O renascimento da poesia popular e sua força no interior do Brasil

El País
O renascimento da poesia popular e sua força no interior do Brasil Literatura de Cordel
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Em épocas remotas, quando o rádio e os jornais mal chegavam aos rincões nordestinos do Brasil, a literatura de cordel fez muito mais do que encantar: ela alfabetizou comunidades inteiras. Esses folhetos em verso, revelados nas feiras e vendidos por ambulantes, informavam, divertiam e conectavam quem vivia longe dos centros urbanos. 

Hoje, após um período de recessão, o cordel vive um novo momento de exaltamento — impulsionado pelas redes sociais, pela voz crescente das mulheres poetas e pela reinvenção dos temas abordados. 

Do passado à modernidade

No passado, o cordel circulava em feiras sertanejas: o folião declamava versos ao público, e, em momentos de suspense, provocava o público dizendo: “se você quiser saber o final, vai ter que comprar”. 

Essas pequenas publicações eram muitas vezes a única forma de cultura e notícia disponível no interior do Nordeste.

Durante o auge de sua influência, o suicídio do presidente Getúlio Vargas (em 1954) gerou cerca de 60 títulos de cordel e vendeu milhões de exemplares — demonstrando o poder desse gênero literário entre populações remotas. 

Com o avanço dos meios de comunicação de massa, rádio e televisão deslocaram parcialmente a função do cordel. Mas agora, com a internet, ele encontra novo fôlego. 

Poetas de hoje publicam nas redes, declamam em lives e reinventam o uso das sextilhas com temas contemporâneos — violência urbana, migração, direitos, identidade, memória. 

Mulheres ocupando o espaço

O cordel tradicional foi historicamente dominado por homens. 

Mas nos últimos anos, autoras como Mari Bigio têm levado o gênero para novos públicos. Bigio combina poesia rimada com ativismo, protagonismo feminino e elementos visuais, atraindo atenção de jovens que antes não se conectavam com o cordel. 

Ao inserir mulheres como narradoras, o gênero se apropria de novas vozes, questiona estereótipos e amplia temas. 

Hoje, histórias de mulheres fortes, resistências femininas e críticas sociais circulam com força nos folhetos e nas redes. 

Papel pedagógico e cultural

Além do apelo estético, o cordel possui um valor educativo singular. Muitos jovens na zona rural aprenderam a ler e escrever por meio de verso e rima — uma forma de alfabetização afetiva e cultural que dialoga com a vida cotidiana. 

Hoje, ele retorna como ponte entre o local e o global: um cordel digital pode alcançar moradores da cidade grande, estudantes, pesquisadores. 

O gênero se expande do folheto impresso para o virtual, conectando o Brasil profundo com novos públicos.

Desafios e perspectivas

Apesar do renascimento, os cordelistas ainda enfrentam desafios — baixos rendimentos, pouco apoio institucional, dificuldades de circulação física. 

Muitos dependem de encomendas, eventos ou redes virtuais para sobreviver. 

Mas em um contexto cultural cada vez mais sensível à identidade regional e à valorização das narrativas periféricas, o cordel renovado tem aliada a tecnologia, a diversidade de vozes e o desejo de reinvenção.

Se antes o cordel alfabetizou milhões nos sertões, hoje ele ressurge como uma literatura viva, crítica e conectada — provando que a poesia popular pode renascer e dialogar com o tempo presente.

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