Fabrício Menardi

Quem está vencendo a guerra? Conflito entre EUA, Irã e Israel revela vitória sem ganhadores


Quem está vencendo a guerra? Conflito entre EUA, Irã e Israel revela vitória sem ganhadores Jornal Democrata, Edição 1917 de 4 de abril de 2026


A guerra envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel, iniciada no começo deste ano, desafia análises simplistas sobre vencedores e derrotados. Ao reunir leituras de veículos internacionais e centros de pesquisa, o que emerge não é um cenário de vitória clara, mas um conflito multifacetado em que ganhos militares imediatos convivem com perdas estratégicas mais profundas, enquanto atores externos acumulam vantagens silenciosas. A dinâmica da guerra revela, sobretudo, uma transformação no equilíbrio global de poder, mais do que um desfecho tradicional no campo de batalha. Essa percepção se torna ainda mais evidente quando se incorporam os dados humanos e financeiros do conflito, que expõem a magnitude dos custos e reforçam a ideia de que, mais do que vencedores, há uma redistribuição de perdas em escala regional e global.

Nos primeiros momentos do confronto, a superioridade militar americana e israelense foi evidente. Ataques coordenados atingiram instalações estratégicas iranianas, incluindo estruturas associadas ao programa nuclear e à infraestrutura militar, além de eliminar quadros importantes do aparato estatal. Esse movimento levou a uma narrativa inicial de vitória rápida, reforçada por declarações da Casa Branca de que a ameaça representada por Teerã estaria próxima de ser neutralizada. No entanto, conforme as semanas avançaram, essa percepção começou a se desgastar. O Irã demonstrou capacidade de resposta consistente, lançando mísseis contra alvos em Israel e também em países do Golfo, ampliando o raio de instabilidade regional e sinalizando que não havia sido incapacitado. Paralelamente à evolução militar, os números de vítimas começaram a revelar o custo real da guerra: nas primeiras semanas, estimativas já apontavam cerca de 2 mil mortos, distribuídos entre os diferentes atores e áreas atingidas.

Essa capacidade de retaliação revela um dos pontos centrais do conflito: a diferença entre vitória tática e vitória estratégica. Embora Washington e Tel Aviv tenham obtido sucesso em operações específicas, não conseguiram eliminar a capacidade de reação iraniana nem promover uma mudança política interna decisiva. Pelo contrário, há indícios de que a pressão externa contribuiu para reforçar a coesão interna do regime iraniano, um efeito frequentemente observado em conflitos desse tipo. À medida que a guerra se prolonga, os números de vítimas aumentam de forma consistente: estimativas mais recentes já superam 3 mil mortos em toda a região, com concentração significativa no território iraniano, onde os registros variam entre cerca de 1.300 e quase 2.000 mortos. O conflito também se expandiu para além dos países diretamente envolvidos, atingindo o Líbano e nações do Golfo, onde centenas de pessoas já morreram. Episódios pontuais, como bombardeios que deixam múltiplas vítimas em um único ataque, ilustram a intensidade da violência e a tendência de agravamento contínuo.

Nesse contexto, o próprio conceito de “vitória” se desloca. Para o Irã, resistir já representa um resultado relevante. A sobrevivência do regime diante de uma ofensiva militar superior, aliada à manutenção de sua capacidade de ataque, permite a Teerã reivindicar uma forma de êxito estratégico. Ao mesmo tempo, o custo humano se amplia com milhões de deslocados internos, especialmente dentro do território iraniano, evidenciando que o impacto da guerra vai muito além das mortes contabilizadas. Mais do que isso, o país conseguiu ampliar o alcance do conflito para a esfera econômica global. A ameaça ao fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, especialmente no entorno do Estreito de Ormuz, provocou uma elevação significativa nos preços da energia, gerando efeitos inflacionários em cadeia e pressionando economias ao redor do mundo.

