A transformação pedagógica que renova a educação infantil

Conhecendo São José do Rio Pardo por quem constrói sua história.

Jornal Democrata, edição 1937 de 29 de agosto de 2026
A transformação pedagógica que renova a educação infantil Ana Carolina / Redes sociais

Em entrevista exclusiva, a pedagoga e psicopedagoga Ana Carolina Leite Ribeiro defende que a empatia, a escuta ativa e o suporte familiar são as chaves para converter dificuldades escolares em possibilidades de desenvolvimento.

A formação dos primeiros anos de vida constitui a etapa mais decisiva do desenvolvimento humano. No entanto, os desafios cotidianos da rede pública — marcados por contextos de vulnerabilidade social e pela crescente necessidade de inclusão de crianças neurodivergentes — exigem da gestão escolar muito mais do que domínio técnico: demandam sensibilidade e uma postura atenta às individualidades de cada aluno.


À frente da EMEB Alice Vilela, no Vale do Redentor, a pedagoga e psicopedagoga Ana Carolina Leite Ribeiro tem se destacado pela implementação de uma abordagem que coloca a empatia e o afeto como eixos centrais do trabalho docente. 

Ana Carolina fala de seu ofício com um notável entusiasmo e com expessões faciais marcantes que denotam, sem sombra de dúvida, o amor pela profissão e o carinho pelas pessoas, cada vida que toca com seu trabalho transformador.

Com pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista (TEA) e psicopedagogia clínica e institucional, além de facilitadora do programa de educação parental “Encorajando Pais”, Ana Carolina sintetiza sua filosofia de ensino no conceito de "o olhar que acolhe".

Para a educadora, a verdadeira inovação na educação infantil não nasce de fórmulas prontas, mas da capacidade de o professor mudar a sua perspectiva diante dos comportamentos desafiadores. 

O trabalho desenvolvido pela Ana Carolina é algo que precisa ser conhecido pelos rio-pardenses. Ela faz parte de uma transformação na educação municipal em várias frentes. E todas elas dependem, diretamente, do “olhar acolhedor” daquelas que vão lidar com crianças especiais e suas famílias.

Ao lado da parceira profissional Danila Calegari, Ana Carolina também prepara a inauguração da clínica “Descomplika Psicopedagogia”, voltada ao diagnóstico funcional, intervenção cognitiva e orientação familiar.

Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao DEMOCRATA

DEMOCRATA: Sua apresentação recente para educadores teve como tema "O olhar que acolhe". Na prática, como essa mudança de perspectiva transforma a rotina da educação infantil?

Ana Carolina Ribeiro: A base desse trabalho é entender que a dificuldade da criança muitas vezes não vai mudar de imediato, mas quando o professor muda a forma de enxergar aquele aluno, ele passa a ver possibilidades onde antes só via obstáculos. É muito fácil olhar para uma criança atípica ou para uma família em situação difícil e emitir um julgamento prévio. O nosso papel, antes de qualquer coisa, é o acolhimento e a empatia. Na infância, pequenos gestos fazem toda a diferença: abaixar na altura dos olhos da criança, escutar o que ela tem a dizer, validar o sentimento dela quando está frustrada ou com raiva e oferecer um abraço. Esse ambiente seguro permite que ela viva a infância plenamente durante o tempo em que está na escola.


DEMOCRATA: Na EMEB Alice Vilela, a senhora atende dezenas de crianças, muitas delas vindas de realidades sociais complexas. Como orientar a equipe escolar diante desse cenário?

Ana Carolina Ribeiro: Orientei minha equipe a manter sempre esse olhar acolhedor antes de qualquer julgamento. Lidamos com realidades duras e vivências familiares pesadas, mas dentro da escola precisamos garantir um espaço de acolhimento e proteção. As marcas deixadas na infância nos acompanham por toda a vida; adultos que hoje são difíceis frequentemente trazem feridas e carências da própria infância. Por isso, ser um ponto de segurança e afeto no cotidiano dessas crianças é um trabalho indispensável. O retorno que recebemos — a pureza, o abraço espontâneo no corredor, a florzinha colhida no caminho da escola — é o que recarrega as nossas energias.


DEMOCRATA: O acolhimento aos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem gerado amplos debates na educação. Qual é o papel correto da escola nesse processo de inclusão?

Ana Carolina Ribeiro: O autismo é singular; cada indivíduo apresenta características, potenciais e sensibilidades sensoriais próprias, portanto não existe receita de bolo. O papel pedagógico da escola consiste em observar o comportamento do aluno, registrar evidências no cotidiano e realizar as adaptações curriculares necessárias para que ele consiga aprender, sem a necessidade de aguardar um laudo formal para começar a agir. O diagnóstico clínico em si cabe exclusivamente aos profissionais de saúde, como neurologistas e psicólogos. Sou totalmente favorável à inclusão escolar, mas ela precisa priorizar o bem-estar e o conforto da criança. Se o excesso de estímulos sonoros e visuais da escola regular causar desregulação e sofrimento, precisamos avaliar com responsabilidade o que é melhor para o desenvolvimento daquele aluno.


