Zildão e o empresário sabe-tudo

Jornal Democrata, edição 1912 de 28 de fevereiro de 2026
Zildão e o empresário sabe-tudo Imagem gerada por I.A.
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Zildão nunca se preocupou em ter celular moderno. O dele era pequeno, tela riscada, capa amarelada pelo tempo. Servia para ligar e receber ligação. E só.

Num sábado de sol, Darlan — empresário da cidade, dono de loteamentos e discursos prontos — apareceu no sítio com sua caminhonete reluzente. Antes de descer, ergueu o celular como quem mostra medalha.

— Lançamento. Reconhecimento facial, comando de voz, paga conta, abre porteira automática. Isso aqui resolve a vida.

Olhou para o aparelho simples de Zildão e riu:

— Esse aí ainda faz fumaça?

Zildão ajeitou o chapéu.

— O meu faz ligação.

— Só isso?

— Só isso.

Darlan balançou a cabeça com pena.

Naquela noite, o tempo virou. Chuva grossa, vento atravessado, relâmpago riscando o céu. A energia caiu na região. Internet também. As torres ficaram mudas.

Darlan estava na casa de campo recém-comprada, orgulhoso do portão eletrônico e do sistema todo automatizado. Tentou abrir pelo aplicativo. Nada. Tentou mapa online. Nada. Tentou ligar para o suporte. Sem sinal.

A água começou a subir na estrada principal. A caminhonete, potente no asfalto, não parecia tão valente diante da enxurrada.

O celular de última geração virou um pedaço caro de vidro apagado.

Sem opção, subiu num ponto mais alto do terreno. Ali, um fio de sinal apareceu. Lembrou-se de Zildão.

Ligou.

— Alô?

— Zildão… a estrada tá alagando. Não tenho mapa, não tenho internet. O que eu faço?

Silêncio breve do outro lado.

— Desce pela trilha da figueira. Parece caminho de boi. É mais alta. Não enche. Te encontro lá com o trator.

— Mas essa trilha nem aparece no mapa!

— Mapa não sente chuva, doutor. Eu sinto.

Minutos depois, o trator antigo puxava a caminhonete importada pela lama. Sem GPS. Sem aplicativo. Só memória de cada curva, de cada buraco.

Quando a chuva acalmou, Darlan segurou o celular simples nas mãos de Zildão.

— Você devia trocar isso.

Zildão guardou no bolso.

— Pra quê?

E arrematou:





























— Tem tecnologia que depende de torre.
E tem sabedoria que depende de cabeça.

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