Fabrício Menardi

Sob a Névoa da Guerra: incerteza estratégica e a disputa geopolítica no sistema internacional


Sob a Névoa da Guerra: incerteza estratégica e a disputa geopolítica no sistema internacional Jornal Democrata, edição 1913 de 7 de março de 2026

No dia 28 de fevereiro, uma operação militar conjunta entre os Estados Unidos e Israel lançou ataques contra o território do Irã, inaugurando uma fase particularmente dramática no Oriente Médio. Washington e Tel Aviv justificaram a ofensiva como resposta à ameaça representada por Teerã — especialmente em relação ao seu programa nuclear, ao desenvolvimento de mísseis balísticos e à sua crescente projeção de poder regional — sustentando que a ação buscava impedir que o país adquirisse capacidade de ameaçar diretamente aliados ocidentais.

Autoridades americanas classificaram a operação como preventiva, afirmando que o objetivo era neutralizar sistemas de mísseis, radares e lideranças militares iranianas diante de um risco considerado iminente. Parte dos analistas, porém, avalia que o propósito central não seria “vencer” militarmente o Irã — que dispõe de poder convencional significativo e capacidade de afetar rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz —, mas sim elevar o custo político, econômico e estratégico do confronto, pressionando Teerã a retornar a negociações e enfraquecendo sua influência geopolítica.

No centro das justificativas apresentadas por Estados Unidos e Israel está a questão nuclear. Ambos argumentam que a combinação entre enriquecimento de urânio, desenvolvimento de vetores balísticos e apoio a grupos armados na região constitui risco direto à segurança regional e ao equilíbrio estratégico. Embora o governo iraniano sustente que seu programa tem fins civis, a deterioração da confiança mútua e o fracasso de negociações anteriores contribuíram para a opção pela via militar.

Os ataques iniciais atingiram instalações estratégicas e lideranças militares em cidades como Teerã, Isfahan e Qom. Entre as consequências mais graves da operação esteve a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, além de outros integrantes da cúpula política e militar do país, episódio que elevou dramaticamente o nível da crise e aumentou o risco de uma escalada regional.

A resposta iraniana ocorreu por meio do lançamento de mísseis e drones contra alvos israelenses e bases americanas no Golfo, ampliando a escala das hostilidades. Teerã também passou a utilizar de forma explícita sua capacidade de ameaçar o fechamento do Estreito de Ormuz — rota por onde transita cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente — como instrumento de pressão econômica e diplomática. Assim como seus adversários, o Irã tampouco parece buscar uma vitória militar decisiva; sua estratégia, segundo especialistas, seria tornar o conflito suficientemente oneroso para forçar uma reconfiguração diplomática ou a interrupção dos ataques.

As reações internacionais evidenciam preocupação com a escalada. Na Europa, líderes alertaram para os riscos humanitários, energéticos e para a ausência de um plano claro de pós-conflito, defendendo saídas diplomáticas. O Brasil, por meio do Itamaraty, condenou os ataques e reiterou a defesa de soluções negociadas, em linha com sua tradição diplomática.

A crise também provocou forte reação de duas das principais potências do sistema internacional contemporâneo: China e Rússia. Ambos os governos condenaram a ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel e defenderam a interrupção imediata das operações militares. Pequim afirmou que a soberania e a integridade territorial do Irã devem ser respeitadas e pediu o retorno imediato ao diálogo e às negociações diplomáticas para evitar uma escalada regional mais ampla.

Moscou, por sua vez, classificou os ataques como um ato de agressão contra um Estado soberano e alertou que a ação poderia mergulhar o Oriente Médio em uma crise humanitária e estratégica de grandes proporções. O governo russo também acusou Washington e Tel Aviv de utilizarem o programa nuclear iraniano como pretexto para uma tentativa de mudança de regime e solicitou, junto com a China, a convocação de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para discutir o conflito.

Esse posicionamento reforça uma tendência já observada nos últimos anos: o fortalecimento de um eixo de cooperação estratégica entre Irã, Rússia e China em contraposição à influência americana e de seus aliados. Embora isso não signifique necessariamente um envolvimento militar direto no conflito, a convergência diplomática entre essas potências amplia a dimensão geopolítica da crise e reforça a percepção de que o confronto pode se tornar mais um capítulo da competição entre grandes potências no sistema internacional.

