Fabrício Menardi
Entre a guerra e o acordo: a perigosa crise entre EUA e Cuba em 2026
Edição 1920 de 25 de abril de 2026 Enquanto Trump ameaça com ação militar e aperta o cerco econômico, delegações diplomáticas negociam em sigilo em Havana — e o futuro da ilha caribenha nunca esteve tão incerto
Em algum ponto entre a retórica de guerra e as reuniões secretas em Havana, Donald Trump está apostando numa estratégia dupla com Cuba que poucos imaginavam possível: a mão que aperta o pescoço e a mão estendida para o acordo, ao mesmo tempo.
O mês de abril de 2026 entrou para a história da turbulenta relação entre Washington e Havana como um dos períodos mais carregados desde a Crise dos Mísseis de 1962. De um lado, um presidente americano que proclamou que “uma nova aurora chegará a Cuba” e que, diante de uma plateia em Miami, declarou friamente que “Cuba é a próxima” — logo após exaltar operações militares na Venezuela e no Irã. Do outro, uma delegação sênior do Departamento de Estado que, em silêncio e sem câmeras, desembarcou em Havana no dia 10 de abril para conversas diretas com autoridades cubanas sobre prisioneiros, reformas econômicas, liberdades políticas e propriedades confiscadas após a Revolução de 1959.
A missão secreta em Havana
A visita foi confirmada pelo próprio governo cubano. Segundo a chancelaria de Havana, as reuniões ocorreram de forma “respeitosa e profissional” entre vice-ministros cubanos e “secretários-assistentes” americanos — provavelmente liderados por Michael Kozak, alto funcionário do Departamento de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental. O encontro foi descrito como o mais importante desde a histórica visita do presidente Barack Obama à ilha, em 2016.
Veterano das negociações com Cuba, Kozak tem uma trajetória singular: nos anos 1980, conduziu conversas sigilosas com autoridades cubanas em Manhattan usando um pseudônimo. Nos anos 1990, chefiou a Seção de Interesses dos EUA em Havana durante uma das fases mais tensas da Guerra Fria caribenha. Agora, décadas depois, está novamente no centro das tratativas.
A agenda dos encontros foi ampla: libertação de presos políticos, reformas de mercado, conectividade à internet, indenizações a proprietários espoliados e ampliação das liberdades civis. Os Estados Unidos teriam estipulado um prazo de duas semanas para que Cuba desse um sinal concreto, com a libertação de figuras como os artistas Luis Manuel Otero Alcantara e Maykel Osorbo, do Movimento San Isidro.
Questionado na Câmara dos Representantes pelo deputado Joaquín Castro sobre as negociações, Kozak foi lacônico: “Estamos em contato com eles. O que vai acontecer, ainda está por ser visto.” Castro pressionou: “A razão pela qual precisamos saber disso é que o presidente pode declarar guerra a esse país, e quero saber se há chance de evitarmos isso.”
O cerco econômico e suas consequências humanas
A missão diplomática acontece num contexto de pressão econômica sem precedentes. Desde o início de 2026, a administração Trump impôs um bloqueio quase total ao fornecimento de combustível à ilha — uma medida que vai além das sanções históricas e que está causando um sofrimento humano agudo em Cuba.
Com o petróleo que vinha da Venezuela interrompido após a queda de Maduro, e com as ameaças americanas de punição a qualquer país que ousasse abastecer Havana, Cuba enfrentou mais de três meses praticamente sem uma gota de petróleo. Os apagões se tornaram rotina: mais de 12 horas diárias na capital, e o dia inteiro em municípios do interior. O transporte público entrou em colapso. Mortes evitáveis foram registradas no sistema de saúde.
Em março, um petroleiro russo com 100 mil toneladas métricas de óleo bruto furou o bloqueio — suficiente para cobrir um terço do consumo mensal do país. O alívio foi momentâneo. Outro navio está previsto para chegar nos próximos dias.
Paralelamente, os EUA enviaram US$ 6 milhões em ajuda humanitária para o leste do país e autorizaram empresas privadas a importar combustível para o setor privado cubano, incluindo da Venezuela. Operadores de Miami buscam licenças para fornecer diesel ao sistema público de saúde da ilha.
Cuba correspondeu com gestos próprios: libertou presos políticos e comuns por mediação do Vaticano e por anistia em massa, afrouxou restrições à iniciativa privada pela primeira vez em quase 70 anos, e fez acenos à diáspora cubana nos Estados Unidos.
