Fabrício Menardi

Novo mapa-múndi: quando a forma de desenhar a Terra também revela uma visão de mundo


Novo mapa-múndi: quando a forma de desenhar a Terra também revela uma visão de mundo Jornal Democrata, edição 1939 de 12 de setembro de 2026
A decisão da ONU reacende um antigo debate sobre tamanho, poder e representação do planeta

Um mapa-múndi parece, à primeira vista, uma imagem objetiva da Terra. Continentes, países, oceanos e fronteiras estão ali, aparentemente apenas reproduzidos sobre uma folha de papel ou uma tela.

Mas nenhum mapa é a Terra.

Todo mapa é uma interpretação. E, ao escolher uma projeção, um centro, uma orientação e aquilo que será preservado ou deformado, estamos também escolhendo uma determinada maneira de olhar para o planeta.

É justamente essa discussão que voltou ao centro do debate internacional.

Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que incentiva a adoção de representações cartográficas mais proporcionais às áreas reais dos continentes. A iniciativa, liderada pelo Togo e apoiada pelos países da União Africana, recebeu 164 votos favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário, dos Estados Unidos.

A resolução não determina que os países abandonem os mapas que já utilizam, nem estabelece uma única projeção obrigatória. Seu propósito é estimular governos, escolas, instituições internacionais e plataformas digitais a considerar representações que expressem de maneira mais equilibrada as dimensões relativas das diferentes regiões do mundo.

No centro dessa proposta está a Equal Earth, projeção criada em 2018 para preservar a proporção das áreas terrestres.

A discussão, porém, não é apenas cartográfica.

Ela envolve história, poder, cultura e, sobretudo, a maneira como aprendemos a imaginar o mundo.



A projeção Equal Earth (em vermelho) mostra o mundo em escala, preservando suas proporções reais, enquanto a projeção de Mercator (em azul) distorce o tamanho das massas de terra, fazendo com que pareçam maiores quanto mais próximas dos polos estão.

O problema começa com uma esfera transformada em plano

Representar a Terra em um mapa é, por natureza, uma tarefa impossível de realizar sem alguma deformação.

O planeta possui uma superfície aproximadamente esférica. O mapa, porém, é plano. Ao transferir uma superfície curva para uma folha de papel ou para uma tela, alguma característica necessariamente será sacrificada.

É possível preservar melhor as áreas, mas deformar as formas. É possível preservar ângulos e direções, mas distorcer o tamanho dos territórios. Também é possível privilegiar distâncias, embora isso produza outras deformações.

Não existe, portanto, um mapa plano capaz de representar perfeitamente todas as características da Terra ao mesmo tempo.
A questão não é descobrir qual mapa é verdadeiro e qual é falso.

A questão é entender para que cada mapa foi feito e o que ele escolheu preservar.

Mercator e o mundo das grandes navegações

É nesse contexto que aparece a projeção de Gerardus Mercator, criada em 1569.

Mercator era um cartógrafo flamengo e desenvolveu uma projeção especialmente útil para a navegação marítima. Sua principal vantagem estava na preservação dos ângulos locais, característica que permitia aos navegadores traçar e seguir determinadas rotas de maneira muito mais conveniente.

Para a navegação, essa propriedade era extraordinariamente importante.

O problema começa quando a projeção é utilizada para comparar o tamanho dos continentes.

Na Mercator, a escala aumenta progressivamente à medida que nos aproximamos dos polos. Territórios situados em altas latitudes passam, portanto, a parecer muito maiores do que realmente são.

A Groenlândia tornou-se o exemplo clássico dessa distorção. Em muitos mapas baseados na projeção de Mercator, a ilha parece ter dimensões próximas às da África.

Na realidade, a África é aproximadamente quatorze vezes maior.

Mercator, portanto, não é um mapa “errado”. Ele simplesmente foi concebido para uma finalidade específica.

E isso é importante porque sua história coincide com um dos momentos decisivos da formação do mundo moderno.

No século XVI, a Europa vivia a expansão das grandes navegações. Portugal e Espanha, seguidos posteriormente por outras potências europeias, ampliavam suas rotas comerciais, ocupavam territórios, estabeleciam colônias e conectavam regiões cada vez mais distantes por meio de uma economia internacional em expansão.

