Fabrício Menardi

Entre algoritmos e armas: o projeto de poder por trás do Manifesto da Palantir


Entre algoritmos e armas: o projeto de poder por trás do Manifesto da Palantir Jornal Democrata, edição 1921 de 3 de maio de 2026

A publicação do chamado Manifesto da Palantir, em 2026, não apenas provocou controvérsia internacional, como também revelou de forma explícita uma mudança profunda na maneira como grandes empresas de tecnologia enxergam seu papel no mundo contemporâneo. Mais do que um posicionamento empresarial, o documento apresenta uma visão ideológica estruturada, que articula tecnologia, poder estatal e estratégia militar em um mesmo projeto de reorganização da ordem global.

A Palantir Technologies, fundada no início dos anos 2000 com forte apoio de agências de inteligência norte-americanas, consolidou-se ao longo das últimas décadas como uma das principais fornecedoras de sistemas de análise de dados para governos, forças armadas e órgãos de segurança. Seu crescimento está diretamente associado à expansão da vigilância digital, à guerra informacional e ao uso de inteligência artificial em operações estratégicas. Nesse contexto, o manifesto surge não como uma ruptura, mas como a formalização de uma trajetória já em curso.

Essa trajetória torna-se particularmente visível na atuação da empresa na guerra da Ucrânia, frequentemente apontada como um marco na transformação digital dos conflitos armados. Desde o início da invasão russa, plataformas da Palantir passaram a ser utilizadas para integrar e processar grandes volumes de dados provenientes de múltiplas fontes — imagens de satélite, drones, sensores em campo e comunicações interceptadas. Esses sistemas permitem cruzamento de informações em tempo real, identificação de padrões e apoio direto à tomada de decisão militar, reduzindo drasticamente o intervalo entre coleta de dados e ação operacional.

Na prática, isso representa uma mudança estrutural na condução da guerra. O campo de batalha torna-se cada vez mais orientado por dados, no qual a superioridade informacional pode ser tão decisiva quanto a força bélica tradicional. 

Ao transformar dados em inteligência acionável, a tecnologia passa a desempenhar papel central na definição de estratégias, na seleção de alvos e na coordenação de operações. Nesse sentido, a guerra na Ucrânia tem sido descrita por analistas como um verdadeiro laboratório para o desenvolvimento e a validação de sistemas baseados em inteligência artificial.

Essa aplicação concreta reforça o conteúdo do próprio manifesto. Ao defender a integração entre empresas de tecnologia e estruturas estatais de defesa, bem como o uso intensivo de inteligência artificial em contextos militares, o documento encontra na experiência ucraniana um exemplo real de suas proposições. 

Mais do que uma visão de futuro, trata-se da legitimação de práticas já em andamento.

Inspirado no livro The Technological Republic, de Alex Karp, o documento reúne uma série de proposições que defendem uma reconfiguração do papel da tecnologia na sociedade. Entre seus pontos centrais estão a defesa do uso intensivo de inteligência artificial em contextos militares, a valorização do chamado “hard power” como elemento essencial para a estabilidade internacional e a crítica direta ao que considera fragilidades das democracias liberais contemporâneas. O texto também sugere medidas controversas, como a ampliação do serviço nacional e uma maior integração entre empresas de tecnologia e estruturas estatais de defesa.

O que torna o manifesto particularmente relevante — e perturbador — é o fato de assumir, sem ambiguidades, que empresas privadas devem atuar como agentes ativos na disputa geopolítica global. 

A tecnologia, nesse sentido, deixa de ser apresentada como ferramenta neutra e passa a ser concebida como instrumento de poder. Trata-se de uma inversão significativa do discurso predominante nas últimas décadas, que frequentemente associava inovação tecnológica a progresso, conectividade e democratização da informação.

A repercussão foi imediata. Reportagens publicadas por veículos como o Instituto Humanitas Unisinos, a Folha de S.Paulo e o G1 destacaram a intensidade das críticas ao documento, frequentemente classificado como uma expressão de “tecnofascismo”. 

