Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

A COMUNHÃO ECLESIAL


A COMUNHÃO ECLESIAL Jornal Democrata, edição 1938 de 5 de setembro de 2026

As leituras da missa do 23º domingo do Tempo Comum nos interpelam profundamente sobre a comunhão eclesial. A Igreja é o local de encontro de diversas histórias de vida, cada uma do seu jeito, reunidas em torno de uma mesma fé que nos diz que Jesus é o Salvador. Certamente, onde há pessoas, há desafios que precisam ser enfrentados em comunidade. Nesse sentido, a liturgia deste domingo nos recorda que uma comunidade permanece viva na união do amor de Cristo e que cada um de nós tem o dever de zelar pelo bem de todos os irmãos. Se algum membro está doente, todo o corpo se sente afetado; então, amorosamente precisamos cuidar dele e ajudá-lo na recuperação. A comunhão eclesial será tanto mais viva quanto mais amor cultivarmos entre nós.

A vida cristã é essencialmente comunitária. É impossível pensarmos um cristianismo individualista, recluso, isolado, porque a nossa adesão batismal nos insere no corpo místico de Cristo. Utilizando uma linguagem atual, estamos todos on-line, conectados na mesma rede universal de filhos e filhas de Deus e, então, possuímos em comum o “sentido da fé”. Disso se trata o que o magistério chama de uma espécie de “instinto espiritual”, que nos move a “sentire cum ecclesia”, ou seja: sentir, amar, sofrer, professar, caminhar com a Igreja. Assim, cada um dos batizados é convocado a caminhar junto, em sinodalidade, para que a missão de Cristo seja realizada e todos encontrem a salvação. Assim, a comunhão eucarística que recebemos na missa deve reverberar nas nossas atitudes, a fim de que sejamos aquilo que comungamos: outro Cristo para os irmãos, especialmente os mais sofredores e necessitados da graça de Deus.

A leitura da profecia de Ezequiel – Ez 33,7-9 – alerta para a responsabilidade comunitária. Utiliza-se do exemplo da sentinela: em tempos de outrora, as cidades possuíam uma muralha para a segurança da população, e era responsabilidade da sentinela permanecer no alto dessa muralha observando o entorno e alertando sobre possíveis perigos. Deus convoca o profeta a ser uma sentinela para o seu povo. O profeta escuta a voz do Senhor que ordena alertar sobre aquilo que os levará à perdição. Se fazemos parte da mesma família de Deus, somos responsáveis pela salvação de cada irmão. Cada um de nós tem o dever de zelar pela salvação dos outros, instruindo-os segundo os mandamentos de Deus. Em um mundo intensamente confuso e repleto de perigos espirituais, temos de ser luz e voz de verdade para os irmãos. A tarefa da sentinela requer uma visão holística da realidade, buscando decifrar os sinais dos tempos à luz do Espírito Santo e tomando atitudes concretas para que nenhuma ovelha do rebanho se perca.

À medida que nos aproximamos de Jesus, naturalmente nos aproximamos dos irmãos=Rm 13,8-10: segunda leitura da Santa Missa de hoje. Isso porque o fundamento de toda relação cristã é o amor de Cristo. Em cada missa, nós repetimos: “o amor de Cristo nos uniu”, e essa é uma verdade que não pode ficar somente nas palavras. São Paulo nos recorda na Carta aos Romanos que “a caridade é o cumprimento perfeito da lei” (Rm 13,10), sendo assim, precisamos amar-nos mutuamente como o Senhor nos amou. A prova de tal sentido se dá na vivência fraterna. Retomemos, pois, a lógica cristã: Jesus nos amou primeiro, somos filhos de Deus, logo, devemos viver esse amor para com todos. Certamente, essa tarefa exige esforço e abertura de coração, principalmente porque somos seres humanos e erramos. Contudo, o fato de sermos fracos não é motivo para abandonar a luta, pois para Deus sempre há uma nova chance, n’Ele não há vida que não possa ser restaurada.

No Evangelho – Mt 18,15-20 –, temos o exemplo claro de como proceder diante das falhas dos irmãos. Jesus ensina aos discípulos um método de correção fraterna válido até hoje. Toda boa relação deve ser nutrida por amor e verdade. Amor sem verdade é hipocrisia e verdade sem amor é crueldade. Nas nossas comunidades eclesiais, na família, nos círculos sociais diversos, encontramos problemas de convivência. Um encontro maduro entre pessoas não ignora as diferenças: acolhe-as e busca melhorar. Por vezes, algum irmão pode ser mais soberbo, prepotente, alguém que magoa frequentemente os outros. Ao mesmo tempo, pode haver aqueles que não sabem perdoar. Em vez de resolver os atritos coerentemente, muitas vezes optamos por um caminho mais fácil, todavia errado: o da fofoca, da crítica maldosa, do falar “pelas costas”. Nada disso resolve; pelo contrário, agrava o distanciamento e o rancor entre as pessoas. A liberdade interior será fruto de um diálogo verdadeiro, aberto ao perdão e a uma nova oportunidade de crescer quando ambas as partes estão em comum acordo. Se um lado se fecha, é impossível o progresso.

A correção fraterna é um processo de caridade e verdade. Começa pela conversa franca entre as partes envolvidas. Caso não haja prosseguimento, deve-se buscar o apoio de alguns poucos irmãos que realmente possam contribuir. Nessas horas, um bom diretor espiritual será de grande valia para ajudar a organizar a situação. Se, novamente, não houver resultado positivo, comunica-se à comunidade; persistindo no erro, o Evangelho afirma que deve ser considerado como um pagão ou publicano. Mateus escreve para uma comunidade de cristãos de origem judaica, por isso utiliza essas duas categorias de pessoas que representam alguém que está excluído da vida comunitária. Em todo caso, a exclusão é o último ato, não porque a Igreja o faça como um castigo, mas porque a própria pessoa se exclui uma vez que não quer, livre e espontaneamente, sentire cum ecclesia, sentir com a Igreja.

Toda comunhão eclesial tem por principal agente o Espírito Santo. Que Ele conduz a Igreja neste mundo é uma verdade basilar do cristianismo. Por isso, em nenhuma das nossas decisões comunitárias deve faltar o Espírito. Ele, contudo, não age se encontra corações endurecidos e fechados. Sendo assim, toda ação eclesial deve ser regada constantemente pela oração. Jesus afirma: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mt 18,20). Uma vida comunitária será tanto mais frutífera quanto mais for uma vida de oração. Antes, durante e ao final, sempre devemos rezar. Neste mês de setembro, que apenas começamos, gostaria de lhes recomendar fortemente a leitura espiritual da Bíblia, a lectio divina. Nutramo-nos da sabedoria das Sagradas Escrituras, meditando-a e contemplando-a em nosso dia a dia. Essa será uma oportunidade de melhorarmos as nossas relações humanas e fortalecermos a missão da Igreja.

Abramos os nossos corações à força transformadora do Evangelho para que sejamos verdadeiros promotores da reconciliação e da unidade em nossas comunidades. Que a oração nos sustente, a Palavra de Deus nos guie e a caridade seja sempre a medida das nossas palavras e ações. Ao assumirmos a responsabilidade de cuidar uns dos outros com amor, paciência e sinceridade, daremos ao mundo um testemunho vivo de que somos discípulos de Cristo, edificando uma Igreja cada vez mais sinodal, fraterna e acolhedora.


Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.