Fabrício Menardi

Guerra entre EUA, Israel e Irã provoca choque energético e amplia incertezas na economia global


Guerra entre EUA, Israel e Irã provoca choque energético e amplia incertezas na economia global Jornal Democrata, edição 1914, de 14 de março de 2026

A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã desencadeou uma das mais significativas ondas de incerteza econômica global desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. O conflito, que rapidamente ultrapassou o campo militar para atingir infraestrutura energética, rotas comerciais e mercados financeiros, provocou fortes oscilações nos preços do petróleo, aumento das pressões inflacionárias e revisões nas expectativas de crescimento em diversas regiões do mundo.

Embora o impacto final dependa da duração e da intensidade da guerra, analistas já observam que seus efeitos começam a se propagar pelas cadeias produtivas globais, atingindo inclusive economias geograficamente distantes do Oriente Médio, como o Brasil.

O principal canal de transmissão do choque econômico é o mercado de energia. A região do Golfo Pérsico concentra uma parcela decisiva da produção mundial de petróleo e gás natural, e a escalada militar colocou em risco tanto a segurança das exportações quanto a integridade de instalações energéticas estratégicas.

O ponto mais sensível dessa estrutura é o Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo transportado por mar no planeta, além de aproximadamente 20% das remessas globais de gás natural liquefeito (GNL). Qualquer interrupção ou ameaça ao fluxo de navios petroleiros nessa passagem tem potencial para desencadear uma crise energética global.

Logo após os primeiros ataques, os mercados reagiram com forte volatilidade. O barril do petróleo Brent subiu rapidamente e chegou a ultrapassar a marca de 100 dólares, partindo de cerca de 73 dólares antes da escalada militar. Em determinados momentos, o aumento acumulado superou 30%, refletindo o temor de uma interrupção prolongada das exportações da região.

A alta ocorre porque a guerra não ameaça apenas a produção iraniana, mas também instalações energéticas e rotas logísticas em países vizinhos, como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos. Ataques a refinarias, plataformas e terminais de exportação elevaram ainda mais a percepção de risco entre traders e companhias petrolíferas.

Esse choque energético tem implicações amplas para a economia mundial. Em primeiro lugar, pressiona a inflação global, já que combustíveis e energia elétrica são insumos básicos para praticamente todos os setores produtivos. Economistas estimam que, mesmo em cenários relativamente moderados, o aumento dos preços da energia pode elevar a inflação em diversas regiões em cerca de meio ponto percentual acima das projeções anteriores ao conflito.

Além da inflação, o encarecimento da energia altera os chamados termos de troca da economia internacional, transferindo renda dos países importadores de energia para os grandes exportadores. Nesse contexto, economias produtoras de petróleo e gás tendem a se beneficiar temporariamente da alta de preços, ampliando receitas fiscais e superávits comerciais. Países como Noruega, Rússia e Canadá estão entre os que mais podem lucrar com esse cenário.


No extremo oposto estão economias altamente dependentes da importação de energia, como Japão, Coreia do Sul, Índia, China e grande parte da Europa. Para esses países, a alta do petróleo aumenta a conta de importação, reduz a renda disponível das famílias e eleva os custos de produção das empresas.

Nos Estados Unidos, a situação é intermediária. Graças à expansão da produção de petróleo e gás de xisto nas últimas décadas, o país deixou de ser um grande importador líquido de energia e passou a ocupar posição mais próxima da autossuficiência. Isso significa que, embora os consumidores americanos também enfrentem combustíveis mais caros, produtores e investidores do setor energético podem se beneficiar da valorização das commodities.

O impacto final sobre o crescimento econômico dependerá sobretudo da duração do conflito. Caso a guerra seja relativamente curta e não provoque danos duradouros à infraestrutura energética da região, analistas avaliam que o aumento recente do petróleo acima de 100 dólares por barril poderá ser temporário.

Nesse cenário, a economia global teria condições de absorver o choque sem grandes rupturas. A inflação em regiões como Europa e Ásia poderia ficar cerca de meio ponto percentual acima das previsões anteriores, enquanto o crescimento econômico sofreria apenas impacto limitado.

