Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
São Pedro e São Paulo
Renovamos nosso compromisso com Cristo e a Igreja!
Jornal Democrata, edição 1929 de 28 de junho de 2028 É com o coração repleto de alegria e de um reverente temor a Deus que nos reunimos para celebrar a Santa Missa neste dia solene. Celebrar a Solenidade de São Pedro e São Paulo, não é um mero ato formal, mas um retorno às próprias fontes do nosso batismo. Sob os altares da cidade eterna repousam os restos mortais de dois homens que, movidos pela ação do Espírito Santo, mudaram a história. Levo comigo, aos túmulos dos apóstolos, as alegrias, as lágrimas, os desafios pastorais e a fé do nosso querido povo do Rio de Janeiro e de todo o Brasil. As distâncias geográficas desaparecem na Eucaristia, pois a Igreja é uma só. O sangue derramado por Pedro, crucificado na colina do Vaticano, e por Paulo, decapitado pela espada romana, é a semente que continua fazendo germinar a fé nas nossas cidades, nas nossas comunidades e nas nossas famílias.
A liturgia desta solenidade coloca diante de nós duas figuras diferentes. O Senhor escolheu dois homens com histórias marcadas pela fragilidade humana. Pedro era um simples pescador, impulsivo e que cedeu ao medo negando o Mestre na noite da Paixão. Paulo era um homem profundamente instruído na Lei judaica, mas cujo zelo inicial o transformou em um perseguidor cego, que arrastava cristãos para a prisão e consentiu na morte de Santo Estêvão. Se a Igreja fosse uma instituição puramente humana, esses dois homens jamais seriam escolhidos para conduzi-la. No entanto, a graça divina não trabalha com méritos humanos perfeitos; ela purifica os corações. O encontro com Cristo ressuscitado redimiu os pecados de ambos e os transformou nas duas colunas que sustentam a nossa catolicidade.
Essa construção espiritual é revelada de forma clara no Evangelho que a Igreja nos propõe hoje, extraído de Mateus, no seu capítulo dezesseis. A passagem evangélica nos relata o momento em que Jesus conduz os seus apóstolos à região de Cesareia de Filipe, um lugar dominado por cultos pagãos. Diante desse cenário, Jesus exige uma tomada de posição e pergunta a eles: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Simão toma a palavra e, impulsionado por uma revelação do Pai celeste, confessa a identidade de Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). É neste momento que o Mestre altera o destino daquele pescador e firma a sua Igreja: “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Ao escutarmos essas palavras, tocamos na promessa de que a nossa Igreja não sucumbirá. Os impérios que tentaram extinguir o cristianismo caíram no esquecimento; mas a barca de Pedro continua firme em meio às tempestades da história, porque o próprio Cristo é quem segura o seu leme.
Entretanto, confessar essa fé e carregar as chaves do Reino significa abraçar a cruz. A Primeira Leitura, retirada dos Atos dos Apóstolos, expõe o preço do discipulado. O texto narra o momento em que o rei Herodes Agripa começa a perseguir a comunidade, manda assassinar o apóstolo Tiago e, ao ver que a ação agradava aos inimigos de Cristo, manda “também prender a Pedro” (At 12,3). O cenário era desolador: Pedro é jogado no escuro de uma cela, amarrado com correntes duplas, enquanto soldados vigiam a saída. A esperança humana parecia aniquilada. Mas o autor sagrado revela a atitude da primeira geração de cristãos: “Pedro, porém, estava guardado na prisão. Mas a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” (At 12,5). Diante da perseguição e da hostilidade do mundo, a Igreja responde antes de tudo com a oração, a perseverança e a confiança em Deus. Essa oração da comunidade foi ouvida, e Deus enviou o Seu anjo para romper as correntes, abrir os portões e libertar o apóstolo. Nas ruas de Jerusalém, aquele a quem Cristo confiou a Igreja constata o milagre: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar” (At 12,11). Esse mesmo Deus nos ensina que a oração incessante tem o poder de desmoronar qualquer cadeia que tente sufocar a vivência do Evangelho.
Diante dessa certeza, nós cantamos hoje no Salmo Responsorial: “De todos os temores me livrou o Senhor Deus” (Sl 33,5). Ao olharmos para as nossas cidades, muitas vezes feridas pela violência, pelo abandono dos mais pobres e por uma cultura que marginaliza a presença divina, podemos nos sentir intimidados. Mas o salmista nos garante que “o anjo do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva” (Sl 33,8). Nós não caminhamos sozinhos. A providência de Deus é maior do que as nossas crises sociais. A mesma mão que soltou as correntes de Pedro ampara a caminhada da nossa Arquidiocese do Rio de Janeiro e sustenta as famílias que lutam diariamente para educar os seus filhos na fé católica.
Enquanto o Evangelho e a Primeira Leitura destacam a missão de Pedro, a Segunda Leitura nos entrega o testamento espiritual de São Paulo. Escrevendo a sua Segunda Carta a Timóteo a partir de uma masmorra romana, aguardando o fim da sua jornada terrena, Paulo não se lamenta, mas faz o balanço de sua vida com serenidade: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Desde agora, está reservada para mim a coroa da justiça” (2Tm 4,7-8). Paulo gastou a sua energia e suportou perseguições para garantir que o nome de Jesus Cristo ultrapassasse as fronteiras da sua cultura e chegasse a todas as nações. Ele atesta que, mesmo nos momentos de maior solidão, “o Senhor, porém, esteve ao meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente” (2Tm 4,17). A herança de Paulo é um ardor missionário e uma fidelidade à cruz que precisam continuar vivos nas nossas paróquias e comunidades.
Celebrar a Solenidade de São Pedro e São Paulo é um convite de Deus para renovarmos o nosso batismo e o nosso compromisso eclesial. Voltemos para a nossa realidade com a coragem missionária de Paulo e com a fé de Pedro, aquela mesma fé exigida por Jesus no Evangelho de Mateus. Sejamos testemunhas do Cristo em nossos lares e nos locais de trabalho, guiando a sociedade não por ideologias, mas pela luz do Evangelho. Nesta liturgia de unidade, renovemos também a nossa comunhão com o Sucessor de Pedro, rezando incessantemente para que o Espírito Santo o fortaleça no seu ministério de apascentar o rebanho universal. Que Maria, Mãe da Igreja, e os santos apóstolos Pedro e Paulo intercedam pelo nosso povo, protejam a nossa fé e nos deem a perseverança para combatermos o bom combate até o fim.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



COMENTÁRIOS