Fabrício Menardi

Quatro Anos de Guerra na Ucrânia: Entre a Resistência, o Desgaste e a Incerta Busca pela Paz


Quatro Anos de Guerra na Ucrânia: Entre a Resistência, o Desgaste e a Incerta Busca pela Paz Jornal Democrata, edição 1912 de 28 de fevereiro de 2026

A quatro anos do início da invasão em grande escala da Rússia à Ucrânia, marcada em 24 de fevereiro de 2022, o conflito — agora entrando no seu quinto ano — permanece uma das guerras mais devastadoras na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. O balanço humano, econômico e geopolítico deixa um rastro de sofrimento profundo, resistência obstinada e um futuro incerto de resolução política.

Um conflito de proporções históricas

Cinco anos após a invasão, as estimativas mais recentes apontam que milhões de vidas foram transformadas pelo conflito. Segundo dados compilados por instituições internacionais, até a primavera de 2026 o número combinado de mortos, feridos ou desaparecidos entre soldados russos e ucranianos pode chegar a aproximadamente 2 milhões, com centenas de milhares de mortes confirmadas individualmente — especialmente do lado russo, que sofreu perdas extraordinariamente altas em comparação histórica.

No plano civil, as Nações Unidas documentaram mais de 15 mil civis mortos e mais de 40 mil feridos, além de milhões forçados a deixar suas casas e fugir para outras partes da Ucrânia ou para o exterior. O impacto sobre crianças, famílias e comunidades é profundo e contínuo.

Custos econômicos e destruição material

A economia ucraniana está sob enorme pressão, com gastos diários de guerra estimados em dezenas de milhões de dólares e uma reconstrução que pode custar quase US$ 588 bilhões ao longo da próxima década, segundo avaliações conjuntas de instituições internacionais. A infraestrutura civil — incluindo redes de energia, transporte e habitação — foi profundamente afetada, e ataques repetidos deixaram grandes áreas sem eletricidade, água e aquecimento.

Do lado russo, as sanções internacionais e os custos prolongados do conflito enfraqueceram partes significativas da economia, drenando reservas, reduzindo receitas de energia e intensificando pressões fiscais e cambiais, embora Moscou ainda resista sob um regime econômico fortemente militarizado.

Frentes de batalha e ganhos territoriais limitados

Militarmente, o conflito tem sido caracterizado por luta de atrito, com ganhos territoriais marginais e frontes estabilizados em várias regiões. Apesar de ter capturado cerca de 19–20 % do território ucraniano desde 2022, as forças russas fizeram progressos lentos nos últimos anos, muitas vezes avançando apenas dezenas de metros por dia em ataques de alta intensidade. Contemporaneamente, contragolpes ucranianos retomaram áreas em regiões como Zaporizhzhia e Kharkiv, mesmo diante de bombardeios intensivos e esforços para desabilitar a comunicação e a logística russas.

Papel da União Europeia, OTAN e Estados Unidos

O apoio internacional a Kyiv tem sido um fator decisivo na capacidade de resistência da Ucrânia — e o cenário político transatlântico molda profundamente as possibilidades futuras de resolução.

União Europeia

A União Europeia reforçou significativamente seu papel, aumentando o financiamento militar e econômico para a Ucrânia em resposta ao que muitos governos europeus veem como uma necessidade de “blindar” Kyiv contra pressões por um acordo desfavorável. Isso tem incluído pacotes de ajuda, empréstimos multibilionários e esforços para integrar a Ucrânia ao seu mercado de defesa e cadeias de produção militar.

OTAN

Embora a OTAN não esteja diretamente envolvida com tropas combatentes, a aliança tem fornecido suporte logístico, treinamento e coordenação de entregas de armamentos, além de reforçar a segurança coletiva de seus membros próximos ao conflito. A solidariedade na OTAN sustenta a dissuasão regional, mesmo enquanto debates internos sobre o nível exato de envolvimento persistem.

Estados Unidos

Os Estados Unidos têm sido um parceiro crítico no apoio a Kyiv, com pacotes de ajuda militares e econômicos substanciais ao longo de todo o conflito. Recentemente, negociações lideradas pelos EUA buscaram um caminho para um cessar-fogo, embora elas tenham sofrido impasses em questões territoriais fundamentais e nas demandas russas por concessões ucranianas.

No âmbito político, as flutuações de apoio nos EUA, dependentes de mudanças internas e prioridades eleitorais, influenciam diretamente o ritmo e a natureza do suporte, gerando incertezas na arena diplomática.

O que esperar do futuro?

O quadro para uma resolução do conflito continua incerto. As negociações de paz, muitas vezes mediadas por potências ocidentais, ainda não produziram um acordo duradouro, com questões centrais — como integridade territorial, garantias de segurança e status de eleições — permanecendo divergentes entre Kiev e Moscou.

Analistas apontam que um cessar-fogo negociado com garantias reais de segurança para a Ucrânia e um papel mais coeso de atores como a UE, OTAN e EUA — equilibrando ajuda militar com pressão diplomática — é talvez o cenário mais viável para diminuir o derramamento de sangue contínuo. Ao mesmo tempo, há riscos de prolongamento indefinido de um impasse sangrento, especialmente se as partes acreditarem que podem desgastar o adversário no campo de batalha.

Finalmente, a reconstrução de regiões devastadas, a reintegração de milhões de deslocados e a restauração econômica exigirão cooperação internacional sustentada e mecanismos claros de financiamento, justiça e responsabilidade por crimes de guerra, levantando desafios que vão além do campo de batalha e moldarão a Europa nas próximas décadas.

Esse momento crítico de transição — entre continuar uma guerra extenuante ou buscar um acordo que preserve os princípios de soberania e segurança — definirá não apenas o destino da Ucrânia, mas também as relações de poder no século XXI.

Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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