Trump entre o negócio e a guerra
A estratégia de Trump com Cuba tem a mesma lógica aplicada em outros fronts: pressão máxima para extrair concessões, com a ameaça militar sempre pairando como instrumento de coerção. Não é coincidência que o presidente tenha feito suas declarações mais agressivas sobre Cuba logo após descrever o que chamou de “sucesso” militar na Venezuela, onde os EUA capturaram Maduro e instalaram um governo aliado.
“Em janeiro, nossos guerreiros voaram direto ao coração da capital venezuelana, capturaram o ditador fora da lei Nicolás Maduro e o trouxeram para enfrentar a justiça americana. E muito em breve, essa grande força trará um dia que se espera há 70 anos. Chama-se ‘nova aurora para Cuba’”, disse Trump num evento em Miami.
A Casa Branca ordenou ao Pentágono que acelerasse os preparativos para uma eventual ação militar. A Marinha americana realizou missões de reconhecimento com drones ao redor da ilha. E o senador Tim Kaine prepara para a próxima semana uma resolução de poderes de guerra para bloquear qualquer ação unilateral do Executivo.
Mas há uma diferença fundamental entre Cuba e Venezuela que complica qualquer aventura militar: ao contrário de Caracas, Havana tem na Base Naval de Guantánamo — ocupada pelos EUA desde 1903 — um ponto permanente de presença americana. O embaixador cubano José Cabañas foi direto ao ponto: “Várias gerações de cubanos cresceram e viveram suas vidas sob essa ameaça.”
O presidente cubano Miguel Díaz-Canel, por sua vez, tem elevado a temperatura das declarações. Em entrevista à NBC News, foi categórico: “Se isso acontecer [uma invasão], haverá combate, haverá luta. Nós nos defenderemos, e se tivermos que morrer, morreremos.” Nas comemorações do 65º aniversário da vitória cubana na Baía dos Porcos — a derrota da invasão apoiada pela CIA em 1961 —, Díaz-Canel prometeu resistência de guerrilha caso os EUA ataquem.
Uma história longa de rupturas e aproximações
A relação entre Washington e Havana é uma das mais longas e complexas rivalidades da política externa americana. O embargo econômico dura 66 anos — imposto logo após a Revolução de 1959, aprofundado durante a Guerra Fria e nunca completamente abandonado desde então.
Houve momentos de distensão: os acordos sigilosos do governo Kennedy com Fidel Castro, os canais de comunicação mantidos mesmo nos anos mais frios, e o ápice do deshielo com Obama, que normalizou relações diplomáticas em 2015 e visitou a ilha em 2016. O primeiro governo Trump reverteu parte dessas medidas, e o governo Biden manteve uma posição ambígua — com contatos discretos, mas sem avanços estruturais.
Agora, no segundo mandato de Trump, o cenário é novo: uma combinação de pressão econômica extrema, ameaças militares credibilizadas pelas ações na Venezuela, e ao mesmo tempo negociações de alto nível que buscam um acordo abrangente. Uma fórmula inédita — e de resultado incerto.
O que está em jogo
Os contornos de um possível acordo começam a se desenhar: Cuba liberaria presos políticos e abriria espaço para o mercado privado. Os EUA aliviariam o bloqueio de combustível, permitiriam exploração de petróleo por empresas americanas em águas cubanas, e possivelmente renegociariam as indenizações por propriedades confiscadas há mais de seis décadas.
Mas os obstáculos são imensos. Em Havana, qualquer concessão que pareça afronta à soberania é politicamente inaceitável para um governo que construiu sua legitimidade sobre décadas de resistência ao imperialismo americano. Em Washington, Marco Rubio — filho de cubanos exilados e agora Secretário de Estado — é historicamente um dos maiores inimigos de qualquer abertura com Havana.
E o relógio corre. A crise humanitária na ilha se aprofunda. As ameaças militares americanas não diminuem.
As negociações são frágeis e, por enquanto, inconclusivas.
Cuba sobreviveu à Crise dos Mísseis, à invasão da Baía dos Porcos, ao colapso soviético e a décadas de bloqueio. Mas em 2026, pela primeira vez em muito tempo, a questão não é apenas se o regime vai sobreviver — é em que termos, e a que custo para a população que há décadas paga a conta de uma disputa que nunca foi realmente sua.



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