Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

5º Domingo do Tempo de Páscoa


5º Domingo do Tempo de Páscoa Jornal Democrata, edição 1921 de 3 de maio de 2026

A Liturgia da Palavra deste Quinto Domingo da Páscoa confronta a nossa fé com a afirmação mais radical, absoluta e inegociável de toda a Sagrada Escritura. No Evangelho de São João – Jo 14,1-12 –, horas antes de enfrentar o horror do Calvário, Jesus Cristo olha nos olhos dos apóstolos perplexos e declara: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6).

O Filho de Deus não apresenta uma filosofia reconfortante. Ele não sugere um código de ética alternativo. Ele não propõe um sistema religioso igualitário entre as tradições do mundo. Cristo anuncia a Si mesmo como a única ponte possível e definitiva entre a humanidade decaída e a eternidade. A modernidade odeia a exclusividade dessa afirmação. A cultura contemporânea abraça o relativismo, transforma a verdade em uma preferência pessoal, idolatra o ego e reduz o Evangelho a um manual barato de autoajuda.

A Verdade possui rosto, nome, biografia e cicatrizes. A Verdade cravou Suas mãos na madeira da cruz, desceu à mansão dos mortos e ressuscitou triunfante no terceiro dia. Jesus Cristo não indica o caminho; Ele é a própria estrada. Ele não ensina verdades fragmentadas; Ele personifica a Verdade absoluta. Quem procura atalhos fora de Cristo encontra, inevitavelmente, a frustração e o abismo. A vida edificada fora desse Caminho gera a morte espiritual do indivíduo e a desintegração moral de toda a sociedade.

O Apóstolo Pedro, na segunda leitura – 1Pd 2,4-9 –, traduz as consequências práticas e imediatas dessa adesão a Cristo. Ele define os batizados como “pedras vivas” (1Pd 2, 4) utilizadas na construção de um edifício espiritual imbatível. O mundo secular descarta e rejeita Cristo, julgando-o inútil para os seus projetos de poder, mas Deus Pai O estabeleceu como a pedra angular de toda a criação. O Apóstolo extrai uma consequência lógica: o cristão autêntico recusa a inércia e repudia a covardia.

A consagração batismal exige que cada católico santifique o seu próprio lar, purifique o seu ambiente de trabalho e injete o Evangelho nas veias da sociedade. Uma pedra viva não apodrece na passividade dos bancos da igreja. Ela defende a fé no debate público. Ela sustenta a moralidade cristã no seio da família. A frouxidão espiritual destrói a Igreja por dentro muito mais rápido do que as perseguições externas.

O livro dos Atos dos Apóstolos – At 6,1-7 – evidencia exatamente como a Igreja primitiva traduziu essa robustez espiritual em ação concreta e administrativa. A primeira comunidade cristã cresceu rapidamente e, com ela, surgiu a primeira crise interna: a desigualdade na distribuição dos alimentos e o abandono das viúvas de origem grega (At 6, 1-7). Diante do problema real, os apóstolos não recuaram. 

Sob a inspiração do Espírito Santo, os Doze instituíram a ordem dos diáconos. Eles escolheram sete homens de reputação ilibada, cheios do Espírito e de sabedoria, para assumir o serviço material e garantir a assistência aos mais vulneráveis. O texto sagrado ensina uma lição perene: a caridade cristã exige organização, competência e pulso firme. A Igreja ora, prega a Palavra e socorre o pobre com a mesma intensidade e eficácia.

O Magistério vivo da Igreja ecoa essa mesma urgência hoje. O Papa Leão XIV, na condução lúcida e corajosa da Barca de Pedro, exige clareza doutrinal e ação missionária implacável. O atual Sumo Pontífice alerta constantemente sobre o perigo de transformar as nossas paróquias em museus de conservação de tradições mortas ou em ONGs esvaziadas do sobrenatural. 

Este tempo pascal cobra de cada um de nós uma postura heroica. Rejeite os falsos caminhos e as ideologias passageiras que a política, a mídia e os formadores de opinião tentam lhe impor. Edifiquemos a casa, o casamento e a criação dos filhos sobre a rocha indestrutível do Evangelho. 

Que a Virgem Maria, a primeira e mais perfeita pedra viva deste santuário que é a Igreja, sustente a nossa coragem. Que Ela, que carregou o Caminho, a Verdade e a Vida em seu ventre puríssimo, guie os nossos passos rumo à pátria definitiva.


Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




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