Fabrício Menardi

As principais guerras que desafiam o mundo em 2026


As principais guerras que desafiam o mundo em 2026 Jornal DEMOCRATA, edição 1942 de 3 de outubro de 2026

Enquanto líderes mundiais discutem na Organização das Nações Unidas os caminhos para reduzir as tensões internacionais, uma realidade permanece evidente: o mundo atravessa uma das fases mais complexas de conflitos armados das últimas décadas.

Da guerra entre Rússia e Ucrânia ao conflito entre Israel e Hamas, passando pelas guerras civis no Sudão e em Mianmar e pela escalada envolvendo Estados Unidos e Irã, os principais jornais e agências internacionais acompanham uma sucessão de crises que ultrapassam as fronteiras dos países diretamente envolvidos.

Em comum, os conflitos têm produzido deslocamentos em massa, destruição de infraestrutura, dificuldades para a entrega de ajuda humanitária e riscos de que guerras regionais provoquem consequências econômicas e estratégicas muito mais amplas.

Ucrânia: uma guerra que continua sem solução

A guerra entre Rússia e Ucrânia permanece como um dos principais focos de tensão militar entre grandes potências.

Nesta semana, ataques russos atingiram Kiev e provocaram o fechamento parcial ou total de três pontes sobre o rio Dnipro, causando grandes congestionamentos na capital ucraniana. Segundo a Associated Press, os ataques fazem parte de uma campanha que também tem atingido infraestrutura energética, redes de transporte, telecomunicações e outras estruturas essenciais.

A Ucrânia também intensificou ataques contra instalações russas, incluindo refinarias de petróleo. Ao mesmo tempo, continuam os esforços diplomáticos para estabelecer uma trégua limitada envolvendo ataques contra instalações de energia e a navegação no Mar Negro. Estados Unidos, Índia, Turquia e Egito apresentaram propostas nesse sentido, segundo autoridades ucranianas citadas pela AP.

O conflito também continua carregando o risco de uma escalada entre Rússia e países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em 1º de outubro, o presidente Vladimir Putin voltou a advertir que Moscou poderia recorrer ao seu arsenal nuclear caso considerasse ameaçado o enclave russo de Kaliningrado. A declaração foi feita no Fórum Valdai, em Moscou.

Para além da linha de frente, a guerra continua provocando efeitos econômicos e humanitários de grande escala.

Gaza: uma trégua que não encerrou a violência

No Oriente Médio, a guerra iniciada pelo ataque do Hamas contra Israel, em outubro de 2023, continua tendo consequências devastadoras.

Embora um cessar-fogo tenha entrado em vigor em outubro de 2025 e reduzido a intensidade dos combates, ataques israelenses continuam sendo registrados na Faixa de Gaza. Segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza citados pela Associated Press, o número de palestinos mortos desde o início da guerra ultrapassou 74 mil no fim de setembro de 2026. A mesma fonte registrava mais de 175 mil feridos.

A contagem é produzida pelo Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo governo liderado pelo Hamas, e não diferencia civis de combatentes. Organizações internacionais consideram os registros amplamente úteis para acompanhar a dimensão da mortalidade, embora ressaltem suas limitações.

O cenário diplomático continua igualmente delicado. 

Os Estados Unidos anunciaram novas sanções contra uma rede financeira ligada ao Hamas, acusada pelo Departamento do Tesouro americano de movimentar milhões de dólares por meio de estruturas de fachada e criptomoedas.

A situação em Gaza também permanece no centro das discussões internacionais sobre acesso humanitário, reconstrução, segurança e o futuro político do território.


Irã e Estados Unidos: o risco de uma nova escalada

Uma das mudanças mais importantes no mapa dos conflitos internacionais de 2026 ocorreu no Oriente Médio com a guerra envolvendo Estados Unidos e Irã.

