Fabrício Menardi
Pressão máxima, sofrimento máximo: a política de Trump aprofunda a crise em Cuba
Jornal Democrata, edição 1911 de 21 de fevereiro de 2026 A escalada de tensão entre os Estados Unidos e Cuba em 2026 marca uma inflexão perigosa na política hemisférica. Sob a liderança do presidente Donald Trump, Washington adotou uma estratégia de estrangulamento energético e financeiro que, sob o argumento de pressionar o regime cubano, tem produzido efeitos devastadores sobre a população civil.
A retórica da Casa Branca fala em “mudanças drásticas” e “defesa da liberdade”. Na prática, porém, a política de máxima pressão reacende um modelo de coerção que historicamente fracassou em provocar transições democráticas na ilha — e, ao contrário, reforçou a narrativa nacionalista do governo cubano.
O embargo energético como arma política
O elemento central da atual ofensiva é o bloqueio indireto ao fornecimento de petróleo.
Após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, aliado estratégico de Havana, o fluxo de combustível subsidiado foi interrompido. Washington passou a ameaçar sanções e tarifas contra qualquer país que comercialize petróleo com Cuba.
O resultado imediato não é político — é humano.
Sem combustível, o país enfrenta:
Apagões prolongados;
Colapso no transporte público;
Falhas na distribuição de alimentos;
Comprometimento de hospitais e sistemas de água.
Organismos internacionais, incluindo a ONU, alertam para o risco de agravamento da insegurança alimentar e sanitária. A chegada prevista de comboios internacionais de ajuda humanitária evidencia o nível de deterioração social.
A crítica central é inevitável: ao mirar o regime, a política norte-americana atinge prioritariamente a população.
Uma estratégia repetida — e historicamente ineficaz
O embargo contra Cuba vigora há mais de seis décadas. Ao longo desse período, diferentes administrações norte-americanas oscilaram entre endurecimento e tentativa de diálogo.
A política de Trump retoma a vertente mais agressiva — e amplia seus instrumentos ao incluir sanções secundárias e ameaças comerciais globais.
Especialistas do Chatham House questionam se a coerção econômica isolada tem capacidade real de provocar mudança de regime.
A experiência histórica sugere o contrário: sob pressão externa intensa, o Estado cubano tende a consolidar o controle interno, mobilizando o discurso de resistência.
A política atual, portanto, corre o risco de repetir um ciclo conhecido — punição econômica severa, sofrimento social, manutenção estrutural do poder.
O paradoxo migratório
Há ainda um efeito colateral estratégico que parece subestimado por Washington.
Crises profundas em Cuba historicamente geram ondas migratórias em direção à Flórida. Ao agravar as condições de vida na ilha, a política de pressão pode estimular exatamente o tipo de fluxo migratório que o próprio governo Trump afirma querer conter.
Trata-se de um paradoxo político: endurecer para forçar mudança pode resultar em instabilidade regional e aumento da pressão nas fronteiras norte-americanas.
Polarização internacional e reedição da Guerra Fria
A resposta de Rússia intensificou o componente geopolítico da crise. O presidente Vladimir Putin classificou as sanções como “inaceitáveis” e reafirmou apoio à soberania cubana. Embora Moscou não tenha sinalizado envolvimento militar direto, o posicionamento simbólico reforça a narrativa de confronto entre potências.
Ao insistir numa política de isolamento unilateral, Washington contribui para reaproximar Havana de rivais estratégicos — ampliando a polarização hemisférica e reduzindo espaços de negociação diplomática.
Democracia por asfixia?
A questão ética permanece central: é legítimo provocar escassez energética e alimentar como instrumento de pressão política?
A defesa da democracia não pode ser dissociada dos meios empregados. Se a política externa produz sofrimento generalizado sem garantias concretas de transformação institucional, sua legitimidade torna-se questionável.
Críticos apontam que a estratégia de Trump mistura cálculo político doméstico com demonstração de força externa. Ao adotar postura agressiva contra um regime historicamente antagônico, o governo reforça sua base interna, mas corre o risco de ampliar instabilidade regional e agravar uma crise humanitária.
Conclusão
A política de máxima pressão aplicada por Donald Trump contra Cuba não apresenta, até o momento, evidências de eficácia política concreta. Em contrapartida, seus impactos sociais são visíveis e crescentes.
O que se observa é um cenário em que:
O regime cubano permanece no poder;
A população enfrenta escassez crescente;
A tensão internacional se amplia;
O risco migratório aumenta.
Ao optar pela coerção econômica extrema, os Estados Unidos assumem o risco de transformar uma crise política em uma tragédia humanitária prolongada — com consequências que ultrapassam as fronteiras da ilha.
Fabrício Menardi. Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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