Fabrício Menardi

Entre a força e o desgaste: o dilema de Donald Trump na guerra com o Irã


Entre a força e o desgaste: o dilema de  Donald Trump na guerra com o Irã Jornal Democrata, edição 1915 de 21 de março de 2026

A guerra com o Irã, conduzida por Donald Trump, deixou de ser rapidamente um episódio de demonstração de poder militar para se transformar em uma crise política multifacetada, cujas consequências ultrapassam o campo de batalha e se infiltram na economia, na diplomacia e na própria sustentação interna do governo americano. O conflito, que poderia ter sido apresentado como uma ação cirúrgica e de objetivos limitados, evolui agora como um processo aberto, instável e cada vez mais difícil de controlar.

Desde seus primeiros desdobramentos, o principal problema da guerra tem sido a indefinição estratégica. O governo dos Estados Unidos parece oscilar entre diferentes metas, que nem sempre são compatíveis entre si. Em alguns momentos, o foco está na contenção do programa nuclear iraniano; em outros, na destruição de capacidades militares específicas; em outros ainda, na tentativa de enfraquecer o regime como um todo. Há também sinais, ainda que indiretos, de ambições mais amplas, como a mudança de regime — um objetivo historicamente complexo, custoso e incerto. Essa multiplicidade de intenções gera um cenário em que a guerra não possui um ponto claro de chegada, o que a torna particularmente vulnerável ao desgaste prolongado.

Essa falta de clareza estratégica se conecta diretamente ao fenômeno conhecido como “expansão gradual de missão”. O conflito, inicialmente delimitado, começa a se ampliar tanto em escopo quanto em intensidade. Alvos militares dão lugar a estruturas mais sensíveis, pressões econômicas se intensificam e a lógica de contenção vai sendo substituída por uma dinâmica de escalada. O problema desse tipo de evolução é que cada novo passo aumenta o custo político e militar sem necessariamente aproximar o país de uma solução concreta.

Nesse contexto, o impacto econômico surge como o elemento mais imediato e talvez mais perigoso para Trump. A instabilidade na região do Golfo Pérsico, especialmente no entorno do Estreito de Ormuz, compromete uma das principais artérias do comércio global de energia. Como resultado, os preços do petróleo sofrem forte pressão de alta, afetando cadeias produtivas, inflação e, sobretudo, o custo de vida dentro dos Estados Unidos. A elevação dos preços dos combustíveis, em particular, possui um peso simbólico e político significativo: ela transforma uma guerra distante em um problema doméstico palpável.

Essa dimensão econômica altera profundamente a natureza do conflito. O que antes poderia ser justificado em termos de segurança nacional passa a ser julgado pelo impacto direto no cotidiano da população. Em termos políticos, isso é extremamente sensível. Presidentes americanos historicamente enfrentam dificuldades quando guerras externas começam a gerar custos internos perceptíveis, e esse padrão parece se repetir. A guerra deixa de ser uma ferramenta de projeção de poder e passa a representar um risco eleitoral.

Ao mesmo tempo, a condução do conflito revela limitações no campo diplomático. A dificuldade de consolidar uma coalizão internacional robusta indica um certo grau de isolamento dos Estados Unidos. Aliados tradicionais demonstram cautela, não apenas por divergências estratégicas, mas também por receio dos efeitos colaterais do conflito, especialmente no campo econômico. Essa hesitação enfraquece a legitimidade internacional da guerra e reforça a percepção de que se trata de uma iniciativa predominantemente unilateral.

Além disso, há sinais de desalinhamento até mesmo entre parceiros próximos. Divergências sobre a intensidade dos ataques, a escolha de alvos e os riscos de escalada evidenciam que não existe um consenso claro sobre os rumos da guerra. Esse tipo de fratura é particularmente problemático, pois reduz a capacidade de coordenação e amplia a imprevisibilidade do conflito.

No plano militar, a estratégia adotada por Trump também revela contradições importantes. Por um lado, há uma tentativa de demonstrar força por meio de ataques aéreos e operações de impacto. Por outro, existe uma clara relutância em avançar para um envolvimento mais profundo, como o envio de tropas terrestres. Essa escolha limita significativamente o alcance dos objetivos mais ambiciosos, especialmente aqueles que envolvem transformações estruturais no Irã. Ao mesmo tempo, a intensificação de ataques sem uma estratégia de conclusão definida contribui para a escalada, criando um cenário em que a guerra cresce, mas não se resolve.

Essa ambiguidade estratégica acaba se refletindo na própria narrativa política de Trump. O presidente tenta equilibrar a imagem de líder forte e decisivo com a necessidade de evitar um conflito de grandes proporções. No entanto, esse equilíbrio é instável. Em alguns momentos, decisões militares parecem ser revistas ou ajustadas em função de seus impactos econômicos, especialmente quando afetam o mercado de energia. Isso indica que a condução da guerra já não é determinada apenas por cálculos estratégicos, mas também por pressões internas crescentes.

O resultado é uma inversão significativa: em vez de a política externa moldar o cenário doméstico, passa a ser o contexto interno que limita e condiciona as ações externas. Esse tipo de dinâmica costuma ser um sinal de fragilidade, pois revela que a liderança política está reagindo mais às consequências da guerra do que conduzindo seus rumos de forma deliberada.

Do ponto de vista do Irã, essa situação representa uma oportunidade estratégica. Em vez de buscar uma vitória militar convencional, o país pode apostar em uma estratégia de desgaste, prolongando o conflito e aumentando seus custos econômicos e políticos. Trata-se de uma abordagem assimétrica, na qual o objetivo não é derrotar o adversário no campo de batalha, mas tornar a continuidade da guerra insustentável.

No fim, a guerra com o Irã expõe um dilema clássico para Donald Trump. Escalar o conflito pode significar aprofundar ainda mais os custos e os riscos, tanto no plano militar quanto econômico. Recuar, por outro lado, pode ser interpretado como sinal de fraqueza, comprometendo a imagem de liderança que sustenta sua posição política. Preso entre essas duas possibilidades, Trump enfrenta uma situação em que qualquer decisão carrega consequências negativas significativas.

Mais do que um confronto militar, o que se desenha é uma disputa de resistência política e econômica. E, nesse terreno, a vantagem nem sempre pertence ao lado com maior poder bélico. Em muitos casos, vence quem consegue suportar por mais tempo o peso do conflito — e é justamente nesse ponto que a guerra começa a se tornar mais perigosa para quem decidiu iniciá-la.


Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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