Zildão e o empresário sabe-tudo
Imagem gerada por I.A. Zildão nunca se preocupou em ter celular moderno. O dele era pequeno, tela riscada, capa amarelada pelo tempo. Servia para ligar e receber ligação. E só.
Num sábado de sol, Darlan — empresário da cidade, dono de loteamentos e discursos prontos — apareceu no sítio com sua caminhonete reluzente. Antes de descer, ergueu o celular como quem mostra medalha.
— Lançamento. Reconhecimento facial, comando de voz, paga conta, abre porteira automática. Isso aqui resolve a vida.
Olhou para o aparelho simples de Zildão e riu:
— Esse aí ainda faz fumaça?
Zildão ajeitou o chapéu.
— O meu faz ligação.
— Só isso?
— Só isso.
Darlan balançou a cabeça com pena.
Naquela noite, o tempo virou. Chuva grossa, vento atravessado, relâmpago riscando o céu. A energia caiu na região. Internet também. As torres ficaram mudas.
Darlan estava na casa de campo recém-comprada, orgulhoso do portão eletrônico e do sistema todo automatizado. Tentou abrir pelo aplicativo. Nada. Tentou mapa online. Nada. Tentou ligar para o suporte. Sem sinal.
A água começou a subir na estrada principal. A caminhonete, potente no asfalto, não parecia tão valente diante da enxurrada.
O celular de última geração virou um pedaço caro de vidro apagado.
Sem opção, subiu num ponto mais alto do terreno. Ali, um fio de sinal apareceu. Lembrou-se de Zildão.
Ligou.
— Alô?
— Zildão… a estrada tá alagando. Não tenho mapa, não tenho internet. O que eu faço?
Silêncio breve do outro lado.
— Desce pela trilha da figueira. Parece caminho de boi. É mais alta. Não enche. Te encontro lá com o trator.
— Mas essa trilha nem aparece no mapa!
— Mapa não sente chuva, doutor. Eu sinto.
Minutos depois, o trator antigo puxava a caminhonete importada pela lama. Sem GPS. Sem aplicativo. Só memória de cada curva, de cada buraco.
Quando a chuva acalmou, Darlan segurou o celular simples nas mãos de Zildão.
— Você devia trocar isso.
Zildão guardou no bolso.
— Pra quê?
E arrematou:







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