A cartografia tornou-se, nesse processo, uma ferramenta estratégica.

Mapas eram necessários para navegar, localizar portos, estabelecer rotas, administrar territórios, planejar expedições e disputar espaços de influência.

Não seria correto afirmar que Mercator foi criado para fazer a Europa parecer maior ou para exaltar o poder europeu. Essa interpretação simplificaria excessivamente sua finalidade original.

Mas é igualmente difícil ignorar o contexto histórico no qual essa representação ganhou importância.

A projeção nasceu em um período de expansão marítima europeia e se consolidou em uma ordem internacional na qual o poder econômico, militar e comercial estava progressivamente concentrado na Europa.

Primeiro veio o capitalismo comercial. Mais tarde, a Revolução Industrial e o capitalismo industrial ampliariam ainda mais essa centralidade europeia.

O mapa não criou esse poder.

Mas foi produzido dentro desse mundo e tornou-se uma das imagens mais duradouras por meio das quais esse mundo passou a ser visualizado.

Quando a convenção começa a parecer natural

Existe algo ainda mais profundo nessa história.

Quando uma representação é repetida durante séculos, ela deixa de parecer uma escolha.

Parece natural.

Aprendemos, por exemplo, a imaginar o norte na parte superior do mapa. Aprendemos a aceitar a Europa como uma região central da representação mundial.

Aprendemos a enxergar determinados territórios como grandes e outros como pequenos.

Mas nada disso é uma imposição da natureza.

É possível colocar o sul no topo. É possível centralizar o Pacífico. É possível deslocar o centro visual do mapa para a Ásia, para a África ou para as Américas.
A própria definição do meridiano principal também possui uma história.

Durante muito tempo, diferentes países utilizavam diferentes meridianos como referência para calcular a longitude. No século XIX, tornou-se necessário estabelecer uma referência internacional comum.

Em 1884, a Conferência Internacional do Meridiano, realizada em Washington, escolheu o meridiano que passava pelo Observatório de Greenwich como referência principal. A escolha esteve relacionada ao uso já disseminado das cartas britânicas e à influência da navegação marítima britânica.

Greenwich passou, assim, a representar a longitude zero.

Não porque Londres fosse literalmente o centro da Terra, evidentemente, mas porque uma determinada convenção histórica havia se transformado em padrão internacional.

Esse episódio ajuda a compreender algo essencial:
até mesmo aquilo que parece ser o centro natural do mundo pode ser resultado de uma escolha histórica.

Peters: quando a cartografia se transforma em crítica social

Foi nesse longo processo de questionamento das representações tradicionais que ganhou destaque, décadas mais tarde, a projeção associada a Arno Peters.

Aqui também é preciso fazer uma distinção histórica.

A projeção conhecida como Gall-Peters não foi originalmente criada por Peters. Sua formulação matemática havia sido apresentada pelo cartógrafo escocês James Gall, em 1855.

Arno Peters, historiador alemão, retomou essa projeção e a divulgou intensamente a partir da década de 1970. Peters morreu em 2002.

Sua importância, portanto, não está apenas na matemática da projeção, mas no significado político e social que atribuiu a ela.

A Gall-Peters é uma projeção equivalente: preserva a proporção entre as áreas dos territórios.

O resultado é imediatamente perceptível.

A África aparece muito maior em relação à Europa. A América do Sul ganha uma dimensão visual mais compatível com sua área. Países localizados próximos ao Equador deixam de parecer tão pequenos diante das grandes extensões territoriais do norte.

O preço dessa escolha é a deformação das formas.

Os continentes podem parecer alongados ou comprimidos, sobretudo nas diferentes latitudes.

Mais uma vez, não existe perfeição.

Mas Peters introduziu uma questão nova: o que significa representar de maneira justa o tamanho do mundo?

O mapa como instrumento político

Na década de 1970, essa pergunta tinha enorme força política.

O mundo vivia o processo de descolonização. Muitos países africanos e asiáticos haviam conquistado recentemente sua independência. As desigualdades entre o

Norte desenvolvido e o chamado Terceiro Mundo estavam no centro das discussões internacionais.

Nesse contexto, Peters apresentou sua projeção como uma alternativa à visão eurocêntrica dominante.

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