Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Não Tenhais Medo

No 12º Domingo do Tempo Comum, Jesus repete três vezes o mesmo convite aos seus discípulos: não tenham medo. É um convite que chega até nós hoje com a mesma urgência


Não Tenhais Medo Jornal DEMOCRATA edição 1928 de 21 de junho de 2026

A liturgia deste domingo tem uma palavra que atravessa todas as leituras como um fio condutor e que Jesus repete com uma insistência que não pode ser ignorada: não tenhais medo. Ele não diz isso uma vez. Diz três vezes no mesmo trecho do Evangelho. E quando Jesus repete uma coisa três vezes, é porque sabe que precisamos ouvir bem.

Vivemos numa cidade onde o medo tem endereço certo. Medo de sair à noite. Medo de perder o emprego. Medo de ser diferente. Medo de falar o que se pensa. Medo de acreditar em algo quando tudo ao redor parece desmoronar. E Jesus chega neste domingo com essa Palavra que não é ingenuidade, não é negação da realidade. É uma convocação. Não tenhais medo, porque há algo maior do que tudo aquilo que amedronta.

Jeremias é um dos profetas que mais me toca – Primeira Leitura – Jr 20,10-13 –. Não porque era corajoso no sentido épico da palavra. Mas porque era corajoso apesar do medo. Ele ouve as conspirações ao redor, os que dizem “denunciai-o, denunciemo-lo” (Jr 20,10), os amigos que observam suas falhas esperando a hora de se vingar. E mesmo assim, ele fala. Mesmo assim, ele não recua.

O segredo de Jeremias não é a ausência de medo. É a presença de Deus. “O Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro” (Jr 20,11). Essa frase não é arrogância. É fé. É a certeza de que quem está com Deus não está sozinho, mesmo quando está completamente sozinho do ponto de vista humano. E essa certeza transforma a voz. Transforma o passo. Transforma a coragem.

Há muitos Jeremias no Rio de Janeiro. Professores que ensinam com dedicação em escolas onde ninguém acredita mais ou em meio a insegurança e violência. Profissionais de saúde que servem em unidades precárias sem perder a humanidade. Líderes comunitários que trabalham pela paz em territórios onde a violência dita as regras. Mães que criam filhos com fé quando o entorno só oferece desânimo. Cada um deles é um Jeremias que canta ao Senhor mesmo quando a situação não convida ao canto.

Paulo apresenta aos Romanos uma reflexão que parece abstrata, mas que tem consequências muito concretas para a vida de cada pessoa – Rm 5,12-15 –. Ele fala de Adão e de Cristo. Do pecado que entrou no mundo por um só homem e da graça que entrou pelo outro. E a conclusão é de uma assimetria que deveria nos encher de espanto: “foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos” (Rm 5,15).

O pecado entrou. A morte entrou. Isso é real. Paulo não nega. Mas o dom ultrapassou o delito. A graça foi maior do que o pecado. A vida foi mais forte do que a morte. E esse “foi mais forte” não é apenas uma afirmação do passado. É uma realidade presente, ativa, que age agora na vida de cada pessoa que abre espaço para ela.

Quantas pessoas carregam a convicção de que o mal que fizeram ou que receberam é definitivo? Que o passado sela o futuro? Que o pecado tem a última palavra? Paulo desfaz essa ilusão com precisão cirúrgica. O dom de Cristo é maior. Sempre maior. E isso não é uma teoria consoladora. É a base de toda a esperança cristã.

Jesus diz “não tenhais medo” três vezes no Evangelho de hoje, e cada vez por uma razão diferente – Mt 10,26-33 –. Vale a pena contemplar cada uma delas.

A primeira: “não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado” (Mt 10,26). Não tenham medo de falar a verdade. O que é verdadeiro não precisa se esconder. O que é de Deus não teme a luz. O discípulo que anuncia o Evangelho não está defendendo uma ideologia frágil que desmorona ao primeiro questionamento. Está anunciando uma Verdade que permanece, que resiste, que se revela cada vez mais à medida que o tempo passa.

A segunda: “não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). Não tenham medo do que é passageiro. O corpo passa. As ameaças passam. Os poderes que hoje parecem absolutos passam. Só Deus permanece. E quem vive orientado por essa perspectiva encontra uma liberdade interior que nenhuma força externa consegue tirar.

A terceira, e talvez a mais terna: “até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,30-31). Não tenham medo porque são conhecidos. Porque são amados. Porque o Pai que sustenta os pássaros os sustenta com muito mais cuidado ainda. Essa não é uma metáfora decorativa. É uma afirmação sobre a natureza de Deus: um Pai que conhece cada detalhe da vida de cada filho.

Jesus conclui com um critério que desafia: “todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus” (Mt 10,32). Declarar-se a favor de Jesus. Isso tem a ver com palavras, sim. Mas tem muito mais a ver com escolhas. Com o modo de tratar as pessoas. Com a disposição de perdoar quando seria mais fácil guardar rancor. Com a coragem de ser diferente quando o entorno pressiona para a conformidade.

Esta cidade precisa de cristãos que se declarem. Que não escondam a fé como se fosse algo de que se deve ter vergonha. Que não guardem o Evangelho para o interior das igrejas, mas o levem para as ruas, para os escritórios, para as rodas de conversa, para as redes sociais, para os relacionamentos cotidianos. Declarar-se a favor de Jesus não é arrogância religiosa. É testemunho. E o testemunho tem um poder de evangelização que nenhuma campanha de comunicação consegue substituir.

Saímos deste domingo com três palavras gravadas no coração: não tenhais medo. Não do julgamento dos homens. Não das ameaças que passam. Não do esquecimento, porque somos conhecidos pelo nome por um Pai que conta os cabelos da nossa cabeça.

Rezemos para que essa certeza nos torne cada vez mais livres para anunciar, com alegria e sem medo, o Evangelho que recebemos de graça e que devemos dar de graça nesta cidade que tanto amamos. “Para que todos sejam um” (Jo 17,21).


Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




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