Os impactos globais já se manifestam de forma sensível. O mercado de energia reagiu com alta significativa nos preços do petróleo, refletindo temores de interrupção no fornecimento e restrições às rotas comerciais do Golfo Pérsico. Esse movimento pressiona cadeias produtivas, amplia riscos inflacionários e pode gerar efeitos prolongados caso o conflito persista. Nos mercados financeiros, a combinação de instabilidade militar e incerteza geopolítica tem provocado volatilidade, retração de investimentos e perdas em setores como aviação, turismo e logística, evidenciando o grau de interdependência da economia global.

Para o Brasil, os efeitos potenciais incluem pressão sobre os preços de combustíveis e energia — com impacto direto sobre o custo de vida e a inflação —, variações cambiais decorrentes da maior aversão ao risco internacional e possíveis repercussões sobre fluxos de investimento estrangeiro. No plano diplomático, o país pode enfrentar expectativas de alinhamento mais claro em fóruns multilaterais, especialmente diante da polarização crescente entre potências ocidentais e países que contestam a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos.

Quanto à evolução do conflito, análises indicam a possibilidade de prolongamento e intensificação dos ataques contra infraestrutura militar e civil na região, bem como o risco de redefinições mais amplas nas dinâmicas de segurança internacional. O cenário também pode abrir espaço para maior protagonismo de potências externas no Golfo Pérsico e reacender debates sobre normas de intervenção, soberania e direito humanitário. Paradoxalmente, há o risco de que a pressão militar estimule setores iranianos favoráveis ao avanço do programa nuclear como instrumento de dissuasão, caso percebam ausência de garantias de segurança.

As críticas dirigidas a Estados Unidos e Israel concentram-se em três eixos principais. O primeiro diz respeito à legalidade internacional: argumenta-se que ações militares preventivas sem mandato explícito do Conselho de Segurança da ONU podem violar princípios da Organização das Nações Unidas, especialmente quanto à soberania estatal e à proibição do uso unilateral da força, salvo em situações inequívocas de autodefesa imediata. Em contraposição, Washington e Tel Aviv sustentam o direito à autodefesa preventiva diante de ameaças consideradas existenciais.

O segundo eixo envolve a acusação de duplo padrão na política externa americana, que combinaria a defesa de democracia e direitos humanos com alianças estratégicas junto a governos autoritários quando interesses de segurança ou energia estão em jogo — crítica recorrente desde a Guerra Fria.

O terceiro ponto refere-se ao risco de escalada regional. Especialistas alertam que ataques contra o Irã podem fortalecer setores mais radicais dentro do país, enfraquecer correntes moderadas e ampliar o apoio interno ao desenvolvimento nuclear como mecanismo de dissuasão. Recorda-se também que intervenções anteriores no Oriente Médio produziram instabilidade prolongada e efeitos imprevistos.

Por sua vez, autoridades americanas e israelenses argumentam que o apoio iraniano a grupos armados hostis, a eventual obtenção de armas nucleares por Teerã e a necessidade de preservar a estabilidade energética global justificariam alianças estratégicas e, em último caso, ações militares. Na sua visão, a inação poderia gerar riscos ainda maiores no longo prazo.

Em termos geopolíticos mais amplos, o Oriente Médio continua operando sob uma lógica de alianças pragmáticas, nas quais segurança, energia e contenção estratégica frequentemente se sobrepõem a agendas normativas. Essa tensão estrutural alimenta críticas, realinhamentos e disputas narrativas. O confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã configura, assim, uma das crises mais graves do século XXI, não apenas pelo potencial destrutivo imediato, mas pela capacidade de redefinir equilíbrios internacionais, impactar mercados globais e desafiar os fundamentos da segurança coletiva — com repercussões que se estendem muito além da região.


* O conceito de “Névoa da Guerra” foi formulado por Carl von Clausewitz em sua obra clássica Da Guerra para descrever a incerteza inerente aos conflitos armados. Segundo o estrategista prussiano, o campo de batalha é permeado por informações incompletas, distorcidas ou falsas, o que dificulta a avaliação precisa da realidade e compromete a tomada de decisão. No contexto contemporâneo, a “névoa” não se limita ao ambiente militar: ela se estende ao plano diplomático, informacional e tecnológico, onde disputas narrativas, desinformação e interesses estratégicos concorrentes tornam ainda mais opaca a compreensão dos fatos. Assim, entre a guerra e a diplomacia, líderes políticos e militares operam em um cenário marcado por ambiguidades, riscos de cálculo equivocado e escaladas inesperadas.


Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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