Fabrício Menardi
Copa do Mundo de 2026: futebol global, fronteiras rígidas e a política do acesso
Jornal Democrata, edição 1929 de 28 de junho de 2028 A Copa do Mundo de 2026, organizada conjuntamente porEstados Unidos, Canadá e México, será a maior da história em número deseleções, partidas e cidades-sede. No entanto, o caráter “histórico” do eventonão se limita ao campo esportivo. Ele também expõe uma série de tensõescontemporâneas entre globalização, segurança internacional, políticasmigratórias e a própria ideia de universalidade do esporte.
Mais do que uma celebração do futebol, o Mundial de 2026 seinsere em um ambiente geopolítico complexo, em que a circulação de pessoas —torcedores, jornalistas, dirigentes e até atletas — é atravessada por barreiraspolíticas e administrativas. O resultado é um paradoxo central: um torneio quese apresenta como global ocorre em um mundo cada vez mais fragmentado.
A promessa de universalidade e seus limites concretos podeser observada historicamente na forma como a Copa do Mundo foi construída comoo maior símbolo de integração global do esporte. A narrativa oficial da FIFAaposta na ideia de que seleções nacionais se encontram em igualdade simbólica,representando seus povos em um palco comum.
No entanto, ao analisar o cenário da Copa de 2026,percebe-se que essa promessa entra em tensão com políticas migratórias maisrígidas e com o endurecimento do controle de fronteiras, especialmente nosEstados Unidos. Em artigo recente, o Council on Foreign Relations aponta queparte das delegações e torcedores de países classificados pode enfrentarrestrições de visto ou dificuldades de entrada, o que coloca em questão a plenaacessibilidade do evento ao “mundo inteiro”. Essa situação revela um ponto sensível:a globalização esportiva não elimina desigualdades políticas; ela apenas asreorganiza. O direito de participar de um evento global passa a depender nãoapenas da performance esportiva, mas também de relações diplomáticas, regimesde visto e critérios de segurança nacional.

Ao se observar a dimensão securitária, fica evidente que aCopa de 2026 também se insere em um contexto marcado por conflitos regionais,instabilidade geopolítica e ameaças digitais, o que transforma o evento em umpotencial alvo de disputas simbólicas e reais. O Center for Strategic andInternational Studies analisa que megaeventos esportivos contemporâneos não sãoapenas celebrações culturais, mas também ambientes de risco elevado, envolvendodesde ameaças terroristas até ataques cibernéticos direcionados ainfraestruturas críticas. Nesse sentido, o Mundial deixa de ser apenas umevento esportivo e passa a integrar uma lógica de segurança internacionalampliada. Estádios, aeroportos, sistemas de transporte e plataformas digitaistornam-se parte de uma arquitetura de vigilância reforçada, criando umaexperiência altamente controlada em que o acesso físico e digital ao evento émediado por sistemas de triagem, monitoramento e restrição. O paradoxo éevidente: quanto mais global o evento pretende ser, mais restrito ele se tornaem termos de circulação e controle.
Apesar dessas restrições, a Copa do Mundo continua sendofrequentemente analisada como uma ferramenta de diplomacia internacional. Aideia de “diplomacia esportiva” parte do princípio de que o esporte podefuncionar como espaço de diálogo indireto entre países em conflito ou comrelações diplomáticas tensas. Nesse contexto, iniciativas como o UNITAR e suaagenda de diplomacia multilateral destacam como eventos globais podem serutilizados para promover cooperação internacional e diálogo entre atores estataise não estatais, inclusive por meio de fóruns paralelos ao Mundial. No entanto,essa dimensão diplomática convive com limites claros, já que o esporte podefacilitar encontros simbólicos, mas não resolve contradições estruturais dapolítica internacional. Em muitos casos, o futebol funciona mais como vitrinede soft power do que como instrumento real de transformação política. A Copa,portanto, opera em dois níveis simultâneos: como espetáculo de cooperação ecomo reflexo das assimetrias globais.
Ao aprofundar a análise crítica, percebe-se que o futebolinternacional está cada vez mais inserido em disputas de narrativa e influênciaglobal, nas quais países utilizam o esporte para projetar poder e reputaçãointernacional, conforme apontam estudos do Global and International StudiesReport. Nesse cenário, a Copa de 2026 não pode ser interpretada apenas como umevento esportivo neutro, mas como parte de um tabuleiro geopolítico mais amplo,no qual segurança, imagem internacional, turismo, economia e políticamigratória se entrelaçam. A crítica central é que, ao mesmo tempo em que odiscurso oficial enfatiza inclusão e celebração global, a estrutura real doevento produz exclusões seletivas que não são necessariamente esportivas, maspolíticas: quem pode entrar, quem pode circular e quem pode assistirpresencialmente.
Ao mesmo tempo, a produção de conhecimento sobre megaeventosesportivos também é aprofundada por instituições acadêmicas e centros depesquisa, como a Balsillie School of International Affairs, que investiga osimpactos políticos, econômicos e sociais de eventos globais como a Copa doMundo. Essas análises destacam que o impacto de um megaevento vai além do curtoperíodo de jogos, envolvendo transformações urbanas, reconfiguração depolíticas de segurança e mudanças nas dinâmicas de mobilidade internacional,cujos efeitos podem permanecer muito depois do apito final.
Por fim, a Copa do Mundo de 2026 sintetiza uma contradiçãofundamental do século XXI: vivemos em um mundo altamente conectado por fluxosde informação, cultura e economia, mas cada vez mais segmentado por fronteirasfísicas, políticas e digitais. O futebol, frequentemente celebrado comolinguagem universal, não escapa dessa lógica; ele a reflete. O Mundial tornavisível um sistema internacional no qual o acesso não é igualitário e onde aexperiência global é mediada por critérios de segurança, diplomacia e poder.Assim, a questão que emerge não é apenas esportiva. A pergunta decisiva não équem será campeão, mas que tipo de globalização está sendo encenada: umaglobalização aberta e inclusiva ou uma globalização seletiva, controlada eprofundamente desigual. A Copa de 2026, nesse sentido, não é apenas um torneio,mas um espelho político do mundo contemporâneo — e suas contradições jogamtanto quanto as seleções em campo.



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