Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
4º Domingo da Páscoa
“O Senhor é o pastor que me conduz, para as águas repousantes me encaminha”. (Sl 22/23)
Jornal Democrata edição 1920 de 25 de abril de 2026 Celebramos neste domingo o quarto do Tempo da Páscoa, conhecido como o Domingo do “Bom Pastor”. Pouco a pouco vamos avançando no tempo pascal, que vai até Pentecostes, e acompanhamos Jesus Ressuscitado aparecendo aos apóstolos até voltar definitivamente para a casa do Pai. É um tempo de grande alegria, pois Cristo ressuscitou, ainda que, em todos os domingos, recordemos a Páscoa semanal do Senhor.
A Páscoa está no centro do calendário cristão: é a festa mais importante. Ao mesmo tempo que nos coloca diante do mistério da morte, também nos coloca diante do mistério da Ressurreição; ou seja, a morte não tem a última palavra: a vida vence a morte.
A partir da celebração da Páscoa, nutrimos em nós um espírito maior de pertencimento a uma comunidade. Todas as vezes que o Cristo Ressuscitado aparece, Ele deseja a paz, que é a marca do Ressuscitado. Nós devemos acolher essa paz e estar em paz com Deus e em comunhão com a comunidade. Do mesmo modo que Ele envia os discípulos em missão, Ele também nos envia, e podemos anunciar o Evangelho uns aos outros.
O quarto Domingo da Páscoa é conhecido como o Domingo do Bom Pastor, conforme já dissemos, e todos são convidados a rezar pelas vocações sacerdotais e religiosas. Neste domingo celebramos o 63º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. O sacerdote e os religiosos, de maneira geral, devem ser, à semelhança de Cristo, bons pastores, indo atrás das ovelhas perdidas. A Igreja precisa ser, como nos dizia o saudoso Papa Francisco, uma “Igreja em saída”, ou estar em estado permanente de missão, não esperando que os fiéis procurem a Igreja, mas indo ao encontro deles.
Peçamos ao Espírito Santo que renove a Igreja e que os religiosos nunca se esqueçam de sua missão de serem construtores do Reino de Deus. Rezemos para que não faltem pessoas dispostas a abraçar a missão de anunciar a Boa-Nova. Que os jovens de hoje tenham coragem de se doar por amor a Jesus Cristo e à causa do Reino.
Peçamos ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe, pois a messe é grande e os operários são poucos. Não podem faltar sacerdotes para consagrar o pão e o vinho e para perdoar os pecados do povo; igualmente, não podem faltar religiosos e religiosas para a missão de anunciar a Boa-Nova.
A primeira leitura da missa deste domingo é do livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,14a.36-41). No dia de Pentecostes, ou seja, cinquenta dias após a ressurreição de Jesus, cheio do Espírito Santo, Pedro, de pé, como líder dos Onze, proclama a todo o povo que Jesus Cristo é o Senhor e que Deus o constituiu Senhor e Cristo. A multidão ficou aflita com as palavras de Pedro e começou a perguntar aos apóstolos o que deveria fazer. Pedro responde: “Convertei-vos, e cada um seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”. Certamente, pela ação do Espírito Santo, essas pessoas aceitaram a pregação de Pedro e se converteram.
É por meio do Espírito Santo que, a cada dia, surgem novos fiéis para a Igreja e que ela se renova continuamente. Preparemo-nos para a celebração de Pentecostes e peçamos ao Espírito Santo que faça surgir um novo tempo na vida da Igreja e que tenhamos bons pastores, corajosos e dispostos a anunciar o Reino.
O salmo responsorial é o 22 (23): “O Senhor é o pastor que me conduz; para as águas repousantes me encaminha”. Devemos ter a certeza, em nosso coração, de que o Senhor caminha conosco: Ele nos conhece pelo nome e nos toma pela mão. O Senhor é o Bom Pastor que cuida de nós; não é mercenário nem ladrão. Desde o nosso batismo, Ele nos conhece pelo nome e nos chama constantemente para perto d’Ele.
A segunda leitura da missa deste domingo é da Primeira Carta de São Pedro (1Pd 2,20b-25). Pedro diz que, à semelhança de Cristo, devemos suportar com paciência as adversidades que nos acontecem. Se formos acusados injustamente, devemos colocar a nossa esperança no Senhor, que é o justo juiz e nos julgará de acordo com a nossa conduta. Jesus morreu na cruz em reparação dos nossos pecados, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça. Antes andávamos como ovelhas desgarradas, mas agora temos um Bom Pastor que cuida de nós.
O Evangelho deste domingo é de João (Jo 10,1-10). Nele, Jesus se dirige à multidão e ensina como deve ser a atitude de um bom pastor. No tempo de Jesus, existiam “maus” pastores, que deixavam as ovelhas se dispersarem, e também pastores ladrões e mercenários, que roubavam ovelhas de outros rebanhos ou buscavam apenas lucro.
Jesus se apresenta de modo diferente. Ele vai na contramão da mentalidade da época e revela qual deve ser a verdadeira atitude do pastor: cuidado e carinho com as ovelhas, conhecendo cada uma pelo nome, cuidando das feridas e das doentes, carregando-as nos ombros. As ovelhas não devem ser vistas como fonte de lucro, mas como vidas a serem cuidadas.
Trazendo para a nossa realidade, as ovelhas são todo o povo de Deus, e os pastores são os sacerdotes e religiosos. Os bons pastores são aqueles que conhecem suas ovelhas, que vão ao encontro delas e não ficam esperando que elas venham. O bom pastor cuida, educa e dá atenção; sempre encontra tempo para suas ovelhas.
Muitas vezes, as ovelhas se dispersam porque não encontram o cuidado e a atenção do pastor. Peçamos a Deus que os pastores sejam mais atentos e próximos de suas ovelhas, para que elas não precisem buscar em outros rebanhos o cuidado que deveriam encontrar na Igreja.
Celebremos com alegria este quarto Domingo da Páscoa e peçamos ao Senhor que nunca faltem operários para a sua messe. Que façamos parte de seu rebanho para sempre, deixando que Ele conduza os nossos caminhos. Rezemos por nossos bispos, padres, diáconos, seminaristas, religiosos e religiosas, para que sejam, a exemplo de Jesus, bons pastores para a comunidade.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



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