Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

A misericórdia divina!


A misericórdia divina! Jornal Democrata, edição 1926 de 7 de junho de 2026

Reunidos em comunidade, quer em nossas vibrantes paróquias e capelas espalhadas por toda a nossa metrópole, quer acompanhando esta reflexão pelos meios de comunicação, somos todos convidados a nos sentarmos à mesa com o Senhor. A liturgia da Palavra que a Santa Mãe Igreja nos oferece neste domingo é um verdadeiro bálsamo para as nossas almas e, ao mesmo tempo, um poderoso questionamento para as nossas atitudes diárias. O tema central que perpassa todas as leituras de hoje é o mistério insondável da misericórdia divina, um amor que não se detém diante das nossas misérias, mas que vem ao nosso encontro para nos resgatar, curar e elevar. Neste dia, somos chamados a compreender que a lógica de Deus é infinitamente superior à lógica dos homens, e que o Seu olhar não se fixa nos nossos pecados do passado, mas na nossa capacidade de amar e recomeçar a partir da Sua graça.

No Evangelho proclamado hoje, extraído de São Mateus, no capítulo nove (Mt 9,9-13), deparamo-nos com uma das cenas mais belas e revolucionárias de toda a Sagrada Escritura: a vocação do próprio evangelista. Mateus nos relata o momento em que a sua vida foi irrevogavelmente transformada pelo olhar de Cristo. Ele era um publicano, um cobrador de impostos. Naquela época, os publicanos eram considerados os piores dos pecadores, pois trabalhavam para o Império Romano, a potência dominadora, cobrando taxas extorsivas dos seus próprios irmãos judeus. Eram vistos como traidores da pátria, impuros, pessoas com as quais um judeu religioso jamais deveria se misturar, muito menos sentar-se à mesa. Mateus estava ali, sentado na coletoria de impostos, imerso nas suas moedas, na sua corrupção e no desprezo público. Mas Jesus passa por ele. O Senhor não desvia o olhar com nojo, não profere palavras de condenação moral, nem exige que Mateus faça um longo processo de purificação antes de se aproximar. Jesus simplesmente o olha com um amor que restitui a dignidade perdida e lhe dirige duas palavras que mudam a história daquele homem: “Segue-me”. E o Evangelho, de forma seca e direta, nos diz que “ele se levantou e seguiu a Jesus”. Meus caríssimos irmãos, que força extraordinária tem a Palavra do Senhor! Ela é capaz de arrancar um homem da lama do egoísmo e transformá-lo num grande apóstolo e evangelista.

A alegria de Mateus por ter sido alcançado por essa misericórdia gratuita foi tão grande que ele decidiu oferecer um banquete em sua casa para Jesus e seus discípulos. E quem foram os convidados para essa festa? Os amigos de Mateus, ou seja, outros cobradores de impostos e pessoas de má fama. Jesus, o Mestre, senta-se à mesa com os marginalizados, com os impuros, com aqueles que a sociedade religiosa da época considerava “casos perdidos”. Sentar-se à mesa, na cultura oriental, era um sinal de profunda comunhão, de aliança e de amizade. Ao fazer isso, Jesus provoca um verdadeiro escândalo entre os fariseus, os homens que se consideravam puros e justos. Eles murmuram e questionam os discípulos: “Por que o vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”. É então que Jesus profere aquela resposta que deve ressoar constantemente nos nossos ouvidos e nos nossos corações: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Ide, pois, aprender o que significa: ‘Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício’. Com efeito, eu não vim chamar justos, mas pecadores”. O nosso Deus, meus irmãos, é o Médico das almas. A Igreja, como tão bem nos tem recordado o saudoso Papa Francisco, não é um museu de santos ou uma alfândega onde cobramos pedágios de perfeição, mas um verdadeiro “hospital de campanha”, de portas abertas para acolher, medicar e curar os feridos da vida.