O conflito, iniciado após ataques americanos e israelenses contra o Irã em fevereiro, teve uma trégua em abril, mas não chegou a uma solução definitiva. Em setembro, Washington e Teerã ainda tentavam encontrar uma saída diplomática, especialmente em torno da reabertura do Estreito de Ormuz.

O estreito é uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo e gás. Sua interrupção tem consequências que vão muito além do Oriente Médio, afetando preços de energia, transporte marítimo e cadeias de abastecimento.

Segundo a Reuters, autoridades iranianas estão preparando uma resposta militar mais ampla caso os Estados Unidos retomem ataques em grande escala. Ao mesmo tempo, Teerã continua tentando negociar uma saída diplomática.

A Associated Press informou que mediadores do Oriente Médio continuam tentando aproximar os dois lados, mas existem obstáculos importantes para um acordo envolvendo o Estreito de Ormuz, as sanções americanas e o programa nuclear iraniano.

O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e aliados também se conecta a outros focos de tensão na região, especialmente no Líbano, no Iraque e no Iêmen.

Sudão: a guerra esquecida

Entre os conflitos que recebem menor atenção da opinião pública internacional, a guerra civil do Sudão está entre os mais graves.

O confronto começou em abril de 2023, quando forças do Exército Sudanês e da organização paramilitar Forças de Apoio Rápido, conhecida pela sigla RSF, romperam definitivamente uma disputa pelo poder que deveria fazer parte de uma transição para um governo civil.

Mais de três anos depois, a guerra continua.

Segundo levantamento divulgado em setembro pela Reuters a partir de uma investigação das Nações Unidas, mais de 14 milhões de pessoas já foram deslocadas pelo conflito. 

A missão da ONU também estimou que mais de mil pessoas morreram em ataques com drones somente nos cinco primeiros meses de 2026.

O conflito também adquiriu uma dimensão internacional. Países estrangeiros são acusados de fornecer armas, tecnologia militar, combatentes ou apoio logístico às partes envolvidas.

Em setembro, os Estados Unidos apresentaram uma proposta de cessar-fogo de 90 dias seguida por negociações políticas. O plano, entretanto, encontrou resistência entre representantes das autoridades ligadas ao Exército Sudanês, que temem que um acordo sem garantias para a retirada da RSF de áreas urbanas possa contribuir para uma divisão de fato do país.

A crise humanitária permanece gigantesca. Milhões de pessoas enfrentam fome, falta de atendimento médico e deslocamentos repetidos.

Mianmar: quatro anos de guerra civil

No Sudeste Asiático, Mianmar continua mergulhado em uma guerra civil iniciada depois do golpe militar de 2021.

A junta militar enfrenta uma combinação de grupos armados étnicos e forças de resistência que passaram a controlar extensas áreas do território.

No fim de setembro, um ataque aéreo realizado pelas forças militares em Kyauktaw, no estado de Rakhine, deixou pelo menos 50 mortos e 58 feridos, segundo números divulgados pelo grupo rebelde Arakan Army e por um trabalhador humanitário entrevistado pela Reuters.

O episódio evidencia uma das características mais preocupantes da guerra: a utilização crescente de ataques aéreos em áreas onde vivem populações civis.

A guerra já provocou dezenas de milhares de mortes e deslocou milhões de pessoas. A dimensão da crise, entretanto, frequentemente fica fora do foco do noticiário internacional em comparação com os conflitos do Oriente Médio e da Europa.

O leste do Congo e a expansão dos conflitos africanos

Outro foco de instabilidade está na República Democrática do Congo, especialmente na região de Kivu.

O grupo rebelde M23 continua sendo um dos principais atores armados do conflito. O governo congolês e organismos internacionais acusam Ruanda de apoiar o movimento, enquanto Kigali rejeita essas acusações.

A questão tornou-se internacional também porque Estados Unidos e outros países passaram a pressionar diretamente Ruanda. Em março, Washington anunciou sanções contra o Exército ruandês e altos funcionários do país por seu suposto apoio ao M23. Ruanda contestou a medida.