Essa dimensão econômica é central para compreender quem realmente está se beneficiando do conflito. O aumento dos preços do petróleo, a instabilidade nos mercados e a incerteza global atingem de maneira desigual os diferentes países. Para os Estados Unidos, isso significa custos elevados, tanto do ponto de vista fiscal quanto político. Os gastos militares se acumulam em ritmo acelerado: apenas nos primeiros dias de guerra, o custo já ultrapassava 12 bilhões de dólares, avançando rapidamente para patamares superiores a 18 bilhões nas semanas seguintes. Em termos de intensidade, as operações chegaram a consumir cerca de 900 milhões de dólares por dia, com projeções de que o custo total possa ultrapassar 1 trilhão de dólares no longo prazo, considerando despesas com veteranos, reposição de equipamentos e manutenção do aparato militar. Relatórios mais recentes indicam que o custo incremental já se situa entre 16 e 23 bilhões de dólares, com gastos semanais que podem alcançar 12 bilhões, dependendo do nível de operações.

Israel também enfrenta custos elevados. Em poucas semanas, os gastos militares já somavam cerca de 6,4 bilhões de dólares, além de impactos indiretos relevantes, como danos à infraestrutura, mobilização prolongada de reservistas e retração de atividades econômicas. No caso do Irã, embora os custos militares diretos sejam menores em termos relativos, devido ao uso de estratégias assimétricas como drones e mísseis de menor custo, as perdas estruturais são significativas. Milhares de alvos foram atingidos, incluindo instalações energéticas, industriais e militares, além de áreas urbanas. O impacto econômico interno é agravado por sanções e isolamento, comprometendo ainda mais a capacidade de recuperação do país.

Há ainda um custo global, menos visível, mas potencialmente mais profundo. O conflito já provocou uma das maiores disrupções recentes no mercado de energia, afetando uma parcela significativa do fluxo mundial de petróleo e gás natural liquefeito. Esse choque se traduz em aumento de preços, pressões inflacionárias e desaceleração econômica em diferentes regiões do mundo, atingindo tanto países desenvolvidos quanto economias emergentes. Nesse cenário, a guerra contribui para acelerar tendências estruturais, como a busca por alternativas ao sistema financeiro baseado no dólar, abrindo espaço para novas dinâmicas no comércio internacional.

É nesse ponto que entram os principais beneficiários indiretos do conflito: China e Rússia. Embora não estejam diretamente envolvidos no confronto, ambos os países vêm acumulando vantagens significativas. A Rússia se beneficia da alta nos preços do petróleo, fortalecendo suas receitas e reduzindo pressões econômicas internas, ao mesmo tempo em que se favorece do deslocamento da atenção internacional para o Oriente Médio. A China, por sua vez, mantém relativa estabilidade econômica e amplia sua influência diplomática, posicionando-se como potencial mediadora e reforçando sua presença em um cenário internacional em transformação. Paralelamente, o avanço de mecanismos que reduzem a dependência do dólar no comércio global favorece diretamente os interesses chineses.

Enquanto isso, países do Golfo e outras nações da região enfrentam aumento significativo de vulnerabilidade. A ampliação do teatro de operações transforma o Oriente Médio em um espaço de risco permanente, afetando investimentos, segurança energética e estabilidade política. A guerra deixa de ser um confronto localizado e passa a ter implicações sistêmicas, atingindo cadeias de suprimento, fluxos comerciais e o próprio funcionamento da economia global.

Diante desse quadro, a pergunta sobre quem está vencendo a guerra não admite uma resposta simples. No curto prazo, Estados Unidos e Israel mantêm vantagem militar e capacidade de impor danos relevantes ao adversário. No entanto, essa superioridade não se traduz automaticamente em controle político ou estabilidade regional. O Irã, mesmo sob intensa pressão, demonstra resiliência e capacidade de adaptação, transformando a própria sobrevivência em instrumento de afirmação estratégica. Ao mesmo tempo, os milhares de mortos, os milhões de deslocados e os bilhões — ou até trilhões — de dólares gastos evidenciam que os custos do conflito são amplamente distribuídos.

A guerra, portanto, não redefine apenas o equilíbrio entre seus protagonistas diretos, mas contribui para uma reconfiguração mais ampla do sistema global. Ao enfraquecer a capacidade dos Estados Unidos de impor sua vontade sem custos elevados e ao abrir espaço para o avanço de outras potências, o conflito acelera a transição para um mundo menos unipolar. Nesse sentido, o verdadeiro resultado da guerra pode não ser medido em territórios conquistados ou destruídos, mas na forma como ela redistribui poder, riqueza e influência em escala global — e no preço humano e econômico cada vez mais alto que acompanha essa transformação.


Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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