Fabrício Menardi
Quando a montanha desaba: a tragédia que transformou o Himalaia em um corredor de destruição
Jornal Democrata, edição 1937 de 29 de agosto de 2026 Colapso de uma geleira desencadeou uma torrente de gelo, água, lama e rochas entre Nepal e Tibete; centenas morreram, milhares estão desaparecidos e quase 100 mil pessoas foram afetadas. Para cientistas, o desastre expõe a crescente instabilidade das montanhas diante do aquecimento do planeta.
Uma parede de gelo e lama
Primeiro veio o estrondo. Depois, a montanha começou a descer.
Na madrugada de 26 de agosto, uma gigantesca massa de gelo, rochas e sedimentos se desprendeu de uma geleira no alto do Himalaia, na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete. Em poucos minutos, aquilo que parecia parte permanente da paisagem transformou-se em uma avalanche que ganhou velocidade à medida que descia pelos vales.
O impacto desencadeou uma torrente de água, gelo, pedras e lama que avançou pelos rios Lhende Khola e Bhote Koshi, no Nepal, alcançando posteriormente o rio Trishuli. Vilarejos inteiros, estradas, pontes, instalações hidrelétricas e postos de fronteira ficaram no caminho.
O que restou foi uma paisagem irreconhecível: casas soterradas, veículos arrastados pela correnteza, estradas interrompidas e comunidades isoladas. Em algumas áreas, a lama e os detritos chegaram a formar novos bloqueios nos rios, criando o risco de outras inundações.
O desastre também atingiu o lado tibetano da fronteira, especialmente a região de Gyirong, onde uma importante passagem entre China e Nepal foi severamente afetada.
As imagens de satélite revelam a dimensão da devastação. Onde havia vegetação e infraestrutura, há agora extensas faixas de sedimentos e rochas. Pelo menos 40 quilômetros de estradas e mais de 40 pontes foram destruídos ou sofreram danos graves.
Um balanço que ainda não terminou
O número de vítimas cresceu à medida que equipes de resgate conseguiram alcançar áreas que permaneceram isoladas após a inundação.
No Nepal, o balanço divulgado até 28 de agosto apontava 579 mortos e 1.924 desaparecidos. Entre os desaparecidos estão moradores, trabalhadores de projetos hidrelétricos, integrantes das forças de segurança e centenas de estrangeiros.
No Tibete, as informações disponíveis são menos precisas. As autoridades chinesas confirmaram inicialmente cinco mortes, enquanto centenas de pessoas permaneciam desaparecidas. A dificuldade de acesso e a escassez de informações independentes tornam ainda incerta a dimensão total da tragédia no território tibetano.
Também não há, até o momento, um número definitivo de desabrigados. A Federação Internacional da Cruz Vermelha estima que aproximadamente 93 mil pessoas tenham sido afetadas e necessitem de algum tipo de assistência humanitária.
No Nepal, mais de 3.700 pessoas já haviam sido resgatadas. O levantamento disponível registrava ainda 101 feridos em atendimento hospitalar.
A crise é particularmente grave para as crianças. Segundo a UNICEF, cerca de 17 mil crianças precisam de assistência urgente. Escolas foram destruídas ou danificadas, assim como unidades de saúde. O sistema de atendimento médico também sofreu com o isolamento das comunidades atingidas.
E os números ainda podem mudar.
Em regiões montanhosas, onde estradas desapareceram e pontes foram levadas pela água, muitas localidades continuam difíceis de alcançar. Corpos podem estar soterrados sob toneladas de lama e pedras, enquanto sobreviventes permanecem isolados, sem acesso regular a água, alimentos e atendimento médico.
O efeito dominó de uma geleira
O desastre não foi uma simples enchente provocada pela chuva.
Segundo análises de especialistas, o episódio começou com o colapso de uma massa de gelo e rochas em uma região de alta montanha. A queda liberou uma enorme quantidade de material que atingiu o vale e alterou o curso da água.
O processo funcionou como um gigantesco efeito dominó.
A avalanche atingiu o sistema fluvial, provocou represamentos temporários e, posteriormente, liberou grandes volumes de água e sedimentos de uma só vez. A estreiteza dos vales aumentou a velocidade e o poder destrutivo da correnteza.
A combinação de água e detritos tornou o fenômeno particularmente letal. Não se tratava apenas de uma inundação: era uma espécie de rio de concreto líquido, carregando blocos de rocha, árvores, veículos e estruturas inteiras.
O problema continuou mesmo depois da passagem da primeira onda.
O material acumulado em diferentes pontos dos rios formou novos represamentos, criando lagos temporários. Caso essas barreiras naturais se rompam, novas ondas de água e sedimentos podem atingir comunidades localizadas mais abaixo.
Para as equipes de resgate, portanto, a operação envolve não apenas encontrar sobreviventes, mas também monitorar permanentemente as montanhas e os rios.
O Himalaia está mudando
É aqui que a tragédia deixa de ser apenas uma história sobre um desastre local.