DEMOCRATA: Diante da singularidade do Transtorno do Espectro Autista (TEA), qual deve ser a postura da escola para identificar as necessidades do aluno e qual o limite entre a pedagogia e o diagnóstico clínico?

Ana Carolina Ribeiro: É essencial delimitar com clareza os papéis: escola não diagnostica e relatório pedagógico não é laudo médico. O papel da equipe docente é exercer uma observação atenta, registrar evidências comportamentais e encaminhar a criança aos especialistas habilitados. Mais importante ainda: a adaptação curricular não depende de um laudo formal prévio. A partir do momento em que o educador percebe que aquele aluno possui um ritmo ou uma forma singular de aprender, é dever pedagógico pesquisar estratégias, recursos lúdicos e metodologias que viabilizem a sua aprendizagem. A responsabilidade diagnóstica, por sua vez, cabe exclusivamente à equipe multidisciplinar da área da saúde, composta por neurologistas e psicólogos.


DEMOCRATA: Como articular o trabalho conjunto entre a escola, os especialistas em saúde e as famílias, sobretudo no momento em que os pais recebem o diagnóstico da neurodivergência?

Ana Carolina Ribeiro: Essa integração entre escola, saúde e família é indispensável. O fechamento do diagnóstico impõe à família um processo real de luto em relação às expectativas que havia criado. É como planejar uma viagem para a praia, encher a mala com roupas de calor e, ao desembarcar do avião, deparar-se com a neve. Os pais ficam desorientados, sem saber como agir diante daquele cenário imprevisto. Enquanto a família assimila essa transição, a criança precisa continuar vivendo e se desenvolvendo plenamente. É nesse ponto que a união de esforços se torna decisiva para compreender as particularidades de cada indivíduo — identificando se ele apresenta hipersensibilidade a ruídos e aglomerações, necessidade de movimentação constante ou intolerância ao contato físico. Conhecer essas nuances é o que nos permite mitigar o estresse e proporcionar um ambiente verdadeiramente acolhedor e funcional.


DEMOCRATA: O termo “intervenção psicopedagógica” por vezes gera dúvidas ou interpretações equivocadas no senso comum. Como definir, tecnicamente e na prática, o que é essa intervenção e a quem ela se destina?

Ana Carolina Ribeiro: A intervenção não tem qualquer relação com imposição ou medidas punitivas; trata-se da aplicação de recursos, ferramentas lúdicas e técnicas direcionadas para ajudar o indivíduo a superar suas barreiras no processo de aprendizagem. O trabalho começa com a avaliação psicopedagógica, na qual aplicamos testes específicos para mapear onde estão as dificuldades — especialmente nas funções executivas, como memória de trabalho, foco de atenção e controle inibitório. Atuamos com quem enfrenta desafios de aprendizagem em todas as fases da vida: crianças, jovens, adultos e idosos que buscam estimulação cognitiva. Se o aprendente apresenta déficit de memória ou excesso de agitação, por exemplo, estruturamos atividades personalizadas para reabilitar e desenvolver essas habilidades específicas. Em suma, intervir é instrumentalizar o aluno com as ferramentas necessárias para que ele supere suas dificuldades e desenvolva sua autonomia cognitiva.


DEMOCRATA: A senhora também atua com educação parental através do programa Encorajando Pais. De que maneira esse trabalho com os responsáveis complementa o avanço na escola?

Ana Carolina Ribeiro: A educação parental representa uma virada de chave fundamental. As famílias muitas vezes oscilam entre dois extremos nocivos: a rigidez punitiva do passado — onde imperavam gritos ou castigos ineficazes — e a permissividade excessiva dos dias atuais, que compromete a autoridade e os limites saudáveis. O programa trabalha resgatando a própria história dos pais, curando feridas de suas infâncias para que eles consigam exercer uma presença mais consciente, equilibrada e acolhedora com os filhos. Quando a família se reestrutura emocionalmente, o impacto positivo na aprendizagem e no comportamento da criança na escola é imediato.


DEMOCRATA: Em breve será inaugurada a clínica “Descomplika Psicopedagogia”. Quais serviços serão oferecidos e o que significa, na prática, a intervenção psicopedagógica?

Ana Carolina Ribeiro: A clínica “Descomplika” nasce da parceria com a Danila Calegari para oferecer avaliação e intervenção psicopedagógica, consultoria escolar e o ciclo de 10 encontros de orientação parental. A intervenção não tem qualquer caráter punitivo; trata-se da aplicação de métodos e ferramentas lúdicas para fortalecer funções executivas essenciais que estejam deficitárias — como atenção, memória de trabalho e controle inibitório. É um trabalho técnico voltado para crianças, jovens e adultos, desenhado para instrumentalizar o aprendente a superar suas barreiras cognitivas e desenvolver todo o seu potencial de aprendizagem.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.