A região já convive há décadas com conflitos armados, deslocamentos populacionais e disputas por território e recursos minerais.

A situação ganhou ainda outra dimensão em 2026 com uma grave epidemia de Ebola no leste do Congo, onde a insegurança dificulta o trabalho das equipes de saúde e ajuda humanitária. A Associated Press informou em 2 de outubro que mais de 4 mil pessoas haviam morrido na epidemia.

Sahel: guerras contra grupos jihadistas

No continente africano, a violência também continua avançando pelo Sahel, região que inclui países como Mali, Burkina Faso e Níger.

Grupos ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico continuam realizando ataques contra forças militares e comunidades.

No Mali, fontes de segurança citadas pela Reuters afirmaram que mais de cem militares foram mortos em ataques realizados em setembro pelo Jama’at Nusrat al-Islam wal Muslimin (JNIM), grupo ligado à Al-Qaeda. O Exército malinês confirmou combates e operações de resposta, embora os números exatos de mortos sejam objeto de diferentes relatos.

No Níger, mais de 50 integrantes das forças de segurança morreram em dois ataques recentes no oeste do país, segundo fontes de segurança citadas pela Reuters.

A instabilidade é agravada pela fragilidade das instituições estatais, pela presença de grupos extremistas e pela disputa de influência entre diferentes potências estrangeiras.

Etiópia: novos sinais de tensão no norte

Outro conflito africano que voltou a chamar atenção internacional é a deterioração da situação no norte da Etiópia.

A guerra de Tigray terminou formalmente com um acordo de paz em 2022, mas antigas rivalidades, disputas territoriais e novas alianças voltaram a alimentar confrontos.

Nesta semana, relatos apontaram para uma intensificação da violência na região. A Al Jazeera informou que grupos alinhados ao governo etíope afirmam ter ampliado seu controle sobre áreas de Tigray, enquanto confrontos e tensões políticas continuam crescendo.

O temor internacional é que uma nova escalada possa transformar a instabilidade regional em um conflito mais amplo envolvendo diferentes forças e países vizinhos.

Um mundo com várias guerras ao mesmo tempo

O que diferencia o atual cenário internacional não é apenas a quantidade de guerras, mas a maneira como elas estão interligadas.

A guerra da Ucrânia envolve diretamente Rússia, Ucrânia e países da OTAN. No Oriente Médio, o conflito entre Israel e Hamas se conecta às tensões envolvendo Irã, Estados Unidos, Hezbollah e os houthis do Iêmen. Na África, guerras civis e insurgências são influenciadas por disputas regionais e pelo envolvimento de potências externas.

Um relatório do International Crisis Group publicado para 2026 apontou Ucrânia, Sudão, Mianmar e conflitos no Sahel entre os principais focos de preocupação internacional.

A própria Organização das Nações Unidas enfrenta dificuldades para responder simultaneamente a tantos conflitos. Durante a Assembleia Geral realizada em setembro, autoridades e especialistas destacaram que a instituição precisa lidar ao mesmo tempo com as guerras na Ucrânia, Gaza, Sudão e Mianmar, além das tensões envolvendo o Irã e outras crises regionais.

O resultado é um cenário internacional em que guerras locais podem produzir consequências globais: inflação de alimentos e energia, interrupções nas rotas comerciais, novas ondas migratórias, corrida armamentista e aumento do risco de confrontos entre potências militares.

Em outubro de 2026, portanto, não existe uma única guerra que defina a ordem internacional. 

Há uma rede de conflitos que se sobrepõem e, em alguns casos, se alimentam mutuamente.

Para milhões de pessoas que vivem nos territórios atingidos, porém, a geopolítica tem uma dimensão muito mais concreta: cidades destruídas, famílias separadas, hospitais sem recursos, deslocamento e a incerteza sobre quando a próxima noite será novamente interrompida pelo som das bombas.


Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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