A resposta de Jesus aos fariseus faz uma ligação direta com a nossa primeira leitura de hoje, retirada do profeta Oseias, no capítulo seis (Os 6,3-6). O Senhor, por meio do profeta, já advertia o povo de Israel no Antigo Testamento sobre o perigo de uma religiosidade vazia e hipócrita. Deus diz de forma clara: “Quero misericórdia e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. O que o Senhor estava criticando não eram os ritos em si, que faziam parte da aliança, mas a atitude de um povo que oferecia animais no templo, cumpria as rubricas litúrgicas, mas mantinha o coração endurecido, explorava o pobre, praticava a injustiça e não tinha compaixão do próximo. Esse mesmo alerta de Oseias vale para nós, católicos, em pleno século vinte e um. A verdadeira adoração que agrada a Deus é aquela que se traduz em obras concretas de amor e de misericórdia. O Salmo Responsorial número quarenta e nove (Sl 49/50) nos confirma esta verdade, quando aclamamos: “A quem procede retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus”. A retidão que Deus espera de nós é a prática incansável do bem.

Para vivermos esta vocação à misericórdia, precisamos de uma fé robusta, uma fé que não se abale diante das dificuldades e das contradições do mundo. É exatamente sobre esta fé que o Apóstolo São Paulo nos fala na segunda leitura, extraída da sua Carta aos Romanos, no capítulo quatro (Rm 4,18-25). Paulo nos apresenta a figura luminosa do patriarca Abraão, o nosso pai na fé. A Palavra nos diz que Abraão, “esperando contra toda a esperança, creu e tornou-se pai de muitas nações”. Quando Deus lhe prometeu uma descendência numerosa, Abraão já era velho, assim como sua esposa Sara. Aos olhos humanos, a promessa era impossível de se realizar. A morte já parecia ter marcado a carne de ambos. No entanto, ele não vacilou, mas deu glória a Deus, tendo a plena convicção de que o Senhor era poderoso para cumprir o que havia prometido. Foi essa fé inabalável que lhe foi creditada como justiça. Em meio aos grandes desafios que enfrentamos em nossa cidade — a violência que rouba vidas inocentes, a insegurança que nos aprisiona, a desestruturação das famílias e tantas vezes o cansaço diante de promessas vazias —, nós somos chamados a ter a fé de Abraão. Precisamos “esperar contra toda a esperança”, acreditando firmemente que o amor de Cristo, que ressuscitou dos mortos para a nossa justificação, tem o poder de transformar os cenários de morte em vida nova. A fé cristã não é um otimismo ingênuo, mas a certeza de que Deus conduz a história e de que a última palavra sempre será a da Sua graça.

Neste décimo domingo do Tempo Comum, o convite que o Senhor nos faz é pessoal e intransferível. Olhemos para o fundo dos nossos corações: onde está a nossa “coletoria de impostos”? Quais são os apegos, os preconceitos e os pecados que nos mantêm paralisados? Deixemos que o olhar amoroso e misericordioso de Jesus cruze com o nosso. Escutemos a Sua voz doce e firme dizendo a cada um de nós: “Segue-me”. Não tenhamos medo de levantar, de deixar as velhas amarras para trás e de nos sentarmos à mesa com Ele. E, ao mesmo tempo, peçamos a graça de ter o mesmo coração do Mestre no trato com os nossos semelhantes. Que em nossas comunidades paroquiais nunca haja espaço para a murmuração farisaica, para a exclusão ou para o dedo em riste que aponta o erro do outro sem oferecer a mão para levantá-lo. Sejamos, antes, promotores da reconciliação, construtores de pontes, verdadeiros missionários de uma Igreja em saída, que vai ao encontro dos pecadores para lhes anunciar a alegria do Evangelho. O verdadeiro cristão é aquele que, tendo experimentado a misericórdia, torna-se misericordioso.

Que a Eucaristia, o pão dos fortes e o remédio dos enfermos, nos alimente e nos dê a coragem necessária para vivermos este chamado. Confiemos todos os nossos propósitos, as nossas dores e as esperanças do nosso povo ao Imaculado Coração da Virgem Maria, Nossa Senhora da Penha, padroeira de tantas comunidades que do alto de sua Basílica vela por nossa metrópole, e à intercessão do nosso glorioso padroeiro, São Sebastião. Que eles nos ajudem a sermos discípulos autênticos do Cristo compassivo, testemunhas corajosas do Seu amor no meio do mundo. Que a graça infinita do Deus que nos chama, a misericórdia do Filho que nos salva e a comunhão do Espírito Santo que nos santifica estejam sempre convosco. 


Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




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