O Himalaia está entre as regiões do planeta mais vulneráveis às consequências do aquecimento global. O aumento das temperaturas vem acelerando o derretimento de geleiras, alterando o comportamento da neve e enfraquecendo o permafrost — o solo permanentemente congelado que ajuda a manter encostas e formações rochosas estáveis.
O resultado é uma paisagem cada vez mais dinâmica.
Geleiras recuam, lagos glaciais aumentam de tamanho e encostas anteriormente estabilizadas pelo gelo podem tornar-se mais suscetíveis a deslizamentos e colapsos.
Isso não significa que seja possível atribuir automaticamente cada avalanche ou enchente às mudanças climáticas. Os cientistas são cautelosos. Eventos geológicos como o ocorrido entre Nepal e Tibete também dependem da topografia, da estrutura das rochas, da quantidade de gelo e água acumulada e de condições meteorológicas específicas.
Mas existe uma conexão mais ampla.
O aquecimento do planeta está alterando as condições que determinam a estabilidade das montanhas. Em outras palavras, a mudança climática pode não ser a única causa de um desastre específico, mas pode aumentar a frequência, a intensidade ou a área de risco de determinados eventos.
O Nepal está especialmente exposto. O país perdeu uma parcela significativa de seu gelo glacial nas últimas décadas e possui milhares de geleiras e lagos glaciais. Milhões de pessoas vivem em bacias hidrográficas que dependem das águas provenientes das montanhas.
O paradoxo é evidente: as mesmas geleiras que sustentam rios, agricultura, energia e comunidades podem, sob determinadas condições, transformar-se em ameaças.
Um alerta para toda a Ásia
O significado do desastre ultrapassa as fronteiras de Nepal e Tibete.
O Himalaia é a origem de alguns dos maiores rios da Ásia e influencia diretamente a vida de centenas de milhões de pessoas. Qualquer transformação significativa na dinâmica das geleiras e da disponibilidade de água pode produzir consequências muito além das regiões de montanha.
Por isso, cientistas defendem a ampliação do monitoramento de geleiras e lagos glaciais, sistemas de alerta precoce e mecanismos de cooperação entre os países que compartilham as grandes bacias hidrográficas da região.
A tragédia também expõe outro problema: a infraestrutura humana avançou para dentro de áreas de risco. Estradas, hidrelétricas, cidades e instalações turísticas ocupam vales estreitos justamente onde uma avalanche ou uma enchente glacial pode concentrar toda a sua força.
O desenvolvimento econômico, nesse cenário, precisa caminhar junto com o conhecimento sobre os riscos naturais.

Vista aérea mostra casas submersas na lama após as enchentes repentinas em Devighat, no município de Bidur, na confluência dos rios Trishuli e Tadi, no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 27 de agosto de 2026. Prabin Ranabhat/AFP.
A solidariedade atravessa as montanhas
Enquanto equipes nepalesas de segurança procuram sobreviventes, a comunidade internacional começou a mobilizar recursos.
Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Coreia do Sul, Japão, Bangladesh, União Europeia e outros países ofereceram ajuda ao Nepal. Entre as contribuições anunciadas estão recursos financeiros, equipamentos de emergência, medicamentos e materiais destinados às populações atingidas.
A Organização Mundial da Saúde também mobilizou recursos para atendimento médico emergencial, enquanto a Cruz Vermelha distribuiu água potável, lonas, cobertores, colchões e kits de primeiros socorros.
O governo nepalês, entretanto, informou que suas próprias forças de segurança têm capacidade para conduzir as operações de busca e resgate e recusou ou adiou algumas ofertas de envio de equipes estrangeiras.
No Tibete, a situação humanitária é mais difícil de dimensionar. Organizações internacionais, entre elas a International Campaign for Tibet, pediram transparência na divulgação dos números e acesso humanitário às áreas atingidas.
Depois da lama, o desafio da reconstrução
O Himalaia não será o mesmo depois da tragédia de agosto.
Para os sobreviventes, o primeiro desafio é imediato: encontrar desaparecidos, reconstruir casas, restabelecer estradas, recuperar pontes, garantir água potável e devolver alguma normalidade às comunidades destruídas.
Mas existe uma pergunta maior, que permanecerá depois que a lama secar: como viver em segurança em um ambiente que está mudando?
O desastre entre Nepal e Tibete mostra que os efeitos do aquecimento global não aparecem apenas em termômetros, ondas de calor ou recordes de temperatura. Em regiões de alta montanha, eles podem se manifestar na forma de geleiras instáveis, lagos glaciais perigosos, deslizamentos e inundações repentinas.
A montanha, que durante séculos pareceu imóvel, está se transformando.
E o que aconteceu em agosto de 2026 pode ser menos uma exceção isolada do que um aviso sobre o futuro de uma das regiões mais frágeis — e mais importantes — do planeta.
Referências: Al Jazeera; BBC News; The Conversation; The Guardian; Reuters; Organização Mundial da Saúde (OMS); UNICEF; Federação Internacional da Cruz Vermelha; International Campaign for Tibet.
Fabrício Menardi. Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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