os próprios sacerdotes e anciãos, foi o segundo quemrealizou a vontade do pai. O primeiro filho simboliza aqueles que sustentam umafé apenas de palavras e aparências, mas recusam o compromisso prático com aaliança divina. Já o filho que volta atrás representa todos os que, mesmo tendovivido afastados da lei ou fragilizados pelo erro, abrem o coração à graça edeixam-se transformar pelo Evangelho.

Com frequência, a sociedadecontemporânea reproduz a postura do primeiro filho: cultiva aparências,multiplica discursos e expressa boas intenções, mas recua no momento de assumircompromissos reais. As dinâmicas digitais e a fragilidade dos vínculos humanosrevelam indivíduos dispersos, com dificuldade de encontrar propósito duradouro.Multiplicam-se opinadores, mas escasseiam os peregrinos de esperança. Comocristãos, o nosso testemunho deve nascer da vivência concreta das virtudes: afé obediente e filial aos ensinamentos da Igreja; a esperança ativa, queilumina as incertezas do nosso tempo; e a caridade operosa, voltada de modoespecial aos mais frágeis. Pelo batismo, somos chamados a unir contemplação eserviço, fazendo com que a oração constante e a ação diligente caminhem semprejuntas.

A Carta aos Filipenses oferece-nos achave para essa conduta. Filipos era uma cidade próspera e estratégica noImpério Romano, e sua comunidade, embora generosa, corria o risco da vanglóriae da busca por prestígio pessoal. O apóstolo exorta os fiéis a abandonaremqualquer sentimento de arrogância para acolherem em si os mesmos sentimentos deCristo Jesus. Quem se apoia no orgulho costuma ser severo com os demais; aPalavra, no entanto, nos devolve à nossa responsabilidade primeira: não vigiarcomo o irmão deve agir, mas examinar com retidão o próprio proceder diante deDeus.

O caminho para essa maturidade écantado no célebre hino cristológico da carta: Cristo, embora sendo de condiçãodivina, não usurpou o ser igual a Deus, mas esvaziou-se a Si mesmo, assumindo acondição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Humilhou-se e fez-seobediente até a morte, e morte de cruz. A kenosis — o despojamento doEterno que se inclina sobre a nossa fragilidade — é a via mestra do discípulo.Só nos tornaremos autênticos cooperadores do Reino se percorrermos essa mesmaestrada: desarmar o egoísmo, renunciar às vaidades e abraçar a fidelidade dacruz. Essa é a resposta libertadora que o Evangelho oferece ao mundo: agrandeza da humildade, a força da coerência e o peso sagrado daresponsabilidade cristã.

Somos, em definitivo, ostrabalhadores chamados a entrar na vinha hoje. A responsabilidade pelo Reinonão é um fardo imposto pelo medo, mas uma resposta livre e grata ao Deus quenos amou primeiro. Diante do Senhor, caem por terra as justificativas fáceis,as acusações mútuas e as promessas não cumpridas. Cabe a nós, com coragem ediscernimento, transformar as palavras do nosso batismo em obras de justiça,perdão e caridade. Que cada um assuma o seu lugar na edificação da Igreja e dasociedade, certos de que a fidelidade à nossa vocação pessoal é a semente maisfecunda para fazer brotar, no meio de nós, a verdadeira paz de Cristo.

 

OraniJoão, Cardeal Tempesta, O. Cist.

ArcebispoMetropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

          



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