Entretanto, um cenário de conflito prolongado poderia elevar o petróleo para níveis próximos de 130 dólares por barril antes de eventual recuo no segundo semestre. Nesse caso, os efeitos seriam mais amplos. A zona do euro poderia entrar em contração econômica temporária, enquanto os Estados Unidos enfrentariam uma desaceleração no ritmo de crescimento.

A inflação mais alta também teria impacto sobre a política monetária internacional. O Federal Reserve poderia abandonar planos de reduzir juros, enquanto o Banco Central Europeu poderia ser pressionado a adotar uma postura monetária mais restritiva.

O conflito também afeta outros mercados estratégicos além do petróleo. O Oriente Médio é um importante produtor de gás natural e de insumos essenciais para fertilizantes, como amônia e nitrogênio. Interrupções nessas cadeias elevam os custos da produção agrícola global, aumentando o risco de pressão adicional sobre os preços dos alimentos.

O aumento da incerteza geopolítica também provoca reflexos no sistema financeiro internacional. Em momentos de crise, investidores tendem a migrar para ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro dos Estados Unidos e ouro, enquanto mercados acionários e moedas de países emergentes apresentam maior volatilidade.

Entre as economias emergentes, os impactos podem ser particularmente sensíveis. Em vários países, subsídios a combustíveis ainda são amplamente utilizados para proteger consumidores. Nesse caso, o aumento dos preços internacionais transfere o custo para os governos, pressionando contas públicas e elevando riscos fiscais.

Economias com finanças mais frágeis e grande dependência energética — como Egito, Tunísia e Paquistão — estão entre as mais vulneráveis a um choque prolongado nos preços do petróleo e do gás.

Para o Brasil, os impactos são indiretos, mas potencialmente relevantes. A equipe econômica do governo federal avalia que o conflito representa um fator de deterioração do cenário externo, ainda que seus efeitos concretos dependam da evolução da guerra.

O principal canal de transmissão para a economia brasileira é novamente o preço do petróleo. Caso o barril permaneça acima de 100 dólares por um período prolongado, há risco de pressões inflacionárias e de aumento dos custos de combustíveis e transportes no país.

Mesmo sendo um grande produtor de petróleo, o Brasil continua dependente da importação de derivados, especialmente diesel. Essa estrutura torna o país vulnerável às oscilações do mercado internacional e cria desafios para a política de preços de combustíveis.

Diferenças entre preços domésticos e internacionais podem gerar pressões políticas sobre a Petrobras e sobre o governo federal, que precisa equilibrar o controle da inflação com a sustentabilidade financeira da estatal.

Outro ponto de atenção é o agronegócio. O setor depende fortemente tanto do diesel utilizado em máquinas e transporte quanto de fertilizantes importados. Como o gás natural é matéria-prima essencial para fertilizantes nitrogenados, qualquer interrupção no mercado energético internacional tende a elevar custos de produção agrícola.

A combinação de combustíveis mais caros e fertilizantes mais escassos pode pressionar os preços de alimentos, com reflexos diretos na inflação doméstica.

O impacto logístico também preocupa. A alta do diesel encarece o frete rodoviário e pressiona toda a cadeia de distribuição de mercadorias, desde produtos industriais até alimentos básicos. Esse efeito tende a atingir diretamente o consumidor final, com aumento nos preços em supermercados e serviços.

Apesar dessas vulnerabilidades, alguns fatores podem atenuar os efeitos da crise para o Brasil. O país está entre os maiores produtores de petróleo do mundo e tem ampliado suas exportações, o que significa que preços internacionais mais altos podem elevar receitas externas e arrecadação fiscal.

Ainda assim, esses ganhos tendem a ser parcialmente compensados pelas pressões inflacionárias e pelo aumento de custos em setores dependentes de energia e insumos importados.

No cenário global, a principal variável continua sendo a duração da guerra e a extensão dos danos à infraestrutura energética do Golfo Pérsico. Se as hostilidades permanecerem limitadas e as rotas de exportação forem preservadas, os mercados tendem a se estabilizar gradualmente.

Caso contrário, o mundo poderá enfrentar um choque energético comparável às grandes crises petrolíferas do passado, com repercussões duradouras sobre inflação, crescimento econômico e estabilidade financeira internacional.

Fabrício Menardi.  Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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