O termo, embora controverso, busca descrever a convergência entre vigilância digital, poder corporativo e autoridade estatal, em um modelo que prioriza eficiência e controle em detrimento de direitos civis e garantias democráticas.

Essa leitura é reforçada por analistas que identificam no manifesto traços de uma ideologia ultranacionalista e militarizada. 

Ao enfatizar a necessidade de reafirmação do poder ocidental e ao relativizar valores como pluralismo cultural e diversidade, o texto aproxima-se de discursos historicamente associados a projetos autoritários.

Não por acaso, críticos chegaram a compará-lo a narrativas distópicas ou à retórica de antagonistas fictícios — uma metáfora que, embora exagerada, ilustra o grau de inquietação gerado pelo documento.

Entre os críticos mais influentes está o economista grego Yanis Varoufakis, que interpreta o manifesto como sintoma de uma transformação estrutural do capitalismo contemporâneo. 

Para ele, o avanço de empresas como a Palantir indica a emergência de um novo regime de poder, no qual grandes corporações tecnológicas passam a desempenhar funções tradicionalmente atribuídas ao Estado, sem estarem submetidas aos mesmos mecanismos de controle democrático. 

Essa dinâmica, por vezes descrita como “tecnofeudalismo”, aponta para a concentração de poder em plataformas que dominam dados, infraestrutura e capacidade de decisão.

A ideia de que zonas de conflito funcionam como laboratórios para o desenvolvimento tecnológico levanta questões éticas profundas. Se, por um lado, tais ferramentas aumentam a eficiência operacional, por outro, ampliam o potencial de vigilância e controle, além de reduzir a transparência sobre decisões críticas. 

A incorporação de algoritmos em processos militares também suscita preocupações sobre responsabilidade, especialmente em situações que envolvem o uso da força.

Do ponto de vista político, o manifesto evidencia uma mudança na relação entre Estado e setor privado. Historicamente, empresas de tecnologia buscavam se apresentar como inovadoras independentes, ainda que mantivessem contratos com governos. 

No caso da Palantir, essa relação é assumida de forma explícita e ideologicamente justificada. A empresa não apenas presta serviços ao Estado, mas se posiciona como parceira estratégica na defesa de um projeto civilizacional.

Esse posicionamento tem implicações diretas para o debate democrático. Ao concentrar capacidades tecnológicas críticas em mãos privadas, abre-se espaço para a formação de estruturas de poder híbridas, nas quais decisões de grande impacto social são tomadas fora do escrutínio público. 

A ausência de transparência e de mecanismos de accountability torna ainda mais complexa a tarefa de regular essas atividades.

Ao mesmo tempo, o manifesto também encontra apoio em setores políticos que defendem uma postura mais assertiva do Ocidente diante de desafios globais. Para esses grupos, a integração entre tecnologia e defesa é vista como necessária para garantir segurança e competitividade em um cenário internacional cada vez mais instável. Essa divisão de opiniões revela que o debate está longe de ser consensual e envolve visões distintas sobre o papel da tecnologia na sociedade.

Em última análise, o Manifesto da Palantir expõe uma tensão central do século XXI: a disputa entre modelos de organização social baseados em princípios democráticos e aqueles orientados pela lógica da eficiência tecnológica e do poder estratégico. 

Ao tornar explícita essa escolha, o documento força governos, instituições e cidadãos a confrontar questões fundamentais sobre soberania, liberdade e controle.

Mais do que um episódio isolado, o manifesto sinaliza uma tendência mais ampla, na qual empresas de tecnologia deixam de atuar apenas como agentes econômicos e passam a se posicionar como protagonistas na definição dos rumos políticos e geopolíticos do mundo. 

Diante disso, o desafio não é apenas compreender o fenômeno, mas estabelecer limites claros que garantam que o avanço tecnológico permaneça subordinado aos valores democráticos — e não o contrário.


Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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